sexta-feira, 26 de outubro de 2012


DESENCONTRO

Deslizo mansamente o meu coração
no teu pulsar inquieto
Despejo as mil gotas de pólen percorrido
no caminho...
Os teus ramos abarcam as estepes desertas,
esquecidos das viagens incertas...
Espero-te na encruzilhada primeira,
à direita do meu coração desfeito.
Neste rumar-safari desencontrado; espelhos, 
palmeiras, palmarés de espuma, parto
nos passos perdidos do pastor.
Peço-te simplesmente por favor,
pede-me um beijo breve
na partida, amor.

                                                                                                                                                








O Largo


"Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.


Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida- a grande e misteriosa vida do Largo.


Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber- cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.

 Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

A casa era para as mulheres."

MANUEL DA FONSECA

Um bonito excerto de " O Fogo e as Cinzas" (1951) de Manuel da Fonseca. Um retrato dos trabalhadores rurais dos anos 40-50, num Alentejo rústico e em decomposição, de personagens condenadas à pobreza, pela exclusão ou pelo esquecimento.Um mestre do neo-realismo.

Um pouco do meu Alentejo. Neste caso, os mineiros, tão esquecidos.




DESCONCERTO

O amor é um barco distante no mar,
ou este ondular constante do meu coração
nas praias do teu olhar?
Ou é apenas o saltitar das minhas mãos, tão persistente
na estrada da imaginação descrita pelo sol poente?
Será este céu que se sente tão fundo na alma...
É lava de vulcão
ou apenas a estranha calma
duma louca e desconcertada oração?
Será flor de jardim,
ou apenas este pomar a brotar desajeitado
dentro e fora de mim?



PROMESSA

Um dia soltarei as borboletas que trago na barriga

E no ar lançarei as vagas.

Contigo ficarei para sempre comigo a sós, e irei

Sempre com uma moldura na voz

Rodear-te de atenção e loucura. Em ti porei

Para sempre, como no presente, a minha ternura.

Nus, teus braços barcos cordas, esperarei

Em cada vale o deslizar de todas as neves

E se suspendam de ti as folhas, alegrias breves.
A mar-te-ei como às flores, para sempre todas as tuas cores.
Ficarei liberta e louca nas casas da tua boca
E amar-te-ei sempre nas asas duma gaivota
Com olhos brancos de espuma...
Flutuante, bela e capaz de romper uma a uma
Cada nuvem que aparecer.
Amar-te-ei sempre. 





Hoje apetece-me falar de Chico Buarque. Cantor, compositor e escritor que admiro.

Nascido em 1944 no Rio de Janeiro, publicou as peças Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d'Água (1975) e Ópera do Malandro (1979); é também autor da novela Fazendo Modelo e dos romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009).

Budapeste foi adaptado ao cinema num filme realizado por Walter Carvalho,no qual participam os actores Ivo Canelas e Nicolau Breyner.



Excerto de Leite Derramado:



 Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade de minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra.Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira  que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras do meu avô.".......



Um pouco da sua música : "A Valsinha"




Cavalos Selvagens


         CAVALOS SELVAGENS

                                       

     A vida é folha que passa, esvoaça e se desfaz...

               Nesta paz de movimentos ilusórios, pouso o chapéu 
no dorso dos cavalos selvagens;


    imagens libertas de elegância, floresta, cor

      movimento, som e fragrância.



Maré



O primeiro poema que me lembro de ter escrito por volta dos meus 15 anos de idade.
Como o tempo foge! Tanto mar e tanta maré!
                            

         A MARÉ
          (Falso soneto)


    As tristes algas vadias 
     Vagueiam no mar deserto
     Cansadas todos os dias
     Vêm vêm para perto...

     E todo o verde já morre
     Morre sem saber porquê
     Pois toda a água já corre
     E foge , ninguém a vê...

     Nesta natural verdade
     Que não me deixa saudade
     Fico à espera da maré.

     Fico escutando na vaga
     Toda a tristeza da alga
     Que já não sabe quem é...