sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Voar

VOAR

Quando vieres poderei desfolhar todas as rosas do jardim; 
até num gesto, sem que te rias de mim
destronar todas as princesas, pôr flores em todas as mesas.

Cobrirei no silêncio, o teu corpo de beijos

     e a minha cama de desejos.

     E quando o sol abrir de repente o teu sorriso

     dir-te-ei sem reservas com toda a força 

     que é preciso

     que os deuses morreram

     e só nos temos um ao outro.
     Depositarei no Olimpo todos os segredos contidos, 
     todas as mágoas nos tempos idos.
     Liberta de promessas, ilusões e receios
     fundirei nos céus todos os astros,
     ficarei na escuridão do quarto a escutar a tua voz.
     O vento soprará para nós e toda a cidade
     renascerá das cinzas; Fénix renascida 
     das noites do passado...
     Depois de te ter amado assim,
     porei dentro de ti, em mim teus olhos doces
     como se fosses
     a esperança e alegria da manhã.
     Sã miragem de sonho concretizado
     realizarei em próxima viagem, os teus cabelos
     a crescer sobre os meus dedos.
     Sem medos,
     como quem espera a madrugada,
     não pedirei mais nada.
     Decidirei em cada regresso 
     o renascer da bruma na orla da praia
     e pintarei para que não saia
     nunca mais das minhas margens o sonho das viagens
     e este rio que me percorre desde sempre.
     No presente ficarei a sós contigo.
     Em cada abrigo , perto das grutas
     nascerão de corpos cansados, todas as lutas.
     Estarei de braços abertos e fecharei em laços
     os teus braços, e ao ouvir os teus passos pelo chão
     estenderei sem limite a minha mão...
     Estarei à tua vinda, sempre, ainda,
     ave na primavera dos países.
     Voando....



ROSAS VERMELHAS


MANUEL ALEGRE

                                                                                    ROSAS VERMELHAS 

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso, eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo,uma espécie de bandeira para mim mesmo.
 E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
 Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
 E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que , pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
 E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
 - Mãe!
e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
 Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar :
 -Mãe!
e logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
 Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
 Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia - como direi ? - acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre ( para sempre? Que quer dizer para sempre? ). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como 
se fosse a voz longínqua do meu povo:
 - Coragem!
eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça ( onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
 E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
 -Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
 Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder :
 -Bom dia!,
de cabeça erguida, era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhos sobre os meus vinte e sete anos.
 Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato ( talvez o medo? ), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora ( a mais solitária das horas ), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás :
 -Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
 É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
 Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse :
 -Mãe!
a voz ( tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
 Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
 No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
 Porém, nessa manhã  (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? - às dez e um quarto , que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."
                                                    
                                                                     in Praça da Canção de Manuel Alegre
       

                                           

Para terminar, Amália a cantar Manuel Alegre
                                          




DESENCONTRO

Deslizo mansamente o meu coração
no teu pulsar inquieto
Despejo as mil gotas de pólen percorrido
no caminho...
Os teus ramos abarcam as estepes desertas,
esquecidos das viagens incertas...
Espero-te na encruzilhada primeira,
à direita do meu coração desfeito.
Neste rumar-safari desencontrado; espelhos, 
palmeiras, palmarés de espuma, parto
nos passos perdidos do pastor.
Peço-te simplesmente por favor,
pede-me um beijo breve
na partida, amor.

                                                                                                                                                








O Largo


"Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.


Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida- a grande e misteriosa vida do Largo.


Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber- cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.

 Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

A casa era para as mulheres."

MANUEL DA FONSECA

Um bonito excerto de " O Fogo e as Cinzas" (1951) de Manuel da Fonseca. Um retrato dos trabalhadores rurais dos anos 40-50, num Alentejo rústico e em decomposição, de personagens condenadas à pobreza, pela exclusão ou pelo esquecimento.Um mestre do neo-realismo.

Um pouco do meu Alentejo. Neste caso, os mineiros, tão esquecidos.




DESCONCERTO

O amor é um barco distante no mar,
ou este ondular constante do meu coração
nas praias do teu olhar?
Ou é apenas o saltitar das minhas mãos, tão persistente
na estrada da imaginação descrita pelo sol poente?
Será este céu que se sente tão fundo na alma...
É lava de vulcão
ou apenas a estranha calma
duma louca e desconcertada oração?
Será flor de jardim,
ou apenas este pomar a brotar desajeitado
dentro e fora de mim?



PROMESSA

Um dia soltarei as borboletas que trago na barriga

E no ar lançarei as vagas.

Contigo ficarei para sempre comigo a sós, e irei

Sempre com uma moldura na voz

Rodear-te de atenção e loucura. Em ti porei

Para sempre, como no presente, a minha ternura.

Nus, teus braços barcos cordas, esperarei

Em cada vale o deslizar de todas as neves

E se suspendam de ti as folhas, alegrias breves.
A mar-te-ei como às flores, para sempre todas as tuas cores.
Ficarei liberta e louca nas casas da tua boca
E amar-te-ei sempre nas asas duma gaivota
Com olhos brancos de espuma...
Flutuante, bela e capaz de romper uma a uma
Cada nuvem que aparecer.
Amar-te-ei sempre. 





Hoje apetece-me falar de Chico Buarque. Cantor, compositor e escritor que admiro.

Nascido em 1944 no Rio de Janeiro, publicou as peças Roda Viva (1968), Calabar (1973), Gota d'Água (1975) e Ópera do Malandro (1979); é também autor da novela Fazendo Modelo e dos romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009).

Budapeste foi adaptado ao cinema num filme realizado por Walter Carvalho,no qual participam os actores Ivo Canelas e Nicolau Breyner.



Excerto de Leite Derramado:



 Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade de minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra.Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira  que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras do meu avô.".......



Um pouco da sua música : "A Valsinha"