segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Stefan Zweig


"A vida não dá coisa alguma sem retribuição e sobre cada coisa concedida pelo destino, há secretamente um preço, que cedo ou tarde deverá ser pago"


 Stefan Zweig, escritor austríaco de espírito universalista (Viena 1881-Petrópolis 1942). Exilado em Inglaterra devido à sua irredutível oposição ao nacional socialismo, viria a fixar-se no Brasil, onde, amargurado por ver a Europa espezinhada pela barbárie nazi, viria a suicidar-se juntamente com a mulher. 
 Cultor de poesia, ensaio, teatro, romance e biografia (de destacar a sua biografia de Fernão de Magalhães, Balzac ou Dostoievski, entre outras...) foi também tradutor de literatura inglesa e francesa. Profundo conhecedor da civilização europeia, escreveu obras carregadas de limpidez, sem grandes arrebatamentos, e impregnadas de tolerância e calor humano.
 Muito escreveu S. Zweig, mas destacarei apenas "Amok. Três histórias de Paixão." (1922), "Ansiedade" (1925), "A Confusão de Emoções. Três novelas": ( "Vinte e Quatro Horas da Vida de uma Mulher", "O Naufrágio de um Coração" e "Sentimentos de Confusão") 1927. Ler mais...
 Escolhi para homenagear este autor, um excerto de "Vinte e Quatro Horas na Vida de uma Mulher", livro que li de um fôlego na minha adolescência. Com acção na Riviera Francesa, o que me fascinou na altura foi a simplicidade de escrita, a abordagem ao vício do jogo, e a demonstração de como em poucas horas, a vida de alguém pode mudar de forma tão inesperada.
 Vinte e quatro horas podem significar uma sequência monótona de rotinas, uma série de acontecimentos imprevistos e sem significado, mas podem também conter em si uma avalanche de acasos susceptíveis de modificar para sempre a forma como se encara a própria vida.
 Assim, um dia pode ser tudo e nada. Pode ser um tempo oco, um mar de águas paradas, ou um tempo  pleno de intensidade psicológica; a tempestade num íntimo adormecido.


                                 VINTE E QUATRO HORAS NA VIDA DE UMA MULHER 

 "(....) Devo frisar bem que, quando segui precipitadamente na rua esse jogador desesperado, não estava de forma alguma, enamorada dele; não pensava nele como uma mulher pode pensar num homem; pois a verdade é que eu, então mulher de mais de quarenta anos, nunca mais olhara para nenhum homem depois da morte do meu marido (....)Também é verdade que por outro lado, vai ser-me difícil qualificar com precisão o sentimento que naquele instante, me arrastou assim, irresistivelmente...(....)No meio de tal incerteza, era a primeira a sentir a loucura, o ridículo da situação.
 Separada durante vinte anos, como eu tinha estado, de todos os gozos diabólicos da existência, jamais poderia compreender a maneira grandiosa e fantástica, como às vezes, a natureza concentra nalguns rápidos bafejos, tudo o que existe nela de calor e de gelo, de vida e de morte, de deslumbramento e de desespero. E esta noite foi de tal forma  cheia de lutas e de palavras, de paixão , de cólera e de raiva, de lágrimas e de súplicas, que me pareceu durar mil anos, e que nós - dois  seres humanos que oscilavam enlaçados no fundo dum abismo: um trazendo em si a fúria da morte, outro sem nenhum pressentimento oculto - saímos dela completamente transformados, diferentes, inteiramente mudados, com outro espírito e outra sensibilidade. (....)
 Notei apenas que o jogo o tinha enervado, que o insensato tudo esquecera: o seu juramento, o seu encontro, o universo e a minha existência.(....)
 Haviam decorrido precisamente vinte e quatro horas depois daquele maldito encontro: vinte e quatro horas absolutamente cheias  pela tempestade ululante dos sentimentos mais estranhos que tinham ferido a minha alma para sempre......partir! partir! partir!....
 Partir para longe daquela terra maldita, para longe de mim própria, voltar à minha vida antiga, à minha verdadeira vida. (....) Evitei todas as perguntas e pedi apenas um banho...(....). Em seguida fui para o meu quarto e dormi  durante doze a catorze horas um sono de animal ou de pedra, como nunca dormi antes nem depois....A minha família inquietou-se por mim como por uma doente. Mas a sua ternura só conseguia fazer-me mal; tinha vergonha, sentia-me acanhada diante do respeito e dos cuidados que me dispensavam......que os havia traído a todos, que os tinha esquecido, quase abandonado, sob o império de uma paixão louca e insensata.(....)
 Apesar de tudo , o tempo tem um grande poder,(....). Pouco a pouco, refiz-me do choque... (...) 
 Já não existia para mim outra testemunha além da minha própria recordação. Depois fiquei mais tranquila. Envelhecer não é , no fundo, senão perder o medo do passado. (...)
 Quando o vi defender Madame Henriette... fiquei-lhe reconhecida porque , pela primeira vez, me via , por assim dizer justificada...e que amanhã, me seria possível entrar de novo na sala onde encontrei o meu destino, sem sentir ódio por ele nem por mim. (....)

 Olhei sem querer, para o seu rosto e achei singularmente enternecedor o aspecto daquela mulher idosa, que se encontrava diante de mim, amável e ao mesmo tempo acanhada.
 Seria o reflexo duma extinta paixão? Seria confusão, o que de repente lhe coloriu dum vermelho inquieto as faces até à raiz dos seus cabelos brancos? O certo é que estava ali como uma menina, pudicamente perturbada pela recordação, mas a quem a confissão dera a felicidade. Acanhado, sem saber porquê, experimentava um vivo desejo de lhe testemunhar por uma palavra a minha consideração, mas sentia a garganta apertada e nada mais pude fazer do que inclinar-me profundamente e beijar, com respeito, a sua mão enrugada, que tremia ligeiramente como a folhagem de Outono." 



 Espero que apreciem esta "Insensatez" com o sax do talentoso Stan Getz, e imagens do filme "La Notte" de  Michelangelo Antonioni, com Jeanne Moreau, Marcello Mastroiani e Monica Vitti. Adoro cinema italiano!     


                 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Chuva







 Que seria da Primavera sem a chuva do Inverno?...Refresca-nos a alma e faz brotar os perfumes da terra.
    Maria, este humilde poema é para ti.


                                                     
                                             
                                                  CHUVA

                               
                               Águas caíram, galgaram a margem.
                               Não há nuvem que sempre dure
                               Nem leito de rio que perdure
                               Seco, não vibrante na paisagem.
                               Choveu. Mesmo agora.
                               Lá fora e dentro de ti.
                               Não há no entanto
                               Desencanto pelas fragas.
                               Apenas ecos dispersos pelo monte
                               Anunciando sem mágoas
                               A eterna juventude dos deuses
                               A cintilar em cada fonte.
                               Pardais partiram em debandada
                               Sacudindo as pesadas penas
                               Em esvoaçante, fulminante segundo;
                               Transportando p'lo imenso arvoredo
                               Gotas de luz p'ró interior do mundo.




Para este poema escolhi a canção "Chuva", uma criação do genial letrista e compositor Jorge Fernando, também magnifíco cantor, aqui na voz de Mariza. É muito verdade, "as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade............."





                              
  

                           

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pablo Neruda


                      "Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem, são eternos como a natureza"
                        


 Pablo Neruda, pseudónimo do poeta chileno Ricardo Eliézer Neftali Reyes Basoalto (Parral 1904-Santiago do Chile 1073). Foi professor do Instituto Pedagógico de Santiago, tendo desempenhado posteriormente cargos diplomáticos em Espanha, México e França. Prémio Lenine da Paz em 1953, e Prémio Nobel da Literatura em 1971, a sua escrita parte do pós-modernismo e desagua no vanguardismo e na poesia social.
 De destacar na sua obra: "Crepusculário"(1923), "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"(1924), "Canto Geral"(1950), "Todo o Amor"(1953), "Odes Elementares"(1954), "Cem sonetos de Amor"(1959), "Memorial da Isla Negra"(1964), "A Barcarola" e "A Morte de Joaquin Murieta" de (1967), "Confesso que Vivi" (autobiografia publicada postumamente em 1974), e muitos outros escritos que não vou enumerar.
 Pensei em publicar este soneto na versão portuguesa mas como o poema perde muito em termos de sonoridade, aqui vai o original.


                                                        SONETO LXVI

                                           No te quiero sino porque te quiero
                                           Y de quererte a no quererte llego
                                           Y de esperarte cuando no te espero
                                           Pasa  mi corazón del frio al fuego.

                                           Te quiero sólo porque a ti te quiero,
                                           Te odio sin fin, y odiándote te ruego,
                                           Y la medida de mi amor viajero
                                           Es no verte y amarte como un ciego.

                                           Talvez consumirá la luz de Enero,
                                           Su rayo cruel, mi corazón entero,
                                           Robándome la llave del sosiego.

                                           En esta historia sólo yo me muero
                                           Y moriré de amor porque te quiero,
                                           Porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

                                                                                  in "Cem sonetos de Amor"


 Cantado por artistas como Ana Belén, Joaquin Sabina, Pablo Milanés, Estrella Morente, Paco Ibañez, Victor Jara, Julieta Venegas ou Miguel Poveda, decidi-me no entanto  pelo poema " Me gustas quando callas", musicado por Victor Jara , na voz de Mercedes Sosa, e a maravilhosa pintura de Jorge Murillo.







E para finalizar, o trailer do filme de Michael Radford "O Carteiro de Pablo Neruda" (Il Postino), baseado no livro de Antonio Skármeta, com Philippe Noiret, o talentoso Massimo Troisi, e Maria Grazia Cucinotta.






domingo, 30 de dezembro de 2012

Onda



ONDA

Deixa  que as gotas frescas cresçam
E perfumem o Sol.
Deixa todo o rio que em ti vive
Mergulhe no meu ventre e se esqueça do mar.
Deixa que o oceano azul, vivo e molhado
Se transforme e grite em mim onda na rebentação.
Deixa, em cada despertar, a água que me arrasta
Fazer-te brilhar.


 Estive indecisa entre "Ich hab dich lieb", "Halt mich", mas decidi-me por "Ich will mehr", por ser uma canção mais enérgica. É do que todos precisamos; uma injecção de energia para o próximo ano quase a bater à porta...E pelas ondas.
  
Herbert Grönemeyer, o meu cantor alemão favorito.


sábado, 29 de dezembro de 2012

J.C.Ary dos Santos


" E as coisas que não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
Meu pântano de rosas afogadas"

 José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um dos grandes poetas portugueses (Lisboa 1937-Lisboa 1984).Nascido numa família burguesa enraizada na aristocracia,decide sair de casa por volta dos 16 anos de idade,e é também nessa altura que alguns dos seus poemas integram a Antologia do Prémio Almeida Garret, mas poderemos dizer que a sua verdadeira entrada na escrita se dá com "A Liturgia do Sangue".
 A sua poesia chegaria facilmente ao grande público através de mais de 600 fantásticas letras para canções que ficaram célebres, tendo sido cantado por inúmeros artistas dos quais destaco Simone de Oliveira,Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália, Maria Armanda,Tereza S. Carvalho, Maria da Fé, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, e muitos outros... Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti prestaram-lhe homenagem com " Rua da Saudade".
 Depois da sua morte foi-lhe atribuída a Grande Ordem do Infante D. Henrique,e o seu nome foi dado a um largo de Alfama, bairro onde viveu praticamente toda a sua vida.
 Grande declamador expressou melhor que ninguém "As Portas que Abril Abriu".
 Abril escancarou portas que ameaçam fechar-se num futuro próximo. Que poemas escreveria Ary, um homem sem papas na língua, na situação actual do país?...
          
     
         
     De destaque na sua obra "Asas"(1953), "A Liturgia do Sangue"(1963, "Tempo da Lenda das Amendoeiras"(1964),  "Adereços, Endereços"(1965), "Insofrimento in Sofrimento"(1968), "Ary dos Santos por Si Próprio"(1970), "Poesia Política"(1974), "Llanto para Alfonso Sastre y Todos"(1975), "As Portas que Abril Abriu"(1979), "O Sangue das Palavras"(1983), etc...


DESESPERO

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

                                                       in "Liturgia do Sangue"



Letra de Ary dos Santos, música de F. Tordo na voz de Carlos do Carmo, "Estrela da Tarde"








sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Vazio



VAZIO

Teus olhos, duas andorinhas inquietas;
Num sono de pálpebras abertas...
Os meus; dois lagos no encontro...
Por vezes secos num martírio de fogo.
O que falamos é pouco, tudo reduzido
ao meu olhar não luminoso.
Tanto  ficou por dizer...
Apenas meu rosto ansioso por te procurar,
Meu corpo  macerado de te desejar...
Meu coração cansado de tanto apertar
o vazio.



 Para acompanhar este poema, a minha escolha caiu sobre "Me esta doliendo una pena" de Patxi Andion,um dos meus cantores e compositores preferidos.







domingo, 4 de novembro de 2012

Florbela Espanca

                   
                                                     "Tens sido vida fora o meu desejo
                                                      E agora, que te falo, que te vejo,
                                                      Não sei se te encontrei...se te perdi.."


 Uma vida imensa  de apenas 36 anos (Vila Viçosa 1894-Matosinhos 1930) abreviada devido a uma alma perturbada e sofredora, (experienciando ora estados de depressão, ora de exaltação), que conseguiu transformar o sofrimento  em poesia pincelada de erotismo, feminilidade caprichosa e panteísmo.
 Florbela Espanca foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino secundário. Inscreveu-se depois no curso de Direito da Universidade de Lisboa, licenciatura que não terminaria.
 De destacar na sua obra o "Livro de Mágoas"(1919), o "Livro de Soror Saudade"(1923),  "Charneca em Flor" e "Reliquiae"( ambos editados postumamente em 1931).
 Todos os seus sonetos foram reunidos em "Sonetos Completos",obra publicada em 1934, e sucessivamente reeditada. Com disse José Régio, existem "Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido..."
 Afectada por uma neurose, não resistiu à terceira tentativa de suicídio. Faleceu no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.



                                                            ALMA PERDIDA

                                                Toda esta noite o rouxinol chorou,
                                                Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
                                                Alma de rouxinol, alma de gente,
                                                Tu és talvez, alguém que se finou!

                                                Tu és, talvez, um sonho que passou,
                                                Que se fundiu na Dor, suavemente...
                                                Talvez sejas a alma, a alma doente
                                                Dalguém que quis amar e nunca amou!

                                                Toda a noite choraste...e eu chorei
                                                Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
                                                Que ninguém é mais triste do que nós!

                                                Contaste tanta coisa à noite calma,
                                                Que eu pensei que tu eras a minh'alma
                                                Que chorasse perdida em tua voz!...
                                                                             
                                                                    in  "Livro de Mágoas" ("Sonetos Completos")


Florbela Espanca tem sido cantada por artistas tão diferentes como Luísa Basto, Tereza Silva Carvalho, Luís Represas, Mariza, ou Fagner...Como tal, tendo dificuldade em escolher uma interpretação, prefiro chamar a atenção para o filme "Florbela" realizado por Vicente Alves do Ó, protagonizado por Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo.