Redescobri no baú de poemas que fui guardando ao longo dos anos, este poema sem título,de autor/a brasileiro desconhecido/a. Simples e leve na forma, mas intenso de conteúdo.
Devo tê-lo retirado certamente de algum folheto ou revista da altura...Tentei encontrá-lo online mas não tive sucesso... até que a sua autora teve a gentileza de apresentar-se! Obrigada, Luma Rosa por escrever de forma tão bonita. Foi um prazer editar este post.
Nada melhor para palavras de Língua Portuguesa com cheiro a Brasil, que este tema de Toco, Samba Noir do álbum "Outro Lugar". Um magnífico compositor e cantor paulista.
"Só há humilhação se se aceita a escala de valores que os outros nos impõem."
Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia 1916-Lisboa 1996), professor e escritor, distinguiu-se no género de romance, ensaio e diário, tendo sido galardoado com o Prémio Camões em 1992. São tantas as suas obras que salientarei apenas: "O Caminho fica Longe"(1943), "A Face Sangrenta"(1953), "Aparição"(1959), "Cântico Final"(1960), "Apelo da Noite"(1963), "Alegria Breve"(1965), "Apenas Homens"(1970), "Signo Sinal"(1979), "Para Sempre"(1983), "Até ao Fim"(1987), "EmNome da Terra"(1990), "Na tua Face"(1993)......Ler mais
A Universidade de Évora instituiu em 1997 o Prémio Vergílio Ferreira como homenagem ao escritor e ensaísta, galardoando assim outros autores de Língua Portuguesa.
Inserido na corrente neo-realista, a sua escrita foi aos poucos sendo influenciada pelo Existencialismo, pautando as suas narrativas pela importância do indivíduo como actor do seu destino, no qual a memória e a consciência adquirem valor próprio.
Um esteta da palavra que considerava que a ligação do homem com o mundo era feita de emoção, e como tal precisaria de "um esclarecimento e superior objectivação" que só a a arte poderia tornar possível.
Apaixonado pela Serra da Estrela onde como num regresso às origens,seria enterrado, decidi por isso evocar "Manhã Submersa", romance escrito em 1954, drama de cunho autobiográfico no qual o autor relata experiências pessoais dolorosas, partindo da personagem António Borralho para a abordagem da pobreza e desigualdades sociais, num ambiente de repressão educativa.
Coagido a frequentar o Seminário do Fundão, por uma tutora beata que o oprime através da religião,para uma vocação que não sente, António vivenciará os caprichos dos padres e as suas obsessões, a solidão e a angústia, suavizadas apenas pelo espírito de camaradagem entre os rapazes.Adopta, por fim, uma posição de ruptura através de um acto impensado que lhe indicará o caminho de volta a uma realidade crua mas liberta.
Eis alguns excertos.
MANHÃ SUBMERSA
"...Marcada a cama de cada um, voltamos à sala de espera para recolher a bagagem. Tivemos de ceder a primazia aos mais velhos(...)Sei que depois ainda fomos à capela e nos despimos, com um cerimonial esquisito, antes de dormirmos. Mas nessa altura, pesado de sofrimento, um grande apelo final de silêncio e desistência subia para mim desde as raízes da noite. E fechei os olhos.(...)
E uma saudade densa caiu-me, como um peso na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei na saca de roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto....(...)O peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido.
Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.
(...)Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas a um apelo de abandono, a um esquecimento "real", a bruma da distância levanta-se -me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente....(...)
Inesperadamente, por minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...."
Este romance foi adaptado ao cinema por Lauro António. Uma longa-metragem rodada em 1978-1979, estreada em 1980. Com Eunice Muñoz, o próprio V. Ferreira como Reitor do Seminário, Canto eCastro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Camacho Costa, Joaquim M. Dias entre outros.
Sei como colorir-me.As cores da liberdade apontam-me o caminho.
AS CORES
Todos sabemos que cores não são mais que sensações trazidas aos nossos olhos, pela luz reflectida pelos corpos que nos rodeiam. Que o branco representa as cores do espectro, e que o preto é a inexistência de cor, ou a ausência de luz.
Não pode pintar-se sem cor, tal como não se pode escrever sem palavras na Língua que nos pertence, ou que abracemos. E toda a Língua tem cor própria. Reverenciemos por isso todas as cores que podem traduzir audácia, revolta, tranquilidade ou tormenta, com ou sem respingos de ternura ou agressividade, ao contemplar os vários matizes de auroras e ocasos, as borboletas, as aves garridas, árvores e rios, céu e terra, o fogo... Desvendemos todas as paisagens agrestes, agitadas ou calmas, todas as cascatas, ou qualquer deserto em todas as suas tonalidades. De contornos leves ou pesados, de formas concretas ou abstractas, difusas ou nítidas, na harmonia ou na desordem, em contrastes de luz e de sombra, nos quais todos os tons se tornam possíveis. Em transparência ou opacidade, em atmosfera de calor ou de frio, ou num caleidoscópio de simbologias que nos devolvem serenidade, ou nos pincelam os mais primitivos sentimentos de nostalgia ou inquietude.
A minha preferência por paredes brancas não existe por acaso; exijo que o sol me invada a casa de luz, que me evite a penumbra. Aprecio a escuridão apenas se me envolvo nos braços de Morfeu, ou se o meu cansaço é tão profundo que me impeça manter os olhos abertos.
Para vestir gosto de branco, azul, preto, púrpura, e fujo do amarelo, do verde-alface, ou de qualquer outra cor gritante ou com brilhos, como o diabo foge da cruz. Mas sei que podemos, através da sua junção ou afastamento, encontrar beleza em todas as cores; numa paisagem de neve, num campo apenas verdejante, ou pintado de alfazemas, ou papoilas, num pomar de cerejas, até nas pedras... A escolha de uma cor reside, ocasionalmente, não apenas em questões de preferência estética, mas também em questões de funcionalidade ou simbolismo, dependendo nesse caso do nosso estado de espírito, ou de certos acontecimentos. Embora a tradição tenha tendência a alterar-se, o branco continua ainda a ser o preferido das noivas, como signo de pureza e paz, assim como o preto é geralmente associado ao luto. Tal como o vermelho, conotado desde sempre com paixão, desejo, sangue...
Sejamos inteiros em todas as nossas cores e tons, em cada momento que passa.Em todas as nossas atitudes. Aceitemos os céus enevoados, as luminosidades etéreas, as tonalidades rodeadas de negro.
Apreciemos também qualquer pessoa, independentemente da sua cor e forma; uma mera expressão da nossa claridade enquanto gente.
Como música, a " Aquarela" de Toquinho. A mestria da simplicidade.
"A vida não dá coisa alguma sem retribuição e sobre cada coisa concedida pelo destino, há secretamente um preço, que cedo ou tarde deverá ser pago"
Stefan Zweig, escritor austríaco de espírito universalista (Viena 1881-Petrópolis 1942). Exilado em Inglaterra devido à sua irredutível oposição ao nacional socialismo, viria a fixar-se no Brasil, onde, amargurado por ver a Europa espezinhada pela barbárie nazi, viria a suicidar-se juntamente com a mulher.
Cultor de poesia, ensaio, teatro, romance e biografia (de destacar a sua biografia de Fernão de Magalhães, Balzac ou Dostoievski, entre outras...) foi também tradutor de literatura inglesa e francesa. Profundo conhecedor da civilização europeia, escreveu obras carregadas de limpidez, sem grandes arrebatamentos, e impregnadas de tolerância e calor humano.
Muito escreveu S. Zweig, mas destacarei apenas "Amok. Três histórias de Paixão." (1922), "Ansiedade" (1925), "A Confusão de Emoções. Três novelas": ( "Vinte e Quatro Horas da Vida deuma Mulher", "O Naufrágio de um Coração" e "Sentimentos de Confusão") 1927. Ler mais...
Escolhi para homenagear este autor, um excerto de "Vinte e Quatro Horas na Vida de uma Mulher", livro que li de um fôlego na minha adolescência. Com acção na Riviera Francesa, o que me fascinou na altura foi a simplicidade de escrita, a abordagem ao vício do jogo, e a demonstração de como em poucas horas, a vida de alguém pode mudar de forma tão inesperada.
Vinte e quatro horas podem significar uma sequência monótona de rotinas, uma série de acontecimentos imprevistos e sem significado, mas podem também conter em si uma avalanche de acasos susceptíveis de modificar para sempre a forma como se encara a própria vida.
Assim, um dia pode ser tudo e nada. Pode ser um tempo oco, um mar de águas paradas, ou um tempo pleno de intensidade psicológica; a tempestade num íntimo adormecido.
VINTE E QUATRO HORAS NA VIDA DE UMA MULHER
"(....) Devo frisar bem que, quando segui precipitadamente na rua esse jogador desesperado, não estava de forma alguma, enamorada dele; não pensava nele como uma mulher pode pensar num homem; pois a verdade é que eu, então mulher de mais de quarenta anos, nunca mais olhara para nenhum homem depois da morte do meu marido (....)Também é verdade que por outro lado, vai ser-me difícil qualificar com precisão o sentimento que naquele instante, me arrastou assim, irresistivelmente...(....)No meio de tal incerteza, era a primeira a sentir a loucura, o ridículo da situação.
Separada durante vinte anos, como eu tinha estado, de todos os gozos diabólicos da existência, jamais poderia compreender a maneira grandiosa e fantástica, como às vezes, a natureza concentra nalguns rápidos bafejos, tudo o que existe nela de calor e de gelo, de vida e de morte, de deslumbramento e de desespero. E esta noite foi de tal forma cheia de lutas e de palavras, de paixão , de cólera e de raiva, de lágrimas e de súplicas, que me pareceu durar mil anos, e que nós - dois seres humanos que oscilavam enlaçados no fundo dum abismo: um trazendo em si a fúria da morte, outro sem nenhum pressentimento oculto - saímos dela completamente transformados, diferentes, inteiramente mudados, com outro espírito e outra sensibilidade. (....)
Notei apenas que o jogo o tinha enervado, que o insensato tudo esquecera: o seu juramento, o seu encontro, o universo e a minha existência.(....)
Haviam decorrido precisamente vinte e quatro horas depois daquele maldito encontro: vinte e quatro horas absolutamente cheias pela tempestade ululante dos sentimentos mais estranhos que tinham ferido a minha alma para sempre......partir! partir! partir!....
Partir para longe daquela terra maldita, para longe de mim própria, voltar à minha vida antiga, à minha verdadeira vida. (....) Evitei todas as perguntas e pedi apenas um banho...(....). Em seguida fui para o meu quarto e dormi durante doze a catorze horas um sono de animal ou de pedra, como nunca dormi antes nem depois....A minha família inquietou-se por mim como por uma doente. Mas a sua ternura só conseguia fazer-me mal; tinha vergonha, sentia-me acanhada diante do respeito e dos cuidados que me dispensavam......que os havia traído a todos, que os tinha esquecido, quase abandonado, sob o império de uma paixão louca e insensata.(....)
Apesar de tudo , o tempo tem um grande poder,(....). Pouco a pouco, refiz-me do choque... (...)
Já não existia para mim outra testemunha além da minha própria recordação. Depois fiquei mais tranquila. Envelhecer não é , no fundo, senão perder o medo do passado. (...)
Quando o vi defender Madame Henriette... fiquei-lhe reconhecida porque , pela primeira vez, me via , por assim dizer justificada...e que amanhã, me seria possível entrar de novo na sala onde encontrei o meu destino, sem sentir ódio por ele nem por mim. (....)
Olhei sem querer, para o seu rosto e achei singularmente enternecedor o aspecto daquela mulher idosa, que se encontrava diante de mim, amável e ao mesmo tempo acanhada.
Seria o reflexo duma extinta paixão? Seria confusão, o que de repente lhe coloriu dum vermelho inquieto as faces até à raiz dos seus cabelos brancos? O certo é que estava ali como uma menina, pudicamente perturbada pela recordação, mas a quem a confissão dera a felicidade. Acanhado, sem saber porquê, experimentava um vivo desejo de lhe testemunhar por uma palavra a minha consideração, mas sentia a garganta apertada e nada mais pude fazer do que inclinar-me profundamente e beijar, com respeito, a sua mão enrugada, que tremia ligeiramente como a folhagem de Outono."
Espero que apreciem esta "Insensatez" com o sax do talentoso Stan Getz, e imagens do filme "La Notte" de Michelangelo Antonioni, com Jeanne Moreau, Marcello Mastroiani e Monica Vitti. Adoro cinema italiano!
Que seria da Primavera sem a chuva do Inverno?...Refresca-nos a alma e faz brotar os perfumes da terra.
Maria, este humilde poema é para ti.
CHUVA
Águas caíram, galgaram a margem.
Não há nuvem que sempre dure
Nem leito de rio que perdure
Seco, não vibrante na paisagem.
Choveu. Mesmo agora.
Lá fora e dentro de ti.
Não há no entanto
Desencanto pelas fragas.
Apenas ecos dispersos pelo monte
Anunciando sem mágoas
A eterna juventude dos deuses
A cintilar em cada fonte.
Pardais partiram em debandada
Sacudindo as pesadas penas
Em esvoaçante, fulminante segundo;
Transportando p'lo imenso arvoredo
Gotas de luz p'ró interior do mundo.
Para este poema escolhi a canção "Chuva", uma criação do genial letrista e compositor Jorge Fernando, também magnifíco cantor, aqui na voz de Mariza. É muito verdade, "as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade............."
"Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem, são eternos como a natureza"
Pablo Neruda, pseudónimo do poeta chileno Ricardo Eliézer Neftali Reyes Basoalto (Parral 1904-Santiago do Chile 1073). Foi professor do Instituto Pedagógico de Santiago, tendo desempenhado posteriormente cargos diplomáticos em Espanha, México e França. Prémio Lenine da Paz em 1953, e Prémio Nobel da Literatura em 1971, a sua escrita parte do pós-modernismo e desagua no vanguardismo e na poesia social.
De destacar na sua obra: "Crepusculário"(1923), "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"(1924), "Canto Geral"(1950), "Todo o Amor"(1953), "Odes Elementares"(1954), "Cem sonetos de Amor"(1959), "Memorial da Isla Negra"(1964), "A Barcarola" e "A Morte deJoaquin Murieta" de (1967), "Confesso que Vivi" (autobiografia publicada postumamente em 1974), e muitos outros escritos que não vou enumerar.
Pensei em publicar este soneto na versão portuguesa mas como o poema perde muito em termos de sonoridade, aqui vai o original.
SONETO LXVI
No te quiero sino porque te quiero
Y de quererte a no quererte llego
Y de esperarte cuando no te espero
Pasa mi corazón del frio al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
Te odio sin fin, y odiándote te ruego,
Y la medida de mi amor viajero
Es no verte y amarte como un ciego.
Talvez consumirá la luz de Enero,
Su rayo cruel, mi corazón entero,
Robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
Y moriré de amor porque te quiero,
Porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
in "Cem sonetos de Amor"
Cantado por artistas como Ana Belén, Joaquin Sabina, Pablo Milanés, Estrella Morente, Paco Ibañez, Victor Jara, Julieta Venegas ou Miguel Poveda, decidi-me no entanto pelo poema " Me gustas quando callas", musicado por Victor Jara , na voz de Mercedes Sosa, e a maravilhosa pintura de Jorge Murillo.
E para finalizar, o trailer do filme de Michael Radford "O Carteiro de Pablo Neruda" (Il Postino), baseado no livro de Antonio Skármeta, com Philippe Noiret, o talentoso Massimo Troisi, e Maria Grazia Cucinotta.