terça-feira, 2 de abril de 2013

Tila


 A Páscoa foi este ano especial para mim. Sem nos vermos há três anos, a minha irmã teve a oportunidade de voltar a Portugal, e conceder-me a alegria da sua visita. A Alemanha distancia-nos, mas o Skype permite-nos o contacto possível durante o resto do ano. Pena que o tempo não tivesse estado como seria de esperar, o que incomodou  a minha sobrinha, já que trazia consigo o desejo compreensível, de banhos de mar. Contudo, areias foram palmeadas, e o tempo instável ainda lhe permitiu molhar os pés.
 Molhas também as apanhamos pelas ruas da cidade, e claro que não causaram transtorno por aí além...A chuva deve ser apanhada convictamente!...Mas também esteve sol.
 Sempre achei muito triste a má, deficiente, ou até a ausência de convivência entre irmãos. Não consigo imaginar-me sem os meus. Depois das naturais brigas infantis, de dificuldades e grandes contratempos pela vida fora, a nossa relação cresceu de forma harmoniosa porque cimentada numa herança de educação para os afectos.
 Esqueci a casa, saí da escravatura das rotinas, alheei-me sem cerimónia de algumas inquietações, sacudi as asas e aproveitei esta semana como se não existisse amanhã. Tudo se tornou lateral...
 A minha irmã é um pedaço de luz repleta de gargalhadas, num riso que se expande por todo o corpo, que contagia e torna presente recordações de infância e adolescência. De segurança e de paz, de diferentes habitações, de sótãos, de cumplicidades, de outras figuras queridas já desaparecidas, de praia, de uma capa de chuva azul, de um poema que me dedicou numa folha solta que ainda hoje guardo. E não, não tenho a mania de guardar tudo, nem ela tem grande talento para a escrita...
 Com ela regresso a experiências de liberdade, fantasia, de sonhos, a horas de felicidade e de dor. A Tila vibra com os meus pequenos sucessos, sente os meus pequenos fracassos; sim, porque se insignificantes são os meus "empreendimentos", os fracassos podem como tal, corar de vergonha.
 Nunca me deixa triste ou confusa. Perto dela tudo adquire o significado inicial de conforto, da inutilidade de grandes gestos ou exuberâncias. Todo o prazer é simples. Na sua companhia não preciso pesar o que penso, ou medir o que digo.
 Amo-a  não apenas por ser minha irmã, mas porque irradia ternura e simplicidade raras. Costumo pensar que se fossemos um prato de culinária, ela seria um doce polvilhado de canela, ou  com outro toque de especiaria exótica, enquanto eu só poderia ser um salgado, talvez um prosaico pastel de bacalhau com imensa salsa. Ambas rodeadas de azeitonas por todos os lados, menos por um; qual península que teria de ter num dos seus lados, espaço para umas chouriças e umas sardinhas assadas!
 Tudo foi um ar que se lhe deu!...A semana foi-se num ápice. Alegro-me e entristeço-me, mas estou feliz. Obrigada Tila pela tua espontaneidade. Obrigada Vivian pelo teu sorriso encantador. Obrigada Tido pelo teu sentido de humor que nos fez rir como duas levianas!

 Decidi partilhar uma das nossas tardes.Uma ida ao Centro Hípico, junto a Bensafrim, para um passeio a cavalo, terminando num café-restaurante na Praia da Luz. Delicio-me com a natureza.


Diferentes tonalidades de verde na paisagem
Uma espécie de eucalipto nova para mim
Uma mimosa "domesticada"
Centro Hípico
Maria, encontrei o teu sapo!
Primeira apresentação
Segunda apresentação
Começa o passeio, já com muito sol
Praia da Luz
Ruínas Romanas 
Vista do Café Restaurante
Vivian,13 anos, faz duas da mãe e três da tia, em altura




quarta-feira, 20 de março de 2013

Alentejo


"Mais vale uma proposta ao pé das searas que uma questão na eira."
Provérbio português


ALENTEJO

 A planície reflectia como miragem, um espelho incandescente de ondas de calor sob um céu dolente que abrasa a terra , e lentamente a fecunda. Que ofusca, quase cega de tanta luz, numa quietude monótona, mas bela. Paisagem, ora melancolicamente sórdida, ora de alegria e pujança tão efémeras quanto profundas, povoando a imensidão da lonjura, de dor e prazer, de vida aparentemente aborrecida, mas tão originalmente plena.
 Charnecas de estevas, rosmaninho e silvas carregadas de amoras.Extensas planuras e planaltos de montado, de azinheiras e olival, ondulando suavemente em campo aberto, escondendo escarpas e montes de longe em longe.
 Pela manhã, passo vagaroso e cadenciado, que esta vida requer prova de vagar e não de pressa, preso na liberdade de intrínseco compromisso, Zé da Onça atravessava os caminhos que o levavam de volta às searas; o seu orgulho. Loiras, altas, de espigas hirtas e fortes. Uma certeza de alimento para os olhos e para a alma, promessa de futuro pão para o corpo.Sentava-se por instantes entre os caules maleáveis e firmes, no coração da seara salpicada de papoilas, com o pretenso intuito de proteger-se do calor, perscrutando com interesse renovado, o antigo e sempre novo canto das cigarras. Ritual quase diário até à maturação do trigo.
 Na casa, caiada de branco imaculado, a mulher cantava ao seu regresso. Lá fora, um carro de bois para a lavoura, lá dentro, uma cama para os dois. Os filhos eram doentes mentais, e Zé da Onça falava com eles como falava com os animais ou com as sementeiras, com acanhada ternura e
transbordante desvelo.
 Nunca foi à escola, não tem um único livro. Calhou entristecer-se por isso, zangar-se com o destino, por ter tropeçado nesse fatal regente de vidas que a ele se colou, por mais que dele se tivesse tentado alhear.... Mas não se demorou em inquietações. Decide e age de forma quase intuitiva, e de acordo com o ritmo das estações, ciclos de trabalho árduo que se fecham com a animação das colheitas.Sabedoria transmitida por pais e avós. Não poderia senão aspirar a uma cultura da terra e das mãos, de arados e foices. De calor, de suor e de frio...sempre de cansaço.
 A ribeira, agora seca, encher-se-ia de novo no próximo Inverno. A vida continuaria a entoar o seu murmúrio triunfante, e o futuro seria sempre só possível como dantes.
 O dia começava cedo, acabava tarde, e havia tanto que contar aos filhos. Breves narrações de infância, de idas à feira anual na aldeia distante e de como lá chegava  montado num burro, e coberto de poeira. Também histórias de fantasmas e heróis rurais, de vilões e lobisomens, de monstros e de feitiços de amor, recriadas de geração em geração, imaginação a tomar as rédeas da monotonia. E se o sono tardasse, entoar  de forma brejeira alguma moda que ouvira cantar o avô.
 Perto da pocilga rodeada de sobreiros, num chão acolchoado por bolotas e lama, algo de maravilhoso acontecia; ágeis escaravelhos moldavam de forma exímia belas bolas de excrementos, enquanto o luar descia mansamente sobre o monte, iluminando candidamente os cardos, evocando silhuetas, não revelando , contudo, os rouxinóis que encheram de melodia há poucos minutos os recantos mais sombrios, acobertando-se agora na copa das árvores.
 Noites longas de mistério e de silêncio, entrecortado por sons familiares, adormecendo tranquilamente homens rústicos e solitários por natureza, que gostam de cantar de braço dado, e sabem, de forma ancestral, que nesta região agreste e seca, a água e o pão são o verdadeiro ouro.





" Meu Alentejo", na voz de Dulce Pontes







terça-feira, 12 de março de 2013

Luma Rosa


Guitarra com natureza morta 
Tela de Antonio Gomes

 Redescobri no baú de poemas que fui guardando ao longo dos anos, este poema sem título,de autor/a brasileiro desconhecido/a. Simples e leve na forma, mas intenso de conteúdo.
 Devo tê-lo retirado certamente de algum folheto ou revista da altura...Tentei encontrá-lo online mas não tive sucesso... até que a sua autora teve a gentileza de apresentar-se! Obrigada, Luma Rosa por escrever de  forma tão bonita. Foi um prazer editar este post.

SEM FREUD E SEM PROZAC

                                              De calça lee e sandálias,
                                              Ele nem sente o peso da barra.
                                              Na mão direita leva dálias,
                                              E na esquerda sua guitarra.

                                              Vai ver a mulher que ele ama
                                               Na cozinha,
                                               Na sala,
                                               Na cama.

                                               Mas hoje ela não quer um "Romeu"
                                               Quer falar de passeatas e riscos
                                               De sonhos que a força venceu
                                               Quer ouvir novos discos,
                                               Curtir  a vida e protesto.

                                               Logo ele a deixa,
                                               E ela não faz gestos
                                               Nem  sequer se queixa
                                               Há um bar em frente
                                               Ele toma aguardente
                                               Paga deixa gorjeta
                                               E vomita seu amor na sarjeta.

                                                                                  in  Luz de Luma, yes party!


 Nada melhor para palavras de Língua Portuguesa com cheiro a Brasil, que este tema de Toco, Samba Noir do álbum "Outro Lugar". Um magnífico compositor e cantor paulista.






terça-feira, 5 de março de 2013

Árvore




ÁRVORE

A floresta é longínqua e imensa.
Aqui estou, na curva do outeiro
Molhada pelo último aguaceiro.
Minhas flores desabrocham ao sol
Sem pedir licença.
Olhas para elas, atrevido aventureiro
E com ternura breve e tensa
Delas te fazes, num ápice, companheiro.
Erva gelada, sangrenta e encarnada
Atapeta os campos que conheço.
Árvore viçosa, esquecida aqui me fico.
Prisioneira viajo e permaneço
Neste renascer breve perto do ribeiro.
É brilhante a tua pele, tuas sementes
Fecundas, meus frutos limitados.
Vejo na manhã fugaz de nevoeiro
Os teus leves contornos fugidios,
Vives espraiado  nos grandes rios
Comes as maçãs roubadas do meu corpo.
Sou a árvore liberta e produtiva,
Ofereço-te a seiva e a vida
E morro à tua vinda, devagarinho
Sempre, ainda, tronco rugoso,
Ramos frágeis em desalinho.
Afastada da estrada ondulante da montanha
E do teu  flutuante caminho.


Para ilustrar com um pouco de som este meu poema, escolhi Rodrigo Leão e Lula Pena
Adoro tangos!





quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Vergílio Ferreira



"Só há humilhação se se aceita a escala de valores que os outros nos impõem."


 Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia 1916-Lisboa 1996), professor e escritor, distinguiu-se no género de romance, ensaio e diário, tendo sido galardoado com o Prémio Camões em 1992. São tantas as suas obras que salientarei apenas: "O Caminho fica Longe"(1943), "A Face Sangrenta"(1953), "Aparição"(1959), "Cântico Final"(1960), "Apelo da Noite"(1963), "Alegria Breve"(1965), "Apenas Homens"(1970), "Signo Sinal"(1979), "Para Sempre"(1983), "Até ao Fim"(1987), "Em Nome da Terra"(1990), "Na tua Face"(1993)......Ler mais
 A Universidade de Évora instituiu em 1997 o Prémio Vergílio Ferreira como homenagem ao escritor e ensaísta, galardoando assim outros autores de Língua Portuguesa.
 Inserido na corrente neo-realista, a sua escrita foi aos poucos sendo influenciada pelo Existencialismo, pautando as suas narrativas pela importância do indivíduo como actor do seu destino, no qual a memória e a consciência adquirem valor próprio.
 Um esteta da palavra que considerava que a ligação do homem com o mundo era feita de emoção, e como tal precisaria de "um esclarecimento e superior objectivação" que só a a arte poderia tornar possível.
 Apaixonado pela Serra da Estrela onde como num regresso às origens,seria enterrado, decidi  por isso evocar "Manhã Submersa", romance escrito em 1954, drama de cunho autobiográfico no qual o autor relata experiências pessoais dolorosas, partindo da personagem António Borralho para a abordagem da pobreza e desigualdades sociais, num ambiente de repressão educativa.
 Coagido a frequentar o Seminário do Fundão, por uma tutora  beata que o oprime através da religião,para uma vocação que não sente, António vivenciará os caprichos dos padres e as suas obsessões, a solidão e a angústia, suavizadas apenas pelo espírito de camaradagem entre os rapazes.Adopta, por fim, uma posição de ruptura através de um acto impensado que lhe indicará o caminho de volta a uma realidade crua mas liberta. 
Eis alguns excertos.


MANHÃ SUBMERSA

 "...Marcada a cama de cada um, voltamos à sala de espera para recolher a bagagem. Tivemos de ceder a primazia aos mais velhos(...)Sei que depois ainda fomos à capela e nos despimos, com um cerimonial esquisito, antes de dormirmos. Mas nessa altura, pesado de sofrimento, um grande apelo final de silêncio e desistência subia para mim desde as raízes da noite. E fechei os olhos.(...)
 E uma saudade densa caiu-me, como um peso na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei na saca de roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto....(...)O peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido.
Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.
 (...)Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas a um apelo de abandono, a um esquecimento "real", a bruma da distância levanta-se -me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente....(...)
 Inesperadamente, por minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...."


Este romance foi adaptado ao cinema por Lauro António. Uma longa-metragem rodada em 1978-1979, estreada em 1980. Com Eunice Muñoz, o próprio V. Ferreira como Reitor do Seminário, Canto e Castro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Camacho Costa, Joaquim M. Dias entre outros.









segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As Cores



                                    Tela de Nancy Wilde


                     

Sei como colorir-me.As cores da liberdade apontam-me o caminho.



AS CORES

 Todos sabemos que cores não são mais que sensações trazidas aos nossos olhos, pela luz reflectida pelos corpos que nos rodeiam. Que o branco representa as cores do espectro, e que o preto é a inexistência de cor, ou a ausência de luz.
 Não pode pintar-se sem cor, tal como não se pode escrever sem palavras na Língua que nos pertence, ou que abracemos. E toda a Língua tem cor própria. Reverenciemos por isso todas as cores que podem traduzir audácia, revolta, tranquilidade ou tormenta, com ou sem respingos de ternura ou agressividade, ao contemplar os vários matizes de auroras e ocasos, as borboletas, as aves garridas, árvores e rios, céu e terra, o fogo... Desvendemos todas as paisagens agrestes, agitadas ou calmas, todas as cascatas, ou qualquer deserto em todas as suas tonalidades. De contornos leves ou pesados, de formas concretas ou abstractas, difusas ou nítidas, na harmonia ou na desordem, em contrastes de luz e de sombra, nos quais todos os tons se tornam possíveis. Em transparência ou opacidade, em atmosfera de calor ou de frio, ou num caleidoscópio de simbologias que nos devolvem serenidade, ou nos pincelam os mais primitivos sentimentos de nostalgia ou inquietude.
 A minha preferência por paredes brancas não existe por acaso; exijo que o sol me invada a casa de luz, que me evite a penumbra. Aprecio a escuridão apenas se me envolvo nos braços de Morfeu, ou se o meu cansaço é tão profundo que me impeça manter os olhos abertos.
 Para vestir gosto de branco, azul, preto, púrpura, e fujo do amarelo, do verde-alface, ou de qualquer outra cor gritante ou com brilhos, como o diabo foge da cruz. Mas sei que podemos, através da sua junção ou afastamento, encontrar beleza em todas as cores; numa paisagem de neve, num campo apenas verdejante, ou pintado de alfazemas, ou papoilas, num pomar de cerejas, até nas pedras... A escolha de uma cor reside, ocasionalmente, não apenas em questões de preferência estética, mas também em questões de  funcionalidade ou simbolismo, dependendo nesse caso do nosso estado de espírito, ou de certos acontecimentos. Embora a tradição tenha tendência a alterar-se, o branco continua ainda a ser o preferido das noivas, como signo de pureza e paz, assim como o preto é geralmente associado ao luto. Tal como o vermelho, conotado desde sempre com paixão, desejo, sangue...
 Sejamos inteiros em todas as nossas cores e tons, em cada momento que passa.Em todas as nossas atitudes. Aceitemos os céus enevoados, as luminosidades etéreas, as tonalidades rodeadas de negro.
 Apreciemos também qualquer pessoa, independentemente da sua cor e forma; uma mera expressão da nossa claridade enquanto gente.












Como música, a " Aquarela" de Toquinho. A mestria da simplicidade.








segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Stefan Zweig


"A vida não dá coisa alguma sem retribuição e sobre cada coisa concedida pelo destino, há secretamente um preço, que cedo ou tarde deverá ser pago"


 Stefan Zweig, escritor austríaco de espírito universalista (Viena 1881-Petrópolis 1942). Exilado em Inglaterra devido à sua irredutível oposição ao nacional socialismo, viria a fixar-se no Brasil, onde, amargurado por ver a Europa espezinhada pela barbárie nazi, viria a suicidar-se juntamente com a mulher. 
 Cultor de poesia, ensaio, teatro, romance e biografia (de destacar a sua biografia de Fernão de Magalhães, Balzac ou Dostoievski, entre outras...) foi também tradutor de literatura inglesa e francesa. Profundo conhecedor da civilização europeia, escreveu obras carregadas de limpidez, sem grandes arrebatamentos, e impregnadas de tolerância e calor humano.
 Muito escreveu S. Zweig, mas destacarei apenas "Amok. Três histórias de Paixão." (1922), "Ansiedade" (1925), "A Confusão de Emoções. Três novelas": ( "Vinte e Quatro Horas da Vida de uma Mulher", "O Naufrágio de um Coração" e "Sentimentos de Confusão") 1927. Ler mais...
 Escolhi para homenagear este autor, um excerto de "Vinte e Quatro Horas na Vida de uma Mulher", livro que li de um fôlego na minha adolescência. Com acção na Riviera Francesa, o que me fascinou na altura foi a simplicidade de escrita, a abordagem ao vício do jogo, e a demonstração de como em poucas horas, a vida de alguém pode mudar de forma tão inesperada.
 Vinte e quatro horas podem significar uma sequência monótona de rotinas, uma série de acontecimentos imprevistos e sem significado, mas podem também conter em si uma avalanche de acasos susceptíveis de modificar para sempre a forma como se encara a própria vida.
 Assim, um dia pode ser tudo e nada. Pode ser um tempo oco, um mar de águas paradas, ou um tempo  pleno de intensidade psicológica; a tempestade num íntimo adormecido.


                                 VINTE E QUATRO HORAS NA VIDA DE UMA MULHER 

 "(....) Devo frisar bem que, quando segui precipitadamente na rua esse jogador desesperado, não estava de forma alguma, enamorada dele; não pensava nele como uma mulher pode pensar num homem; pois a verdade é que eu, então mulher de mais de quarenta anos, nunca mais olhara para nenhum homem depois da morte do meu marido (....)Também é verdade que por outro lado, vai ser-me difícil qualificar com precisão o sentimento que naquele instante, me arrastou assim, irresistivelmente...(....)No meio de tal incerteza, era a primeira a sentir a loucura, o ridículo da situação.
 Separada durante vinte anos, como eu tinha estado, de todos os gozos diabólicos da existência, jamais poderia compreender a maneira grandiosa e fantástica, como às vezes, a natureza concentra nalguns rápidos bafejos, tudo o que existe nela de calor e de gelo, de vida e de morte, de deslumbramento e de desespero. E esta noite foi de tal forma  cheia de lutas e de palavras, de paixão , de cólera e de raiva, de lágrimas e de súplicas, que me pareceu durar mil anos, e que nós - dois  seres humanos que oscilavam enlaçados no fundo dum abismo: um trazendo em si a fúria da morte, outro sem nenhum pressentimento oculto - saímos dela completamente transformados, diferentes, inteiramente mudados, com outro espírito e outra sensibilidade. (....)
 Notei apenas que o jogo o tinha enervado, que o insensato tudo esquecera: o seu juramento, o seu encontro, o universo e a minha existência.(....)
 Haviam decorrido precisamente vinte e quatro horas depois daquele maldito encontro: vinte e quatro horas absolutamente cheias  pela tempestade ululante dos sentimentos mais estranhos que tinham ferido a minha alma para sempre......partir! partir! partir!....
 Partir para longe daquela terra maldita, para longe de mim própria, voltar à minha vida antiga, à minha verdadeira vida. (....) Evitei todas as perguntas e pedi apenas um banho...(....). Em seguida fui para o meu quarto e dormi  durante doze a catorze horas um sono de animal ou de pedra, como nunca dormi antes nem depois....A minha família inquietou-se por mim como por uma doente. Mas a sua ternura só conseguia fazer-me mal; tinha vergonha, sentia-me acanhada diante do respeito e dos cuidados que me dispensavam......que os havia traído a todos, que os tinha esquecido, quase abandonado, sob o império de uma paixão louca e insensata.(....)
 Apesar de tudo , o tempo tem um grande poder,(....). Pouco a pouco, refiz-me do choque... (...) 
 Já não existia para mim outra testemunha além da minha própria recordação. Depois fiquei mais tranquila. Envelhecer não é , no fundo, senão perder o medo do passado. (...)
 Quando o vi defender Madame Henriette... fiquei-lhe reconhecida porque , pela primeira vez, me via , por assim dizer justificada...e que amanhã, me seria possível entrar de novo na sala onde encontrei o meu destino, sem sentir ódio por ele nem por mim. (....)

 Olhei sem querer, para o seu rosto e achei singularmente enternecedor o aspecto daquela mulher idosa, que se encontrava diante de mim, amável e ao mesmo tempo acanhada.
 Seria o reflexo duma extinta paixão? Seria confusão, o que de repente lhe coloriu dum vermelho inquieto as faces até à raiz dos seus cabelos brancos? O certo é que estava ali como uma menina, pudicamente perturbada pela recordação, mas a quem a confissão dera a felicidade. Acanhado, sem saber porquê, experimentava um vivo desejo de lhe testemunhar por uma palavra a minha consideração, mas sentia a garganta apertada e nada mais pude fazer do que inclinar-me profundamente e beijar, com respeito, a sua mão enrugada, que tremia ligeiramente como a folhagem de Outono." 



 Espero que apreciem esta "Insensatez" com o sax do talentoso Stan Getz, e imagens do filme "La Notte" de  Michelangelo Antonioni, com Jeanne Moreau, Marcello Mastroiani e Monica Vitti. Adoro cinema italiano!