Li algures que livros são janelas, e será raro o dia em que não abro uma, mesmo que só leia uma frase ou duas.... Com eles encontro-me com Aretusa ou qualquer outra personagem mitológica, plena de virtude ou ignomínia,com sentimentos de serenidade ou de tumulto. Posso vivenciar um espaço e um tempo diferentes, mergulhar num oceano de metáforas, ou ficar agarrada ao chão com uma correria de acontecimentos reais. Conhecer uma alga, ser uma estrela do mar... "Eu", poderia eventalmente ser o título de um livro escrito por mim, porque como dizia F. Pessoa, "quando escrevo visito-me solenemente". Neste Dia do Livro, nascido inicialmente na Catalunha como homenagem a Cervantes e instituído pela UNESCO em 1955 como Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor recomeçarei a ler, muito aos solavancos, " An Afternoon Walk" de Dorothy Eden, uma novela gótica cheia de suspense.
Entretanto vou ouvindo "Estrela do Mar" de Jorge Palma, um poeta de canções
E já agora, uma homenagem a este santuário de livros; Livraria Lello, no Porto
"O hábito cria a impressão de justiça e não existe maior inimigo para o progresso que o hábito"
J.J. Martí Pérez
Estive a pensar, algo que faço raramente, já que os meus fracos neurónios se têm recusado a sair do seu estado de letargia e preguiça; que não existirá por certo, povo que goste de dar tiros nos próprios pés, como nós, portugueses. Donos de uma história secular de ousadia, imaginação e luta, muitas vezes de desenrascanço. De ideais por vezes vagos, mas aventureiros de forte relação umbilical com este cantinho, mesmo quando longe dele.
Uma sociedade repleta de proezas, também de falta de orientação, ilusão, com laivos de energia para remediar situações. Um país com traços de megalomania; iludido com desejos de grandeza que a nossa pequenez geográfica, situação periférica e império perdido, não deveriam inspirar. Um delírio de ambição promiscuamente mesclado de sensibilidade e de saudade. E o problema é que nos temos vindo a tornar satélites de nós mesmos, à volta de um pretenso eixo de um passado ilusoriamente instituído como razão do nosso existir, ao redor do qual teremos de deixar de gravitar, e prontamente pensar o futuro. D. Sebastião não voltará, com nevoeiro, ou sem ele...Cansei-me de ver tanta gente apenas com apego às suas longas caudas, erro crasso de qualquer indivíduo; o de olhar mais para trás do que para a frente.
Tanto tempo perdido. Eu própria, não passo de uma "despassarada" ridícula, uma cabeça de vento que sonhava mudar o mundo, quando nem o meu pequeno universo fui capaz de mudar.Permaneço contudo uma "fora-da-lei" com intrincado sentido de justiça, e vulnerável em relação à injustiça.
Ocorre-me a frase preferida dos nossos eméritos políticos de que "À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer", como se César fosse, claro, exemplo máximo de virtude. E a importância do parecer não admira, vindo dos nossos responsáveis pela res pública, alguns deles pretendendo ter cursos que nunca tiveram, fantochada tendo na sua origem o descriminatório pressuposto de que uma licenciatura seria garantia de idoneidade, inteligência e competência, atributos que desconhecem. Exacerbam em discurso enganador que todos são iguais perante a Lei, quando em termos práticos, a Lei não é igual para todos, num sistema de Justiça de curvas e contra-curvas, rotundas, atalhos, escapatórias, com vírgulas e pontos onde não deveriam existir. Formas de atrasar, subverter ou negar a Justiça, tornando injustos, julgamentos que deveriam ter como resultado a transmissão de uma consciência da Humanidade, e não uma distinção entre ricos e pobres, através de diferentes possibilidades de acesso à Justiça, que deveria responder ao direito do mais fraco, mas de tão inflexível, cria o caos, um almejo, apenas uma esperança de justiça, inflingindo estocadas numa sociedade cada vez mais deprimida.
Todos sabemos que deveríamos ser puros, sérios, honestos em todos os actos da nossa vida, mas o erro espreita a cada esquina. E Perfeito, só havia um, e jogava no Belenenses... Contudo só a injustiça precisa de muita elaboração, de infindável argumentação, de recursos, de prescrições.
Não falo aqui do extraordinário Alves dos Reis, do famoso"Troca-Tintas", gatuno e assassino, ou de Guilhermina Adelaide, perita em apropriação de tudo o que a sua vista podia alcançar, mas cujos "modos aristocráticos a punham ao abrigo de suspeitas", nem do mais recente cabo Costa, devoto de Nossa Senhora e de Salazar, e assassino de jovens raparigas nas horas vagas. Ou do caso BPN, exemplo magistral de alta corrupção, como se fazer desaparecer milhões tornasse nobre tal acto. Dou como exemplo a tentativa de furto, ocorrida em 2010, de duas embalagens de comida para cão no valor de 0,98€. Existe um prazo de 6 meses para apresentar queixa,que o Lidl não deixa nunca passar, levando qualquer tipo de transgressão aos tribunais portugueses.Estas empresas conhecem bem a Lei e sabem que as despesas serão do Estado. O Ministério Público propôs inicialmente uma pena de 10 horas de trabalho comunitário, mas voltou atrás devido ao facto de a ré ser já reincidente. Uma senhora que reincide em bagatelas! Porque não decidiu ela tomar como seu algo de decente, ao menos?..O processo esteve em julgamento durante dois anos, foi condenada em 200€, mas vai recorrer, continuando com apoio judiciário.
Que fastidioso escrever sobre isto! Que aborrecimento esta desproporcionalidade de tratamento. Roubar maçãs ou comida para cão não é exactamente o mesmo que desviar milhões, ou a dignidade de alguém. Deveria haver proporcionalidade entre a pena e o valor roubado. Mas, o que é na verdade um desvio astronómico, comparado com um roubo de comida para cão? Alimentação para animais, em ambos os casos. No caso dos milhões não vejo ninguém a apoquentar-se muito...
Receio que meio século perdido numa ditadura asfixiante e de falta de instrução, continue ainda a tentar reduzir Portugal a Fado, Fátima e Futebol, como se a forma mudasse, mas a substância da desigualdade permanecesse...
Ouvi dizer que Isaltino Morais vai já no seu 44º recurso! A lutar contra condenações de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e abuso de poder. Desplante? Não, utiliza apenas os estratagemas que o sistema judicial permite a quem tem dinheiro. E o senhor até é jurista.
Justiça com atraso deixa de ser Justiça. Passa a ser injustiça aceite institucionalmente.
Para ilustrar esta imagem de homens ilustres, nada melhor do que "Salvem os Ricos", num hino sempre actual, porque como sabemos, Natal é sempre que um homem quiser.
A Páscoa foi este ano especial para mim. Sem nos vermos há três anos, a minha irmã teve a oportunidade de voltar a Portugal, e conceder-me a alegria da sua visita. A Alemanha distancia-nos, mas o Skype permite-nos o contacto possível durante o resto do ano. Pena que o tempo não tivesse estado como seria de esperar, o que incomodou a minha sobrinha, já que trazia consigo o desejo compreensível, de banhos de mar. Contudo, areias foram palmeadas, e o tempo instável ainda lhe permitiu molhar os pés.
Molhas também as apanhamos pelas ruas da cidade, e claro que não causaram transtorno por aí além...A chuva deve ser apanhada convictamente!...Mas também esteve sol.
Sempre achei muito triste a má, deficiente, ou até a ausência de convivência entre irmãos. Não consigo imaginar-me sem os meus. Depois das naturais brigas infantis, de dificuldades e grandes contratempos pela vida fora, a nossa relação cresceu de forma harmoniosa porque cimentada numa herança de educação para os afectos.
Esqueci a casa, saí da escravatura das rotinas, alheei-me sem cerimónia de algumas inquietações, sacudi as asas e aproveitei esta semana como se não existisse amanhã. Tudo se tornou lateral...
A minha irmã é um pedaço de luz repleta de gargalhadas, num riso que se expande por todo o corpo, que contagia e torna presente recordações de infância e adolescência. De segurança e de paz, de diferentes habitações, de sótãos, de cumplicidades, de outras figuras queridas já desaparecidas, de praia, de uma capa de chuva azul, de um poema que me dedicou numa folha solta que ainda hoje guardo. E não, não tenho a mania de guardar tudo, nem ela tem grande talento para a escrita...
Com ela regresso a experiências de liberdade, fantasia, de sonhos, a horas de felicidade e de dor. A Tila vibra com os meus pequenos sucessos, sente os meus pequenos fracassos; sim, porque se insignificantes são os meus "empreendimentos", os fracassos podem como tal, corar de vergonha.
Nunca me deixa triste ou confusa. Perto dela tudo adquire o significado inicial de conforto, da inutilidade de grandes gestos ou exuberâncias. Todo o prazer é simples. Na sua companhia não preciso pesar o que penso, ou medir o que digo.
Amo-a não apenas por ser minha irmã, mas porque irradia ternura e simplicidade raras. Costumo pensar que se fossemos um prato de culinária, ela seria um doce polvilhado de canela, ou com outro toque de especiaria exótica, enquanto eu só poderia ser um salgado, talvez um prosaico pastel de bacalhau com imensa salsa. Ambas rodeadas de azeitonas por todos os lados, menos por um; qual península que teria de ter num dos seus lados, espaço para umas chouriças e umas sardinhas assadas!
Tudo foi um ar que se lhe deu!...A semana foi-se num ápice. Alegro-me e entristeço-me, mas estou feliz. Obrigada Tila pela tua espontaneidade. Obrigada Vivian pelo teu sorriso encantador. Obrigada Tido pelo teu sentido de humor que nos fez rir como duas levianas!
Decidi partilhar uma das nossas tardes.Uma ida ao Centro Hípico, junto a Bensafrim, para um passeio a cavalo, terminando num café-restaurante na Praia da Luz. Delicio-me com a natureza.
Diferentes tonalidades de verde na paisagem
Uma espécie de eucalipto nova para mim
Uma mimosa "domesticada"
Centro Hípico
Maria, encontrei o teu sapo!
Primeira apresentação
Segunda apresentação
Começa o passeio, já com muito sol
Praia da Luz
Ruínas Romanas
Vista do Café Restaurante
Vivian,13 anos, faz duas da mãe e três da tia, em altura
"Mais vale uma proposta ao pé das searas que uma questão na eira."
Provérbio português
ALENTEJO
A planície reflectia como miragem, um espelho incandescente de ondas de calor sob um céu dolente que abrasa a terra , e lentamente a fecunda. Que ofusca, quase cega de tanta luz, numa quietude monótona, mas bela. Paisagem, ora melancolicamente sórdida, ora de alegria e pujança tão efémeras quanto profundas, povoando a imensidão da lonjura, de dor e prazer, de vida aparentemente aborrecida, mas tão originalmente plena.
Charnecas de estevas, rosmaninho e silvas carregadas de amoras.Extensas planuras e planaltos de montado, de azinheiras e olival, ondulando suavemente em campo aberto, escondendo escarpas e montes de longe em longe.
Pela manhã, passo vagaroso e cadenciado, que esta vida requer prova de vagar e não de pressa, preso na liberdade de intrínseco compromisso, Zé da Onça atravessava os caminhos que o levavam de volta às searas; o seu orgulho. Loiras, altas, de espigas hirtas e fortes. Uma certeza de alimento para os olhos e para a alma, promessa de futuro pão para o corpo.Sentava-se por instantes entre os caules maleáveis e firmes, no coração da seara salpicada de papoilas, com o pretenso intuito de proteger-se do calor, perscrutando com interesse renovado, o antigo e sempre novo canto das cigarras. Ritual quase diário até à maturação do trigo.
Na casa, caiada de branco imaculado, a mulher cantava ao seu regresso. Lá fora, um carro de bois para a lavoura, lá dentro, uma cama para os dois. Os filhos eram doentes mentais, e Zé da Onça falava com eles como falava com os animais ou com as sementeiras, com acanhada ternura e
transbordante desvelo.
Nunca foi à escola, não tem um único livro. Calhou entristecer-se por isso, zangar-se com o destino, por ter tropeçado nesse fatal regente de vidas que a ele se colou, por mais que dele se tivesse tentado alhear.... Mas não se demorou em inquietações. Decide e age de forma quase intuitiva, e de acordo com o ritmo das estações, ciclos de trabalho árduo que se fecham com a animação das colheitas.Sabedoria transmitida por pais e avós. Não poderia senão aspirar a uma cultura da terra e das mãos, de arados e foices. De calor, de suor e de frio...sempre de cansaço.
A ribeira, agora seca, encher-se-ia de novo no próximo Inverno. A vida continuaria a entoar o seu murmúrio triunfante, e o futuro seria sempre só possível como dantes.
O dia começava cedo, acabava tarde, e havia tanto que contar aos filhos. Breves narrações de infância, de idas à feira anual na aldeia distante e de como lá chegava montado num burro, e coberto de poeira. Também histórias de fantasmas e heróis rurais, de vilões e lobisomens, de monstros e de feitiços de amor, recriadas de geração em geração, imaginação a tomar as rédeas da monotonia. E se o sono tardasse, entoar de forma brejeira alguma moda que ouvira cantar o avô.
Perto da pocilga rodeada de sobreiros, num chão acolchoado por bolotas e lama, algo de maravilhoso acontecia; ágeis escaravelhos moldavam de forma exímia belas bolas de excrementos, enquanto o luar descia mansamente sobre o monte, iluminando candidamente os cardos, evocando silhuetas, não revelando , contudo, os rouxinóis que encheram de melodia há poucos minutos os recantos mais sombrios, acobertando-se agora na copa das árvores.
Noites longas de mistério e de silêncio, entrecortado por sons familiares, adormecendo tranquilamente homens rústicos e solitários por natureza, que gostam de cantar de braço dado, e sabem, de forma ancestral, que nesta região agreste e seca, a água e o pão são o verdadeiro ouro.
Redescobri no baú de poemas que fui guardando ao longo dos anos, este poema sem título,de autor/a brasileiro desconhecido/a. Simples e leve na forma, mas intenso de conteúdo.
Devo tê-lo retirado certamente de algum folheto ou revista da altura...Tentei encontrá-lo online mas não tive sucesso... até que a sua autora teve a gentileza de apresentar-se! Obrigada, Luma Rosa por escrever de forma tão bonita. Foi um prazer editar este post.
Nada melhor para palavras de Língua Portuguesa com cheiro a Brasil, que este tema de Toco, Samba Noir do álbum "Outro Lugar". Um magnífico compositor e cantor paulista.