"Às vezes a felicidade está em fugir daquilo que procuramos"
Joaquim Maria Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Desde sempre ligado à Publicidade e ávido estudioso de arte pré-histórica, foi director criativo de várias revistas, fundou com Ary dos Santos, F. Tordo e Carlos Mendes, entre outros, a cooperativa artística "Toma Lá Disco" e fez programas de televisão.
É no entanto como poeta que atinge grandeza. Não existe nenhum poema de J. Pessoa que eu não considere sublime, pela simplicidade e riqueza líricas que me causa deslumbramento. Uma escrita escorreita de inquietação e de luz, em rima ou em verso livre; veículo vertiginoso, tanto para o real como para o figurativo, na qual o ser e o desejo têm presença constante; subjectividade de experiência dos sentidos e respectiva eroticidade.
Agraciado com o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura, com o Prémio António Nobre e o Prémio Cidade de Almada, são tantas as suas obras,que salientarei apenas: "O Pássaro no Espelho"(1975), "Amor Combate"(1976), "Canções de Ex-Cravo e Malviver"(1977), "Português Suave"(1978), "Os Olhos de Isa"(1980, "O Livro da Noite"(1981), "O Amor Infinito"(1982), "Sonetos Preversos"(1984), "Peixe Náufrago"(1985), "À Mesa do Amor"(1994),"Sonetos Eróticos & Irónicos &Sarcásticos & Satíricos &de Amor & Desamor & de Bem & de Maldizer do poeta Joaquim Pessoa"(2008)......
AMEI DEMAIS
Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
Como as tais coisas nas quais nunca pensei.
Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber porque embarquei.
Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos que passei
à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.
in "Ano Comum"
Cantado, entre outros, por Carlos do Carmo, Carlos Mendes, F. Tordo, José Mário Branco e Rui Veloso, embora goste de "Amélia dos Olhos Doces", escolhi Kátia Guerreiro a cantar o poema de J. Pessoa, "Talvez não Saibas"
E para terminar:
ABRAÇA-ME
Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa forma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. Uma vez que nem sei se tu existes.
in "Ano Comum"
Tela de Jiri Borsky



















