Tela de Aida Guimarães
Arrisquei em oceano de piratas
desconhecendo a cartografia.
Icei as velas, rasguei o mar
bravio que me mentia.
Meu cabo da Boa Esperança
foi apenas mero Bojador.
E o vento fez afundar
frágeis porões carregados de temor.
Em paragens que não soube marear
sem as artes náuticas que a ocasião pedia,
sem terra à vista, fortaleza de abrigo,
pimenta, prata, panos, sedas ou safiras...
Apenas sereias de palavras, vagas de perigo,
alucinações em epopeia de mentiras.
Ressuscitei do breve naufrágio
e traço nova expedição dentro de mim.
Bendito presságio!
Descerro todas as janelas, a brisa
viaja fresca em movimento sem fim,
afaga-me como nunca antes,
tão perto deste cais donde partem
audazes, todos os navegantes.
Cada tesouro da viagem percorrida
se perdeu para sempre; cofre de ouro
em abismo de estonteantes corais
na nau imaginada de uma vida.
Escolhi para ondular com este meu poema, "Naufrágio", um poema belíssimo de Cecília Meireles, poetisa que muito admiro, na voz de Amália.







