sexta-feira, 12 de julho de 2013

Naufrágio


                                                    Tela de Aida Guimarães




                      Arrisquei em oceano de piratas
                      desconhecendo a cartografia.
                      Icei as velas, rasguei o mar
                      bravio que me mentia.
                      Meu cabo da Boa Esperança
                      foi apenas mero Bojador.
                      E o vento fez afundar 
                      frágeis porões carregados de temor.
                      Em paragens que não soube marear
                      sem as artes náuticas que a ocasião pedia,
                      sem terra à vista, fortaleza de abrigo,
                      pimenta, prata, panos, sedas ou safiras...
                      Apenas sereias de palavras, vagas de perigo,
                      alucinações em epopeia de mentiras.
                      Ressuscitei do breve naufrágio 
                      e traço nova expedição dentro de mim.
                      Bendito presságio!
                      Descerro todas as janelas, a brisa 
                      viaja fresca em movimento sem fim,
                      afaga-me como nunca antes,
                      tão perto deste cais donde partem
                      audazes, todos os navegantes.

                     Cada tesouro da viagem percorrida
                      se perdeu para sempre; cofre de ouro
                      em abismo de estonteantes corais 
                      na nau imaginada de uma vida.





Escolhi para ondular com este meu poema, "Naufrágio", um poema belíssimo de Cecília Meireles, poetisa que muito admiro, na voz de Amália.

                  


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Miguel Esteves Cardoso



"Aldrabar não é só enganar. É enganar sem o devido cuidado; sem o mínimo esforço. Enganar é nobre, implica um mínimo de esforço e respeito pela vítima: ser enganado não é sinal de estupidez"
(Revista Nós-Jornal i, 2010)


 Miguel Vicente Esteves Cardoso é um crítico, cronista, jornalista e escritor nascido em Lisboa em 1955, de pai português e mãe inglesa.
 Licenciado em Estudos Políticos e com um pós-doutoramento em Filosofia Política, dividiu a sua vida académica entre Inglaterra e Portugal, carreira que abandonaria em 1988 para fundar com Paulo Portas o jornal "O Independente", semanário de cariz conservador e elitista, em contraposição com a imprensa maioritariamente esquerdista da época. Deixaria a direcção d' "O Independente" para criar a revista "K". Escreveu desde muito jovem, crónicas sobre música para vários jornais e revistas, tendo fundado com Pedro Ayres de Magalhães, Ricardo Camacho e Francisco Sande e Castro, a Fundação Atlântica, primeira editora portuguesa independente que viria a produzir discos para os "Sétima Legião", "Xutos e Pontapés", "Delfins", Anamar, etc. M.E.Cardoso contribuiria também como letrista para nomes como Né Ladeiras ou Manuela Moura Guedes, com a pedrada no charco do "Foram cardos foram prosas".
Também se dedicou à crítica literária e cinematográfica, fez traduções de S. Beckett, foi autor e co-autor de programas de rádio e participou em programas de televisão; como guionista no "Humor de Perdição" de Herman José e na "Noite da Má Língua", saudoso talk-show da SIC.
 Principais obras: "A Causa das Coisas"(1986), "Os Meus Problemas"(1988), "As Minhas Aventuras na República Portuguesa"(1990), "O Amor é Fodido"(1994), "A Vida Inteira"(1995), "O Cemitério de Raparigas"(1996), "Com os Copos"(2007), "Em Portugal Não se Come Mal"(2008), "Como é Linda a Puta da Vida"(2013), etc.
 De pensamento vivo e acutilante, intelectualmente irónico e desconcertante, aprecio sobretudo a veia satírica das suas crónicas. 



NÃO HÁ AMOR COMO O PRIMEIRO

 Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica.
 Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltámos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.

 Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer "Alto-e-pára-o-baile", amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto- preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco -branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

 Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não há outro amor como o amor doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: " Adeus Mariana-desta vez é que me vou mesmo suicidar". Podem ficar (e que remédio têm) com o "savoir-faire" e os "fait-divers" e o "quero com vista para o mar se ainda houver". Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente perde e toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: " Não pensar, não resistir, não duvidar". Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - "e não há milagres em segunda mão". É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor morre-se. Quando se renasce há uma ressaca.

                                                           Miguel E. Cardoso, in "Os Meus Problemas"


 Não vou escolher nem Anamar, nem Manuela Moura Guedes porque os vídeos são pré-históricos e horríveis, embora as letras de M.E. Cardoso sejam boas; prefiro mostrar Né Ladeiras, a cantar "Sinhô", uma composição de Chico César em parceria com Tiago Torres da Silva.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Aromas




Sonhei que cheirava a café acabado de fazer
enquanto o teu corpo amanhecia.
A tua pele cheirava a tangerinas,
a minha, a amoras rubras e silvestres,
fragrâncias quentes e finas
ao canto de cada entardecer
quando te desnudas e te vestes.
 Na breve penumbra das horas
sonhei que cheirava a rosmaninho,
a frescos coentros acabados de cortar,
se te aproximavas de mansinho...
enquanto preparava secreto manjar.
Odores salgados de maresia.
Algo me invadia; perfumes de anis,
alecrim, poejo, manjericão.
Uma paz de hortelã, de tomilho,ou de limão,
 de maçãs vermelhas e conversas
saboreadas ao contacto da tua mão.
 Sei que cheirava altos pinheiros,
floridos aloendros, campos de alfazema,
odores muito mais intensos
do que poderia escrever em poema.
Cheiro a estevas e terra molhada,
a roupa lavada com sabão
despida na prévia madrugada.
Desejaria teu corpo aroma
a anoitecer perto do meu.
Ou a amanhecer de repente,
brisa canção a rodopiar
num prado perto do céu.
Perdi o sentido do olfacto.
Que sonho inventado é este,
ilusório e contrafeito,
este tormento em doce retrato,
leve e caricato, 
que trago no meu peito?...


 Mesmo sem poder voltar a cheirar as flores, continuarei a imaginar o aroma que lhes conheci. Com a voz da  Sara Tavares, uma cantora-compositora talentosíssima e amorosa. E continuarei a cuidar das minhas flores, e a pressentir-lhes o perfume. "Voá Borboleta"



sexta-feira, 21 de junho de 2013

David Mourão-Ferreira


Lisboa, 1927-Lisboa, 1996
"Nem só de carne é feito este presídio, pois no teu corpo existe o mundo todo!"


 Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor catedrático na mesma universidade, director do jornal "A Capital" entre 1974-1975, e Secretário de Estado da Cultura entre 1976 e 1979.
 Os seus escritos abarcam géneros como o ensaio, a tradução, o teatro, a poesia e o romance.
 A sua obra poética ganha relevo sobretudo devido à temática amorosa de rigor formal que não dispensa um lirismo culto, que tanto pode ser subtil como despudorado, plena de intimismo e emotividade.
 Vencedor de vários Prémios Literários, que seria fastidioso enumerar, foi também condecorado com o Grau de Grande Oficial da Ordem Militar De Santiago de Espada, em 1981, e recebeu o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
 Principais obras: "Isolda"(1948), "Contrabando" e "Secreta Viagem"(1950), "Gaivotas em Terra"(1959), "Vinte Poetas Contemporâneos"(1960), "Motim Literário"(1962), "Hospital das Letras"(1966), "Do Tempo ao Coração"(1966), "Sonetos do Cativo"(1974), "Sobre Viventes" e "As Lições do Fogo"(1976), "Lâmpadas no Escuro"(1979), "Os Amantes e Outros Contos"(1968),  "As Quatro Estações"(1980), "Um Amor Feliz"(1986)....



                                                           TERNURA


                                                Desvio dos teus ombros o lençol,
                                                que é feito de ternura amarrotada,
                                                da frescura que vem depois do sol,
                                                quando depois do sol não há mais nada...

                                                Olho a roupa no chão: que tempestade!
                                                Há restos de ternura pelo meio,
                                                como vultos perdidos na cidade
                                                onde uma tempestade sobreveio...

                                                 Começas a vestir-te lentamente,
                                                  e é ternura também que vou vestindo,
                                                  para enfrentar lá fora aquela gente
                                                  que da nossa ternura anda sorrindo...

                                                 Mas ninguém sonha a pressa com que nós
                                                 a despimos assim que estamos sós!
                                                                        
                                                                                 in " Infinito Impessoal"


                                                                 Tela de Benjamin Shiff


                                                              A BOCA AS BOCAS


                                         Apenas uma boca A tua boca
                                         Apenas outra A outra tua boca
                                         É Primavera E ri a tua boca
                                         De ser Agosto já na outra boca

                                         Entre uma e outra voga a minha boca
                                         E pouco a pouco a polpa de uma boca
                                         Inda há pouco na popa em minha boca
                                         É já na proa a polpa de outra boca

                                         Sabe a laranja a casca de uma boca
                                         Sabe a morango a noz da outra boca
                                         Mas que sabe entretanto a minha boca

                                         Que apenas vai sentindo em sua boca
                                         Mais rouca do que boca a minha boca
                                         Mais louca do que boca a tua boca

                                                                                      in "Matura Idade" 




 Cantado por vários cantores, foi no entanto Amália a primeira a dar-lhe voz e aquela que mais o cantou; fados como "Barco Negro" (com música original de "Mãe Preta" do compositor brasileiro Caco Velho), "Abandono", "Primavera", ou "Madrugada de Alfama", entre muitos outros.
 Embora o meu tema preferido seja "Primavera", escolhi outro tema para demonstrar que fado não é só tristeza, e como David Mourão-Ferreira amava Lisboa, "Maria Lisboa" aqui na voz de Mariza.

                                            

                                                   

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Água



"Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita"
Carlos Drummond de Andrade



 Da água diz-se que é doce. No entanto pode remeter-nos para experiências amargas. Mais do que elemento físico e químico essencial, é também metáfora, representação simbólica e imagem de circunstâncias e estados de alma.
 Dela dependemos para beber, lavar, preparar alimentos, até para respirar...Lava tudo, diz-se, embora nem a seco as más acções se consigam limpar, principalmente as de carácter mudo, já que torrente de água que não se anuncia pode ter efeitos devastadores, tal como águas estagnadas não serão também dignas de confiança. Engrossadas por lama poderão funcionar como autênticos atoleiros.
 Sabemos que "águas passadas não movem moinhos"* e que "mentir é deitar água em saco roto"*, lançando no esgoto algo de tão valioso como a verdade que deveria caminhar  à tona de água e não sofrer ondulações ao sabor das correntes. Pode ser bálsamo, ou nela eventualmente nos afogarmos, embora como estamos podres de saber mais gente se afogou em vinho do que em água, porque "dar de beber à dor" não tem a ver com falta de água.
 Podemos encontrá-la em rios e lagos, albufeiras, poços, cascatas, mas também em vapor que se ausenta em nuvem de sede que poderemos ter que procurar um dia, penosamente, num qualquer fim de mundo, em lençóis subterrâneos escondida, ou em recôndito oásis difícil de alcançar. Solidificada em glaciares, controlada por diques, canais, ou em caudal livre, serpenteando entre vales como seiva da natureza. Nuvens negras oferecerão gotas que encherão leitos e bacias, originando terrenos férteis ao seu redor, fazendo germinar sementes adormecidas. Tal  como de situações adversas nos pode surgir a luz essencial como água bruta, para plantar graciosamente jactos de festa.
 Pouco inundo de beleza à minha volta, talvez porque gota libertada por mim nesta imensidão de ideais e necessidades acabe por sentir-se impotente. Contudo um conjunto de gotas enlaçadas poderá ajudar a fazer flutuar e dar rumo a este oceano de veleiros desnorteados e jangadas à deriva; possibilidade de variadas rotas, esperança de travessias dum lado ao outro do mundo.
 Em água lisa e calma, espelho reflector do teu rosto e do meu, mergulho fundo e refresco-me. Em caso de turbulência fico a observar o movimento das ondas a bater no pontão junto ao cais; entrar ousadamente em mar revolto quando nem mestria se tem para estar em terra firme pode tomar contornos de balde de água fria...
 Se algo for por água abaixo, evocar toda a nossa paciência, e nunca tentar desviar a corrente do seu curso natural; vaga a espatifar-se nas rochas, catarata em potência ou mero sumiço a escoar-se rapidamente em qualquer ralo. Não sendo peixe nem sereia, as profundezas podem ser de tranquilidade ou de tumulto, quase sempre de escuridão e perigo. Pior que achar-se peixe fora de água, é sentir que a água era turva, que a enxurrada de surpresa não permitiu  a retirada atempada, e que as poças de lama fria que ficaram, nos continuam a suscitar um mar de lágrimas transparentes e geladas. Sentir que a paz nos foi roubada e que nenhuma bonança ou arco-íris resplandecente será jamais capaz de aquietar sedes de água salgada. Triste, no entanto, a indiferença, até satisfação, com que alguns observam os que se debatem na água, esperando sem qualquer tipo de embaraço, que o ar e o pé lhes falte.
 Mesmo que as linhas de água que tenhamos gerado não tenham surgido de grandes nascentes, correrão inevitavelmente entre penhascos de pedras, às vezes tão solitariamente que ninguém delas dará conta. Mas quem pressente a subida das marés e a humidade dos corpos, tem para si que 
a natureza nos presenteia com a água, mas que depende de nós a forma como dela enchemos a nossa vida, porque se "a ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água"(T.de Pascoaes).
 Gotas de granizo caíram como pérolas dos beirais, pingando desamparadas na terra iluminada pela manhã que acaba de nascer. Imagino ao longe uma clepsidra, e o tempo que me resta, a esvair-se apressadamente na distância. Passos ligeiros e apressados fazem, bem perto de mim, o seu  percurso sequioso e incerto a caminho das fontes.



Escolhi para este texto "Little Water Song", composição de Nick Cave, aqui interpretada por Ute Lemper.Esta canção integra uma das cenas do filme de John Turturro "Romance & Cigarettes" que tem no elenco um actor que gosto: James Gandolfini.



*Provérbios


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Joaquim Pessoa


"Às vezes a felicidade está em fugir daquilo que procuramos" 


 Joaquim Maria Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Desde sempre ligado à Publicidade e ávido estudioso de arte pré-histórica, foi director criativo de várias revistas, fundou com Ary dos Santos, F. Tordo e Carlos Mendes, entre outros, a cooperativa artística "Toma Lá Disco" e fez programas de televisão.
 É no entanto como poeta que atinge grandeza. Não existe nenhum poema de J. Pessoa que eu não considere sublime, pela simplicidade e riqueza líricas que me causa deslumbramento. Uma escrita escorreita de inquietação e de luz, em rima ou em verso livre; veículo vertiginoso, tanto para o real como para o figurativo, na qual o ser e o desejo têm presença constante; subjectividade de experiência dos sentidos e respectiva eroticidade.
 Agraciado com o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura, com o Prémio António Nobre e o Prémio Cidade de Almada, são tantas as suas obras,que salientarei apenas: "O Pássaro no Espelho"(1975), "Amor Combate"(1976), "Canções de Ex-Cravo e Malviver"(1977), "Português Suave"(1978), "Os Olhos de Isa"(1980, "O Livro da Noite"(1981), "O Amor Infinito"(1982), "Sonetos Preversos"(1984), "Peixe Náufrago"(1985), "À Mesa do Amor"(1994),"Sonetos Eróticos & Irónicos &Sarcásticos & Satíricos &de Amor & Desamor & de Bem & de Maldizer do poeta Joaquim Pessoa"(2008)......


     AMEI DEMAIS

                                         Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
                                         todas as coisas que na vida eu emprenhei.
                                         Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
                                         Como as tais coisas nas quais nunca pensei.

                                         Demais foram as sombras. Mais e mais.
                                         Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
                                         do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
                                         de onde parti sem saber porque embarquei.

                                         Amei demais. Sempre demais. E o que dei
                                         está espalhado pelos sítios onde vais
                                         e pelos anos longos, longos que passei

                                         à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
                                         E os milhares de versos que rasguei
                                         antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

                                                                                                      in  "Ano Comum"




 Cantado, entre outros, por Carlos do Carmo, Carlos Mendes, F. Tordo, José Mário Branco e Rui Veloso, embora goste de "Amélia dos Olhos Doces", escolhi Kátia Guerreiro a cantar o poema  de J. Pessoa, "Talvez não Saibas"




 E para terminar:


ABRAÇA-ME

 Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa forma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. Uma vez que nem sei se tu existes.
                                                                                                                 
                                                                                                        in "Ano Comum"


                                                                                                     Tela de Jiri Borsky




sábado, 1 de junho de 2013

Eternamente


                                              Foto de Nancy Wilde



ETERNAMENTE

                                                   De longe não chegam mensagens,
                                                   Cartas, risos ou sinais de fogo...
                                                   Liberta em dualidade esbracejo,
                                                   Nado, ofusco e nada faço.
                                                   Nas tuas várias faces me entrelaço,
                                                   Alcanço, permaneço, afasto
                                                   Na distância fugidia dum abraço.
                                                   Em labirinto de gestos, crenças vãs,
                                                   Rebeldias e receptividades
                                                   Desejo-te eternamente,
                                                   Pelos ecos suaves das manhãs,
                                                   E em entardecer dolente
                                                   Numa vida sem idades.