"Todo o homem pode enganar-se em sua parte de alimento, mas não pode enganar-se na sua parte de palavra"
Provérbio Malinké
Pedem-nos um acento circunflexo, um sinal,
uma exclamação de espanto, uma interrogação,
detestam nossas reticências, exigem-nos um ponto final.
Palavras que pingam e colam docemente
como o mel duma paixão,
ou atiradas violentamente
como rajada de metralhadora.
Palavras ancoradas em silêncio, acanhadas,
apenas sussurradas, entoadas a meia voz
quando nos encontramos tão frágeis dentro de nós.
Palavras libertinas, corajosas, clandestinas,
censuradas outrora por lápis azul.
Ditas a medo, em surdina, pelas esquinas.
Indesejadas ou vestidas de suave veludo,
que nos afagam nada dizendo
quando no nada dizem tudo.
De cristal, quebradas ao mais ligeiro sopro.
Ácidas, amargas, cálidas, serenas,
pesadas, vibrantes e contundentes,
brancas e puras como açucenas.
Gélidas, brilhante punhal no escuro,
ou guardadas em gavetas
como segredo impuro.
Palavras que nos oferecem o infinito
ou nos conduzem ao fundo da sarjeta.
Que nos fazem libertar em grito
ou seguir de olhos fechados a cauda do cometa.
Sedutoras e mágicas na tua pena de poeta.
Tanta intimidade com elas pode ser obsceno...
Conhecem-nos, põe-nos a nu.
Deitam-se connosco,
acordam ao nosso lado
em ambiente inocente, santo
ou de pecado.
E contudo, traem-nos tanto.
Que me desculpem os que possam não entender Francês, mas hoje só poderia escolher "Des Mots", dessa ave tão rara, Léo Ferré, que "vive comigo" desde a adolescência. Bela época, em que se ouvia muita música francesa na rádio.
"Des mots qui montent de la terre comme des oiseaux tristes...."
"Se não há homens insubstituíveis, há palavras que são insubstituíveis. Elas, de resto, não exprimem nunca o conflito, mas o seu fantasma; e o fantasma duma realidade está subordinado à escolha estrita das palavras. Aí repousa o estrato da confiança humana".
Agustina Bessa-Luís

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