sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Esvoaçar


                                                      foto de João Palmela


                        Uma rola rola, rebola no restolho.
                        Árvores estáticas sobrevoadas por pardais
                        e pombos. No calor tórrido, ouço uma cotovia
                        cruzar-se com negro melro nos azinhais.
                        Nem sombra de vivalma de noite ou de dia,
                         apenas uma agreste e estranha calma
                         que ora se mascara de paz, ora de agonia
                         de antigos sobreiros que no calor sangram
                         inconscientemente sua forte e leve cortiça.
                        Vinda de longe surge no ar uma carriça,
                         um tordo, uma felosa surgem no caminho
                         de terra dormente, não de sono ou de preguiça.
                         O picanço, o pintassilgo e o estorninho
                          aconchegam com enlevo as crias no ninho.
                         Maçãs vermelhas caem de maduras no pomar,
                          e cigarras soltam do ventre, ardente canto,
                          convite estridente para a fêmea. Surge a voar
                          um rouxinol, recorta no espaço, sem espanto
                          bailado breve, divina melodia. Rasa o chão
                          enquanto nos ares se anuncia um gavião.
                         Há no silêncio das casas corpos que se abraçam
                          em crepitante colchão de secas folhas de milho,
                          raros fios de água no regato seco se entrelaçam
                          e logo se evaporam ao sol, como rastilho.
                         Sob o olival milenar descanso. Sou feliz.
                         Rasgam os campos uma águia e um açor,
                          atemorizam a galinha-de-água e a perdiz.
                         Mais nada existe que o sossego deste calor
                         de guarda-rios, abetardas e cegonhas.
                         Uma calhandra, um milhafre e um chapim
                          invadem o meu sonho, trazem com eles
                          bufos e garças, sentam-se perto de mim.
                          Nesta aparência de sufocantes horas mortas,
                           sapos coaxarão ao anoitecer perto das hortas
                           e o tempo que finge passar tão devagar
                           escreverá a direito por linhas tortas.
                          Liberto os olhos na distância, vejo lavrar
                           no horizonte, o voo daquela pega-azul...
                          As papoilas morreram...Evito dizer adeus.
                          Levo comigo a graciosidade das aves do sul
                           e a beleza eterna da cor de todos os céus.



 Como não encontrei bons vídeos com aves do Alentejo, decidi mostrar um vídeo promocional da região, com o sugestivo título : "Alentejo, Tempo para ser Feliz". Divirtam-se!






sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Luís de Sttau Monteiro


Lisboa,1926- Lisboa,1993 
"Só os generais que nunca estiveram debaixo de fogo é que dizem que as batalhas se ganham com bravura e com discursos"


Filho de um embaixador em Londres demitido por Salazar, Luís Infante de Lacerda de Sttau Monteiro, volta para Lisboa com o pai, onde se licencia em Direito e inicia uma carreira no jornalismo.
 Dominado pela influência de B. Brecht, escreve em 1961 "Felizmente há Luar", peça de denúncia da sociedade portuguesa da época, texto proibido pela censura, e que só seria levado aos palcos, no Teatro Nacional, depois da revolução de Abril.
 Romance: "Um Cão não Chora"(1960), "Angústia para o Jantar" e "E se for Rapariga Chama-se Custódia"(ambas de 1961), "A Mulher que queria o Fim do Mundo"(1965).
 Teatro: "Felizmente há Luar"(1961), "Todos os Anos pela Primavera"(1963), "O Barão"(1965, adaptação do conto homónimo de Branquinho da Fonseca), "Auto da Barca do Motor fora de Borda"(1966), "A Guerra Santa" e "A Estátua"(1967), "As Mãos de Abraão Zacut"(1968), "Sua Excelência"(1971), e "Crónica Aventurosa do Esperançoso Fagundes"(1980).
 Galardoado com  o Grande Prémio de Teatro em 1961, foi feito Grande Oficial da Ordem  Militar de Santiago da Espada, a título póstumo.
 Embora mais conhecido como dramaturgo, dele decidi mostrar a faceta de romancista, no livro "Angústia para o Jantar", obra com personagens inesquecíveis, adaptada para televisão, cujos diálogos transmitem, através do colorido das palavras arrancadas à própria vida, toda a credibilidade às situações descritas.
 A intensa análise psicológica, e a descrição irónica de uma atmosfera lisboeta retrógrada e corrompida por relações humanas falseadas pela hipocrisia, dão a conhecer o processo evolutivo de uma geração que teve de enfrentar o problema pertinente de tentar descobrir se a existência será uma permanente e angustiante fuga à realidade, numa obra centralizada mais no discurso directo e no monólogo interior de cariz psicologicamente dramático, do que em qualquer análise de fundamentos espirituais ou de valores.
 O que levará Gonçalo, homem rico, a encontrar-se para jantar, todos os os meses, sempre ao 15º dia de cada mês, com António, solitário empregado de escritório, e pobre? Que poderão ter eles em comum senão apenas o facto de terem sido colegas de liceu há mais de 30 anos?...
 Dois homens enleados nos vícios da sociedade, e numa teia de personagens que se cruzam em circunstâncias pouco lícitas.
 Alguns excertos:

ANGÚSTIA PARA O JANTAR

(...) " Se o meu destino histórico não se apressa, chega tarde...Estou velho. Velho e farto. E se eu tivesse agora uma mulher na cama? Se eu fosse casado? Não acontecia nada. Contava-lhe o que se passou no restaurante. Contava-lhe tudo. Tudo não. Há coisas que não se podem contar. Um homem não pode contar à mulher que foi humilhado por um amigo no restaurante. Essas coisas só se contam quando é possível rematá-las acrescentando que depois se deu um par de bofetadas no amigo. E os homens que levam bofetadas nos restaurantes? Que contam eles às mulheres? Nada. Deve ser difícil ser casado. Todo o homem, mais tarde ou mais cedo, leva um par de bofetadas de que não pode falar à mulher e depois, cada vez que olha para ela, lembra-se das bofetadas que não foram contadas. Cada vez que olha para ela, leva outro par de bofetadas.(...)

 As mulheres odeiam os jogos dos homens, como odeiam todos os jogos de que não façam parte. Necessitam de estar no palco como os peixes de estar na água. É por isso que odeiam a guerra, o futebol, a caça. Sabem instintivamente que são jogos de homens, jogos inventados por eles, jogos que os homens preferem jogar sozinhos e nos quais elas, ainda que tomem parte, constituem um embaraço.(...)

 O marido é quem decide, é quem vai à frente, é quem come o bife. Acima do marido está o pároco, acima do pároco, o bispo, e acima do bispo, Deus. Eu estou no meio, dou dinheiro ao pároco e pisco o olho ao beijar a mão do bispo. É o meu jogo, o meu lugar no jogo. Regra número sete dos jogos que não levam a nada: "ninguém escolhe o seu lugar no jogo. Ninguém ganha o seu lugar no jogo. Todos nascem no lugar que lhes compete."(...)

 As pegas são mesmo assim. As baratas, as que estão no princípio da carreira e que ainda se chamam Lucindas, Lurdes ou Carmos, têm um profundo respeito pelas famílias e pelas mulheres legítimas dos amigos. Para elas a família é qualquer coisa de sagrado que está ligada ainda às recordações das mães que deixaram nas Beiras ou no Alto do Pina, no Minho ou em Campo de Ourique. No segundo grau da carreira já se chamam Odettes, Lizettes e Arlettes. Já falam dos "velhotes" com desprezo e da família como se esta fosse uma "velharia" merecedora do destino que tem. Num terceiro grau chamam-se Celines, Jeaninnes e Marguerites. Começam a compreender que existem regras e já não falam das famílias. Nem das suas, nem das famílias dos amigos.(...)

 Gostaria de te chamar "amor", Alexandra, mas não o posso fazer. Eras capaz de acreditar, e como necessitas de amor e de acreditar em alguém, eras mesmo capaz de acabar com o matulão que te faz ler Aragon... e eu não te amo, Alexandra, embora gostasse, neste momento, de te chamar "meu amor"... só porque tenho pena de ti... e de mim... e de tudo...(...)

 Não vale a pena responder. A estas coisas não se responde. São os diálogos domésticos dos casais da nossa idade e do nosso meio. Substituem o amor e a vida. Quebram o silêncio e dão a impressão de que tudo vai bem. E vai. O mais engraçado é que tudo vai bem. Quando nada há de comum entre um homem e uma mulher senão a cama e o facto de conhecerem a mesma gente, de que podem eles falar, na idade em que a cama começa a ser o local onde se dorme e nada mais?(...)"
                                                                      in " Angústia para o jantar"(1961)


Da série produzida para a RTP, em 1975, descobri apenas este video muito curto. Realizada por Jaime Silva, com Jorge Brum do Canto , Ruy de Carvalho, Armando Branco Alves, Madalena Braga, Fernanda Lapa, Canto e Castro, Laura Soveral, e outros...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ilusão




Sou mente tola que tudo inventa.
Porque não admito que o sol te aqueça
sem a minha presença.
Ou que a chuva te molhe
e acaricie sem pedir-me licença.
Que o sorriso que em mim se apresenta
fique triste quando te olhe.
Para ti desejei livres espaços
ocupados por árvores e por brisas,
corropio de amor, breves cansaços,
musgo verde, chão de pétalas de rosas
em movimento que tu pisas.
Criei nos teus ombros altas pontes
e nas tuas mãos abri sem querer
pequenos lagos, doces frescas fontes.
No teu olhar imaginei um pedaço de céu
que depressa  de mim desapareceu.
Mas nunca verdadeiramente te perdi.
De coisa nenhuma nunca algo nasceu.
Poderia dizer-te da tristeza sem idade,
falar-te desta angústia. Da fatalidade 
desta tremenda estupidez....
Nada daria a medida das minhas penas,
do peso dos dias e das noites,
da alegria e contentamento que não se fez,
da beleza de todas as coisas pequenas.
Dos extensos, duradouros desertos
de sonhos adormecidos e despertos.
Deste exílio permanente em lugar nenhum.
Uma saudade de histórias não contadas;
apenas fantasia intensa sem maravilha...
Ilusões de óptica, escuras fundas estradas
como se fosses apenas uma ilha.
Não existe já um lamento ou um quebranto.
Apenas uma ausência que me atravessa,
uma lança que me trespassa, um triste canto.
Não existe já uma atrevida promessa.
Nem mágoa contida, nem devassa.
Apenas foste embora para a tua colina.
O teu e o meu tempo depressa passa
sabes do tesouro que existe no fundo da mina. 
Mas, em ti persisto sem que esteja.


Escolhi para este poema, "A Case of You", composição e interpretação de Joni Mitchell, tema aqui interpretado com um ligeiro sabor a fado, por Ana Moura. Uma voz muito particular e sedutora. 
A versão de K.D.Lang é também muito bonita.



Como diria Oscar Wilde, "a ilusão é o primeiro de todos os prazeres", o que "parece um absurdo, e no entanto é a exacta verdade, que, se toda a realidade for vazia, não haverá mais nada de real nem de substancial no mundo além das ilusões"(Giacomo Leopardi), porque "sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio"(Anatole France), as "ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro"(Victor Hugo) e "o coração é regra geral a fonte das ilusões do espírito"(Pierre Nicole)


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Palavras


"Todo o homem pode enganar-se em sua parte de alimento, mas não pode enganar-se na sua parte de palavra"
                        Provérbio Malinké


Pedem-nos um acento circunflexo, um sinal,
uma exclamação de espanto, uma interrogação,
detestam nossas reticências, exigem-nos um ponto final.
Palavras que pingam e colam docemente 
como o mel duma paixão, 
ou atiradas violentamente
como rajada de metralhadora.
Palavras ancoradas em silêncio, acanhadas,
apenas sussurradas, entoadas a meia voz
quando nos encontramos tão frágeis dentro de nós.
Palavras libertinas, corajosas, clandestinas,
censuradas outrora por lápis azul.
Ditas a medo, em surdina, pelas esquinas.
Indesejadas ou vestidas de suave veludo,
que nos afagam nada dizendo
quando no nada dizem tudo.
De cristal, quebradas ao mais ligeiro sopro.
Ácidas, amargas, cálidas, serenas,
pesadas, vibrantes e contundentes,
brancas  e puras como açucenas.
Gélidas, brilhante punhal no escuro,
ou guardadas em gavetas
como segredo impuro.
Palavras que nos oferecem o infinito
ou nos conduzem ao fundo da sarjeta.
Que nos fazem libertar em grito
ou seguir de olhos fechados a cauda do cometa.
Sedutoras e mágicas na tua pena de poeta.
Tanta intimidade com elas pode ser obsceno...
Conhecem-nos, põe-nos a nu.
Deitam-se connosco,
acordam ao nosso lado
em ambiente inocente, santo
ou de pecado.
E contudo, traem-nos tanto.


Que me desculpem os que possam não entender Francês, mas hoje só poderia escolher "Des Mots", dessa ave tão rara, Léo Ferré, que "vive comigo" desde a adolescência. Bela época, em que se ouvia muita música francesa na rádio.
"Des mots qui montent de la terre comme des oiseaux tristes...."



"Se não há homens insubstituíveis, há palavras que são insubstituíveis. Elas, de resto, não exprimem nunca o conflito, mas o seu fantasma; e o fantasma duma realidade está subordinado à escolha estrita das palavras. Aí repousa o estrato da confiança humana".
Agustina Bessa-Luís




sexta-feira, 19 de julho de 2013

Flores





          SE ÁS VEZES DIGO QUE AS FLORES SORRIEM

          Se ás vezes digo que as flores sorriem
          E se eu disser que os rios cantam,
          Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
          E cantos no correr dos rios...
          É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
          A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
          Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
          À sua estupidez de sentidos...
          Não concordo comigo mas absolvo-me,
          Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
          Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
          Por ela não ser linguagem nenhuma.

            Alberto Caeiro, in "Guardador de Rebanhos" Poema XXXI
                                                           Heter. de Fernando Pessoa



 Decidi hoje desanuviar o ambiente, torná-lo mais alegre; simples pretexto para partilhar convosco algumas das minhas flores... Se um dia me quiserem oferecer uma flor, ofereçam-na com vaso, não cortada. Gosto de vê-las crescer enquanto sujo as mãos de terra.














QUÍMICA

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós a provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"



E como gostaria de ter sido bailarina, aqui está a "Valsa das Flores" de Tchaikovsky



sexta-feira, 12 de julho de 2013

Naufrágio


                                                    Tela de Aida Guimarães




                      Arrisquei em oceano de piratas
                      desconhecendo a cartografia.
                      Icei as velas, rasguei o mar
                      bravio que me mentia.
                      Meu cabo da Boa Esperança
                      foi apenas mero Bojador.
                      E o vento fez afundar 
                      frágeis porões carregados de temor.
                      Em paragens que não soube marear
                      sem as artes náuticas que a ocasião pedia,
                      sem terra à vista, fortaleza de abrigo,
                      pimenta, prata, panos, sedas ou safiras...
                      Apenas sereias de palavras, vagas de perigo,
                      alucinações em epopeia de mentiras.
                      Ressuscitei do breve naufrágio 
                      e traço nova expedição dentro de mim.
                      Bendito presságio!
                      Descerro todas as janelas, a brisa 
                      viaja fresca em movimento sem fim,
                      afaga-me como nunca antes,
                      tão perto deste cais donde partem
                      audazes, todos os navegantes.

                     Cada tesouro da viagem percorrida
                      se perdeu para sempre; cofre de ouro
                      em abismo de estonteantes corais 
                      na nau imaginada de uma vida.





Escolhi para ondular com este meu poema, "Naufrágio", um poema belíssimo de Cecília Meireles, poetisa que muito admiro, na voz de Amália.

                  


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Miguel Esteves Cardoso



"Aldrabar não é só enganar. É enganar sem o devido cuidado; sem o mínimo esforço. Enganar é nobre, implica um mínimo de esforço e respeito pela vítima: ser enganado não é sinal de estupidez"
(Revista Nós-Jornal i, 2010)


 Miguel Vicente Esteves Cardoso é um crítico, cronista, jornalista e escritor nascido em Lisboa em 1955, de pai português e mãe inglesa.
 Licenciado em Estudos Políticos e com um pós-doutoramento em Filosofia Política, dividiu a sua vida académica entre Inglaterra e Portugal, carreira que abandonaria em 1988 para fundar com Paulo Portas o jornal "O Independente", semanário de cariz conservador e elitista, em contraposição com a imprensa maioritariamente esquerdista da época. Deixaria a direcção d' "O Independente" para criar a revista "K". Escreveu desde muito jovem, crónicas sobre música para vários jornais e revistas, tendo fundado com Pedro Ayres de Magalhães, Ricardo Camacho e Francisco Sande e Castro, a Fundação Atlântica, primeira editora portuguesa independente que viria a produzir discos para os "Sétima Legião", "Xutos e Pontapés", "Delfins", Anamar, etc. M.E.Cardoso contribuiria também como letrista para nomes como Né Ladeiras ou Manuela Moura Guedes, com a pedrada no charco do "Foram cardos foram prosas".
Também se dedicou à crítica literária e cinematográfica, fez traduções de S. Beckett, foi autor e co-autor de programas de rádio e participou em programas de televisão; como guionista no "Humor de Perdição" de Herman José e na "Noite da Má Língua", saudoso talk-show da SIC.
 Principais obras: "A Causa das Coisas"(1986), "Os Meus Problemas"(1988), "As Minhas Aventuras na República Portuguesa"(1990), "O Amor é Fodido"(1994), "A Vida Inteira"(1995), "O Cemitério de Raparigas"(1996), "Com os Copos"(2007), "Em Portugal Não se Come Mal"(2008), "Como é Linda a Puta da Vida"(2013), etc.
 De pensamento vivo e acutilante, intelectualmente irónico e desconcertante, aprecio sobretudo a veia satírica das suas crónicas. 



NÃO HÁ AMOR COMO O PRIMEIRO

 Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica.
 Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltámos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.

 Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer "Alto-e-pára-o-baile", amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto- preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco -branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

 Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não há outro amor como o amor doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: " Adeus Mariana-desta vez é que me vou mesmo suicidar". Podem ficar (e que remédio têm) com o "savoir-faire" e os "fait-divers" e o "quero com vista para o mar se ainda houver". Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente perde e toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: " Não pensar, não resistir, não duvidar". Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - "e não há milagres em segunda mão". É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor morre-se. Quando se renasce há uma ressaca.

                                                           Miguel E. Cardoso, in "Os Meus Problemas"


 Não vou escolher nem Anamar, nem Manuela Moura Guedes porque os vídeos são pré-históricos e horríveis, embora as letras de M.E. Cardoso sejam boas; prefiro mostrar Né Ladeiras, a cantar "Sinhô", uma composição de Chico César em parceria com Tiago Torres da Silva.