"O coração ingrato assemelha-se ao deserto que sorve com avidez a água do céu e não produz coisa alguma" (Musharrif Od-Dîn Sa'adi)
I
Em horizonte de camelos e miragens,
de beduínos trajados de incerteza,
o absoluto não será a ideia de Hegel,
mas um retalho de quente angústia
sem eco de transparência ou de beleza.
Um sentir que as ideias não passam disso.
Por vezes uma incrível alucinação
a que a mais leve brisa dá sumiço.
Ideia erguida ao sol e desfeita nas areias,
delirando secamente em desidratação,
em síncope cercada por centopeias.
A força que nos anima é um jacto de poesia,
um pouco do espírito da ideia hegeliana...
O desejo reencontrado a cada dia
no sentimento telúrico de uma totalidade
em intransponível paisagem serrana,
rodando sobre eixo fixo que emana
em ousadia, a tua e a minha liberdade,
reduto inviolável da consciência humana.
Em espaço inóspito dançaremos.
Para longe caminharemos.
Chegaremos ao mar?...
II
Parte ao raiar d'aurora, na frescura da manhã.
Parte mansamente e sem demora,
na levitação incandescente de um instante.
Agarra o sol, toma a lua como barco,
pinta de prata os teus leves dedos,
toma o rumo dourado do poente.
Na chegada ao teu destino
arranja um corpo bem quente,
deita-te nele suavemente
como um pequeno menino.
Se alguém te incomodar
manda-me logo chamar
no outono das horas que domino.
III
O Inverno voraz chegou tão cedo...
Trovejam agora sinais de desalento.
A noite depressa chegou.Sinto medo.
É de cinza a luz nos olhos da serpente
enroscada sem piedade no meu ventre.
Sinto em mim correr em pensamento
um escorpião veloz, primavera ausente,
desvario perdido em corpo sonolento.
Jovem ideia jaz no fim que se pressente.
Deserto... Não alcançaremos o mar.
A lua retomará decerto o seu lugar,
incorporar-se-á na eterna coerência
gelada do como as coisas sempre são.
Sem réstia de brilho ou efervescência
ao relento empurrada pelo vento Suão,
envergonhada pela própria inocência.
Distante ficou incerto oásis verdejante.
Apenas nuvens de pó, dunas sem água...
Mas só no encontro a sós contigo
qual rosa-do-deserto em trajecto errante
de areias movediças até ao umbigo,
me encontrei comigo a cada instante.
Escolhi para este poema,"El desierto" de Lhasa De Sela. Esta não é dela a minha canção favorita, mas é a que melhor se adequa ao meu poema. Uma cantora infelizmente desaparecida de forma prematura, que me foi apresentada por um amante da música. Obrigada, S.




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