Lisboa,1926- Lisboa,1993
"Só os generais que nunca estiveram debaixo de fogo é que dizem que as batalhas se ganham com bravura e com discursos"
Filho de um embaixador em Londres demitido por Salazar, Luís Infante de Lacerda de Sttau Monteiro, volta para Lisboa com o pai, onde se licencia em Direito e inicia uma carreira no jornalismo.
Dominado pela influência de B. Brecht, escreve em 1961 "Felizmente há Luar", peça de denúncia da sociedade portuguesa da época, texto proibido pela censura, e que só seria levado aos palcos, no Teatro Nacional, depois da revolução de Abril.
Romance: "Um Cão não Chora"(1960), "Angústia para o Jantar" e "E se for Rapariga Chama-se Custódia"(ambas de 1961), "A Mulher que queria o Fim do Mundo"(1965).
Teatro: "Felizmente há Luar"(1961), "Todos os Anos pela Primavera"(1963), "O Barão"(1965, adaptação do conto homónimo de Branquinho da Fonseca), "Auto da Barca do Motor fora de Borda"(1966), "A Guerra Santa" e "A Estátua"(1967), "As Mãos de Abraão Zacut"(1968), "Sua Excelência"(1971), e "Crónica Aventurosa do Esperançoso Fagundes"(1980).
Galardoado com o Grande Prémio de Teatro em 1961, foi feito Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, a título póstumo.
Embora mais conhecido como dramaturgo, dele decidi mostrar a faceta de romancista, no livro "Angústia para o Jantar", obra com personagens inesquecíveis, adaptada para televisão, cujos diálogos transmitem, através do colorido das palavras arrancadas à própria vida, toda a credibilidade às situações descritas.
A intensa análise psicológica, e a descrição irónica de uma atmosfera lisboeta retrógrada e corrompida por relações humanas falseadas pela hipocrisia, dão a conhecer o processo evolutivo de uma geração que teve de enfrentar o problema pertinente de tentar descobrir se a existência será uma permanente e angustiante fuga à realidade, numa obra centralizada mais no discurso directo e no monólogo interior de cariz psicologicamente dramático, do que em qualquer análise de fundamentos espirituais ou de valores.
O que levará Gonçalo, homem rico, a encontrar-se para jantar, todos os os meses, sempre ao 15º dia de cada mês, com António, solitário empregado de escritório, e pobre? Que poderão ter eles em comum senão apenas o facto de terem sido colegas de liceu há mais de 30 anos?...
Dois homens enleados nos vícios da sociedade, e numa teia de personagens que se cruzam em circunstâncias pouco lícitas.
Alguns excertos:
ANGÚSTIA PARA O JANTAR
(...) " Se o meu destino histórico não se apressa, chega tarde...Estou velho. Velho e farto. E se eu tivesse agora uma mulher na cama? Se eu fosse casado? Não acontecia nada. Contava-lhe o que se passou no restaurante. Contava-lhe tudo. Tudo não. Há coisas que não se podem contar. Um homem não pode contar à mulher que foi humilhado por um amigo no restaurante. Essas coisas só se contam quando é possível rematá-las acrescentando que depois se deu um par de bofetadas no amigo. E os homens que levam bofetadas nos restaurantes? Que contam eles às mulheres? Nada. Deve ser difícil ser casado. Todo o homem, mais tarde ou mais cedo, leva um par de bofetadas de que não pode falar à mulher e depois, cada vez que olha para ela, lembra-se das bofetadas que não foram contadas. Cada vez que olha para ela, leva outro par de bofetadas.(...)
As mulheres odeiam os jogos dos homens, como odeiam todos os jogos de que não façam parte. Necessitam de estar no palco como os peixes de estar na água. É por isso que odeiam a guerra, o futebol, a caça. Sabem instintivamente que são jogos de homens, jogos inventados por eles, jogos que os homens preferem jogar sozinhos e nos quais elas, ainda que tomem parte, constituem um embaraço.(...)
O marido é quem decide, é quem vai à frente, é quem come o bife. Acima do marido está o pároco, acima do pároco, o bispo, e acima do bispo, Deus. Eu estou no meio, dou dinheiro ao pároco e pisco o olho ao beijar a mão do bispo. É o meu jogo, o meu lugar no jogo. Regra número sete dos jogos que não levam a nada: "ninguém escolhe o seu lugar no jogo. Ninguém ganha o seu lugar no jogo. Todos nascem no lugar que lhes compete."(...)
As pegas são mesmo assim. As baratas, as que estão no princípio da carreira e que ainda se chamam Lucindas, Lurdes ou Carmos, têm um profundo respeito pelas famílias e pelas mulheres legítimas dos amigos. Para elas a família é qualquer coisa de sagrado que está ligada ainda às recordações das mães que deixaram nas Beiras ou no Alto do Pina, no Minho ou em Campo de Ourique. No segundo grau da carreira já se chamam Odettes, Lizettes e Arlettes. Já falam dos "velhotes" com desprezo e da família como se esta fosse uma "velharia" merecedora do destino que tem. Num terceiro grau chamam-se Celines, Jeaninnes e Marguerites. Começam a compreender que existem regras e já não falam das famílias. Nem das suas, nem das famílias dos amigos.(...)
Gostaria de te chamar "amor", Alexandra, mas não o posso fazer. Eras capaz de acreditar, e como necessitas de amor e de acreditar em alguém, eras mesmo capaz de acabar com o matulão que te faz ler Aragon... e eu não te amo, Alexandra, embora gostasse, neste momento, de te chamar "meu amor"... só porque tenho pena de ti... e de mim... e de tudo...(...)
Não vale a pena responder. A estas coisas não se responde. São os diálogos domésticos dos casais da nossa idade e do nosso meio. Substituem o amor e a vida. Quebram o silêncio e dão a impressão de que tudo vai bem. E vai. O mais engraçado é que tudo vai bem. Quando nada há de comum entre um homem e uma mulher senão a cama e o facto de conhecerem a mesma gente, de que podem eles falar, na idade em que a cama começa a ser o local onde se dorme e nada mais?(...)"
in " Angústia para o jantar"(1961)
Da série produzida para a RTP, em 1975, descobri apenas este video muito curto. Realizada por Jaime Silva, com Jorge Brum do Canto , Ruy de Carvalho, Armando Branco Alves, Madalena Braga, Fernanda Lapa, Canto e Castro, Laura Soveral, e outros...