"Vivi tanto que já não tenho outra noção de eternidade
que não seja a duração da minha vida"
in "Em torno do Imponderável", 2012)
António Vítor Ramos Rosa foi poeta e tradutor, ensaísta e talentoso desenhador. Nascido em Faro em 1924, faleceu em Setembro deste ano em Lisboa, aos 88 anos. Impossibilitado de terminar os estudos secundários por motivos de saúde, acabaria no entanto por dedicar-se tão exaustivamente à leitura e ao estudo que viria a ser recompensado pela sua auto-formação, ao conceber uma obra poética das mais extensas e ricas da poesia portuguesa contemporânea.
Durante alguns anos empregado de escritório, pertencem a essa fase os célebres poemas "Poema de um Funcionário Cansado" e "Boi de Paciência", sobre a monotonia do quotidiano.
Ensinou Português, Inglês e Francês, e traduziu autores estrangeiros para várias editoras. Homem "tímido e discreto" segundo Júlio Pomar, ambos opositores ao Salazarismo e presos pela PIDE, não impediu contudo Ramos Rosa de fundar algumas revistas literárias e colaborar em muitas outras, ao longo dos anos.
Escreve o primeiro livro em 1958, aos 34 anos, e a partir daí a sua produção literária crescerá a um ritmo impressionante. Uma poesia pouco rebuscada, de certa forma elementar, de vocabulário rarefeito e rigor construtivo com laivos de contaminação filosófica, procurando em singularidade a reconciliação com o mundo ao recriá-lo poeticamente, num tipo de elaboração que salienta erótica e sensualmente as formas da mulher ou da natureza.
Um poeta que tentou superar a usual dicotomia facilitista entre a poesia 'social' e a poesia 'pura', defendendo que o trabalho incisivo sobre a linguagem, seria independente do empenhamento em questões sociais. Amante da liberdade e não alheado do confronto com o que a realidade tem de opressivo, a sua visão do mundo e das coisas adquirirá ao longo do tempo um lirismo projectado numa linearidade feita de suavidade e de luz.
Autor de cerca de cem obras, destacarei apenas "O Grito Claro"(1958), "Poesia, Liberdade Livre"(ensaio,1962), "O Ciclo do Cavalo"(1975), "A Poesia Moderna e a Interrogação do Real"(ensaio, 1979), "Volante Verde"(1986), "Nomes de Ninguém"(1997), "Deambulações Oblíquas"(2001), "Em Torno do Imponderável"(2012).
Casado com a escritora Agripina Costa Marques, recebeu tantos prémios literários que aqui apenas destacarei o Prémio Pessoa em 1988.
NÃO POSSO ADIAR O AMOR
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
in "O Grito Claro", (1958)
Uma animação de Bradley Bell baseada no poema " The Laughing Heart" de Charles Bukowski, na voz de Tom Waits
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
in "Viagem Através duma Nebulosa", 1960



















