"Só há humilhação se se aceita a escala de valores que os outros nos impõem."
Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia 1916-Lisboa 1996), professor e escritor, distinguiu-se no género de romance, ensaio e diário, tendo sido galardoado com o Prémio Camões em 1992. São tantas as suas obras que salientarei apenas: "O Caminho fica Longe"(1943), "A Face Sangrenta"(1953), "Aparição"(1959), "Cântico Final"(1960), "Apelo da Noite"(1963), "Alegria Breve"(1965), "Apenas Homens"(1970), "Signo Sinal"(1979), "Para Sempre"(1983), "Até ao Fim"(1987), "Em Nome da Terra"(1990), "Na tua Face"(1993)......Ler mais
A Universidade de Évora instituiu em 1997 o Prémio Vergílio Ferreira como homenagem ao escritor e ensaísta, galardoando assim outros autores de Língua Portuguesa.
Inserido na corrente neo-realista, a sua escrita foi aos poucos sendo influenciada pelo Existencialismo, pautando as suas narrativas pela importância do indivíduo como actor do seu destino, no qual a memória e a consciência adquirem valor próprio.
Um esteta da palavra que considerava que a ligação do homem com o mundo era feita de emoção, e como tal precisaria de "um esclarecimento e superior objectivação" que só a a arte poderia tornar possível.
Apaixonado pela Serra da Estrela onde como num regresso às origens,seria enterrado, decidi por isso evocar "Manhã Submersa", romance escrito em 1954, drama de cunho autobiográfico no qual o autor relata experiências pessoais dolorosas, partindo da personagem António Borralho para a abordagem da pobreza e desigualdades sociais, num ambiente de repressão educativa.
Coagido a frequentar o Seminário do Fundão, por uma tutora beata que o oprime através da religião,para uma vocação que não sente, António vivenciará os caprichos dos padres e as suas obsessões, a solidão e a angústia, suavizadas apenas pelo espírito de camaradagem entre os rapazes.Adopta, por fim, uma posição de ruptura através de um acto impensado que lhe indicará o caminho de volta a uma realidade crua mas liberta.
Eis alguns excertos.
MANHÃ SUBMERSA
"...Marcada a cama de cada um, voltamos à sala de espera para recolher a bagagem. Tivemos de ceder a primazia aos mais velhos(...)Sei que depois ainda fomos à capela e nos despimos, com um cerimonial esquisito, antes de dormirmos. Mas nessa altura, pesado de sofrimento, um grande apelo final de silêncio e desistência subia para mim desde as raízes da noite. E fechei os olhos.(...)
E uma saudade densa caiu-me, como um peso na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei na saca de roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto....(...)O peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido.
Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.
(...)Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas a um apelo de abandono, a um esquecimento "real", a bruma da distância levanta-se -me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente....(...)
Inesperadamente, por minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...."
Este romance foi adaptado ao cinema por Lauro António. Uma longa-metragem rodada em 1978-1979, estreada em 1980. Com Eunice Muñoz, o próprio V. Ferreira como Reitor do Seminário, Canto e Castro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Camacho Costa, Joaquim M. Dias entre outros.
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Uma singela homenagem ao grande Vergílio Ferreira .
ResponderEliminarLuison
Exactamente, uma singela homenagem a um escritor que admiro, e que parece estar um pouco esquecido.
EliminarNão lhe conhecia a obra, só um ou dos textos. Um senhor.
ResponderEliminarÉ verdade S*, um senhor escritor que nunca se pôs em bicos de pés.
EliminarFiquei com ainda mais vontade de ler algo dele. Ouvi falar neste romance, curiosamente, nas olimpíadas da língua portuguesa, que passaram há uns anos na RTP, pois era um dos romances que os concorrentes tinham que ler! :)
ResponderEliminarAinda bem que ficaste com vontade de ler mais alguma coisa.... :-) Acho que por vezes é um escritor um bocado esquecido.Também gostei muito de "Cântico Final", sobre o qual também existe um filme realizado em 1975, com Ruy de Carvalho e Simone de Oliveira.
EliminarObrigada pelo teu comentário.
O meu predilecto de todos os escritores portugueses. Já lia a Aparição 3 ou 4 vezes.
ResponderEliminarA isso chama-se bom gosto, Mariposa! E há livros aos quais se sente vontade de voltar de vez em quando....:-)
ResponderEliminarO primeiro escritor por quem me «apaixonei»... e para mim, ainda hoje, um dos melhores escritores portugueses. Um dia escrevo um tópico sobre a minha a Fontanelas para conversar 5 minutos com ele...
ResponderEliminarUma boa "paixão".. :-) E escreve esse tópico acerca dos 5 minutos de conversa com ele em Fontanelas; deve ter sido interessante.
EliminarLembrei-me logo da música dos Xutos, "Manhã Submersa"! ^^ Gostava de fotografar aquela pedra toda esculpida, qual Monte Rushmore.
ResponderEliminarPensei logo que te fosses lembrar dessa música dos Xutos....
EliminarAgarra na máq. fotográfica porque a Serra da Estrela está à tua espera.
Magnifico trailer e romance, Laura beijos.
ResponderEliminarhttp://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br
Este escritor é magnífico. Fiz a minha tese universitária a partir de uma obra dele, e conheço cada palavra dele quase como as minhas mãos. Um talentoso escritor e um grandioso homem na sua humildade.
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