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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ilusão




Sou mente tola que tudo inventa.
Porque não admito que o sol te aqueça
sem a minha presença.
Ou que a chuva te molhe
e acaricie sem pedir-me licença.
Que o sorriso que em mim se apresenta
fique triste quando te olhe.
Para ti desejei livres espaços
ocupados por árvores e por brisas,
corropio de amor, breves cansaços,
musgo verde, chão de pétalas de rosas
em movimento que tu pisas.
Criei nos teus ombros altas pontes
e nas tuas mãos abri sem querer
pequenos lagos, doces frescas fontes.
No teu olhar imaginei um pedaço de céu
que depressa  de mim desapareceu.
Mas nunca verdadeiramente te perdi.
De coisa nenhuma nunca algo nasceu.
Poderia dizer-te da tristeza sem idade,
falar-te desta angústia. Da fatalidade 
desta tremenda estupidez....
Nada daria a medida das minhas penas,
do peso dos dias e das noites,
da alegria e contentamento que não se fez,
da beleza de todas as coisas pequenas.
Dos extensos, duradouros desertos
de sonhos adormecidos e despertos.
Deste exílio permanente em lugar nenhum.
Uma saudade de histórias não contadas;
apenas fantasia intensa sem maravilha...
Ilusões de óptica, escuras fundas estradas
como se fosses apenas uma ilha.
Não existe já um lamento ou um quebranto.
Apenas uma ausência que me atravessa,
uma lança que me trespassa, um triste canto.
Não existe já uma atrevida promessa.
Nem mágoa contida, nem devassa.
Apenas foste embora para a tua colina.
O teu e o meu tempo depressa passa
sabes do tesouro que existe no fundo da mina. 
Mas, em ti persisto sem que esteja.


Escolhi para este poema, "A Case of You", composição e interpretação de Joni Mitchell, tema aqui interpretado com um ligeiro sabor a fado, por Ana Moura. Uma voz muito particular e sedutora. 
A versão de K.D.Lang é também muito bonita.



Como diria Oscar Wilde, "a ilusão é o primeiro de todos os prazeres", o que "parece um absurdo, e no entanto é a exacta verdade, que, se toda a realidade for vazia, não haverá mais nada de real nem de substancial no mundo além das ilusões"(Giacomo Leopardi), porque "sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio"(Anatole France), as "ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro"(Victor Hugo) e "o coração é regra geral a fonte das ilusões do espírito"(Pierre Nicole)


domingo, 19 de maio de 2013

Tempestade



 " A imagem daqueles salgueiros na água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros."
                                                                        Mário Quintana (Sapato Florido,1948)



                                              Para onde vais tu água do rio,
                                              Que salgueiros te vêem passar?
                                              Porque sentirei lento arrepio
                                              Porque fica tão distante o mar?

                                              Tão grande cegueira não querer ver
                                              O carrossel de espuma e de cristal...
                                              As acácias murcharam, vão morrer,
                                              Fico sozinha olhando o vendaval.

                                              Guardados sobram da mocidade,
                                              Os sonhos arquivados na memória
                                              Envoltos em véu de  opacidade.

                                              Rasguei de repente a claridade
                                              Lavei de mágoas toda a história,
                                              Aceito resoluta esta saudade.







sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Largo


"Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.


Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida- a grande e misteriosa vida do Largo.


Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber- cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.

 Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

A casa era para as mulheres."

MANUEL DA FONSECA

Um bonito excerto de " O Fogo e as Cinzas" (1951) de Manuel da Fonseca. Um retrato dos trabalhadores rurais dos anos 40-50, num Alentejo rústico e em decomposição, de personagens condenadas à pobreza, pela exclusão ou pelo esquecimento.Um mestre do neo-realismo.

Um pouco do meu Alentejo. Neste caso, os mineiros, tão esquecidos.



Maré



O primeiro poema que me lembro de ter escrito por volta dos meus 15 anos de idade.
Como o tempo foge! Tanto mar e tanta maré!
                            

         A MARÉ
          (Falso soneto)


    As tristes algas vadias 
     Vagueiam no mar deserto
     Cansadas todos os dias
     Vêm vêm para perto...

     E todo o verde já morre
     Morre sem saber porquê
     Pois toda a água já corre
     E foge , ninguém a vê...

     Nesta natural verdade
     Que não me deixa saudade
     Fico à espera da maré.

     Fico escutando na vaga
     Toda a tristeza da alga
     Que já não sabe quem é...




quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Madrugada


MADRUGADA
   

Já todo o espanto morreu de surpresa
E a Primavera acusa a despedida 
Está já toda a tristeza sobre a mesa 
Está a morrer, a desabar a vida.

E sem querer mostrar a infelicidade
Dum dia que é a morte doutro dia
É já o derrocar da Humanidade,
Na manhã, no sol, em cada magia. 

E já cansada a agarrar o ar
Para depois sentir, chorar, calar
Nasce da mulher a última criança

Soltam as aves tristes madrigais,
Saem da Terra gemidos e ais;
É o diabo que ri, que canta e dança!



Eugénio de Andrade


EUGÉNIO DE ANDRADE


 Um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.( Póvoa de Atalaia 1923-Porto 2005).
 Viveu em Lisboa, Coimbra, onde acabou os estudos, e no Porto onde viveu muitos anos e viria a falecer. Sempre distanciado da vida mundana, recebeu o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários(1986), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus(1988), o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(1989) e o Prémio Camões(2001).
  De destaque na sua vasta obra : "As Mãos e os Frutos", "Os Amantes sem Dinheiro", " As Palavras Interditas", "Escrita da Terra", "Matéria Solar", "Rente ao Dizer", "Ofício de Paciência", "O Sal da Língua", "Os Lugares do Lume"....    
 Foi-me difícil escolher um poema, são todos de um lirismo impressionante. Escolhi este.

                                                    ELEGIA
                                 
                                   Às vezes era bom que tu viesses.
                                   Falavas de tudo com modos naturais:
                                   Em ti havia a harmonia
                                   dos frutos e dos animais.

                                   Maio trouxe cravos como outrora,
                                   cravos morenos como tu dizias,
                                   mas cada hora
                                   passa e não se demora
                                   na tristeza das nossas alegrias.

                                   Ainda sabemos cantar,
                                   só a nossa voz é que mudou:
                                   somos agora mais lentos,
                                   mais amargos,
                                   um novo gesto é igual ao que passou.

                                   Um verso já não é a maravilha,
                                    um corpo já não é a plenitude,
                                    tu quebraste o ritmo, o ardor,
                                    ao partires um a um,
                                    os ramos da tua juventude.

                                    Não estamos sós:
                                    Setembro traz ainda
                                    um fruto em cada mão.
                                    Mas os homens, as aves e os ventos
                                    já não bebem em ti a direcção.

                                                                in "Os Amantes sem Dinheiro"