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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Água



"Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita"
Carlos Drummond de Andrade



 Da água diz-se que é doce. No entanto pode remeter-nos para experiências amargas. Mais do que elemento físico e químico essencial, é também metáfora, representação simbólica e imagem de circunstâncias e estados de alma.
 Dela dependemos para beber, lavar, preparar alimentos, até para respirar...Lava tudo, diz-se, embora nem a seco as más acções se consigam limpar, principalmente as de carácter mudo, já que torrente de água que não se anuncia pode ter efeitos devastadores, tal como águas estagnadas não serão também dignas de confiança. Engrossadas por lama poderão funcionar como autênticos atoleiros.
 Sabemos que "águas passadas não movem moinhos"* e que "mentir é deitar água em saco roto"*, lançando no esgoto algo de tão valioso como a verdade que deveria caminhar  à tona de água e não sofrer ondulações ao sabor das correntes. Pode ser bálsamo, ou nela eventualmente nos afogarmos, embora como estamos podres de saber mais gente se afogou em vinho do que em água, porque "dar de beber à dor" não tem a ver com falta de água.
 Podemos encontrá-la em rios e lagos, albufeiras, poços, cascatas, mas também em vapor que se ausenta em nuvem de sede que poderemos ter que procurar um dia, penosamente, num qualquer fim de mundo, em lençóis subterrâneos escondida, ou em recôndito oásis difícil de alcançar. Solidificada em glaciares, controlada por diques, canais, ou em caudal livre, serpenteando entre vales como seiva da natureza. Nuvens negras oferecerão gotas que encherão leitos e bacias, originando terrenos férteis ao seu redor, fazendo germinar sementes adormecidas. Tal  como de situações adversas nos pode surgir a luz essencial como água bruta, para plantar graciosamente jactos de festa.
 Pouco inundo de beleza à minha volta, talvez porque gota libertada por mim nesta imensidão de ideais e necessidades acabe por sentir-se impotente. Contudo um conjunto de gotas enlaçadas poderá ajudar a fazer flutuar e dar rumo a este oceano de veleiros desnorteados e jangadas à deriva; possibilidade de variadas rotas, esperança de travessias dum lado ao outro do mundo.
 Em água lisa e calma, espelho reflector do teu rosto e do meu, mergulho fundo e refresco-me. Em caso de turbulência fico a observar o movimento das ondas a bater no pontão junto ao cais; entrar ousadamente em mar revolto quando nem mestria se tem para estar em terra firme pode tomar contornos de balde de água fria...
 Se algo for por água abaixo, evocar toda a nossa paciência, e nunca tentar desviar a corrente do seu curso natural; vaga a espatifar-se nas rochas, catarata em potência ou mero sumiço a escoar-se rapidamente em qualquer ralo. Não sendo peixe nem sereia, as profundezas podem ser de tranquilidade ou de tumulto, quase sempre de escuridão e perigo. Pior que achar-se peixe fora de água, é sentir que a água era turva, que a enxurrada de surpresa não permitiu  a retirada atempada, e que as poças de lama fria que ficaram, nos continuam a suscitar um mar de lágrimas transparentes e geladas. Sentir que a paz nos foi roubada e que nenhuma bonança ou arco-íris resplandecente será jamais capaz de aquietar sedes de água salgada. Triste, no entanto, a indiferença, até satisfação, com que alguns observam os que se debatem na água, esperando sem qualquer tipo de embaraço, que o ar e o pé lhes falte.
 Mesmo que as linhas de água que tenhamos gerado não tenham surgido de grandes nascentes, correrão inevitavelmente entre penhascos de pedras, às vezes tão solitariamente que ninguém delas dará conta. Mas quem pressente a subida das marés e a humidade dos corpos, tem para si que 
a natureza nos presenteia com a água, mas que depende de nós a forma como dela enchemos a nossa vida, porque se "a ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água"(T.de Pascoaes).
 Gotas de granizo caíram como pérolas dos beirais, pingando desamparadas na terra iluminada pela manhã que acaba de nascer. Imagino ao longe uma clepsidra, e o tempo que me resta, a esvair-se apressadamente na distância. Passos ligeiros e apressados fazem, bem perto de mim, o seu  percurso sequioso e incerto a caminho das fontes.



Escolhi para este texto "Little Water Song", composição de Nick Cave, aqui interpretada por Ute Lemper.Esta canção integra uma das cenas do filme de John Turturro "Romance & Cigarettes" que tem no elenco um actor que gosto: James Gandolfini.



*Provérbios


domingo, 19 de maio de 2013

Tempestade



 " A imagem daqueles salgueiros na água é mais nítida e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos salgueiros."
                                                                        Mário Quintana (Sapato Florido,1948)



                                              Para onde vais tu água do rio,
                                              Que salgueiros te vêem passar?
                                              Porque sentirei lento arrepio
                                              Porque fica tão distante o mar?

                                              Tão grande cegueira não querer ver
                                              O carrossel de espuma e de cristal...
                                              As acácias murcharam, vão morrer,
                                              Fico sozinha olhando o vendaval.

                                              Guardados sobram da mocidade,
                                              Os sonhos arquivados na memória
                                              Envoltos em véu de  opacidade.

                                              Rasguei de repente a claridade
                                              Lavei de mágoas toda a história,
                                              Aceito resoluta esta saudade.







quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Chuva







 Que seria da Primavera sem a chuva do Inverno?...Refresca-nos a alma e faz brotar os perfumes da terra.
    Maria, este humilde poema é para ti.


                                                     
                                             
                                                  CHUVA

                               
                               Águas caíram, galgaram a margem.
                               Não há nuvem que sempre dure
                               Nem leito de rio que perdure
                               Seco, não vibrante na paisagem.
                               Choveu. Mesmo agora.
                               Lá fora e dentro de ti.
                               Não há no entanto
                               Desencanto pelas fragas.
                               Apenas ecos dispersos pelo monte
                               Anunciando sem mágoas
                               A eterna juventude dos deuses
                               A cintilar em cada fonte.
                               Pardais partiram em debandada
                               Sacudindo as pesadas penas
                               Em esvoaçante, fulminante segundo;
                               Transportando p'lo imenso arvoredo
                               Gotas de luz p'ró interior do mundo.




Para este poema escolhi a canção "Chuva", uma criação do genial letrista e compositor Jorge Fernando, também magnifíco cantor, aqui na voz de Mariza. É muito verdade, "as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade............."





                              
  

                           

domingo, 30 de dezembro de 2012

Onda



ONDA

Deixa  que as gotas frescas cresçam
E perfumem o Sol.
Deixa todo o rio que em ti vive
Mergulhe no meu ventre e se esqueça do mar.
Deixa que o oceano azul, vivo e molhado
Se transforme e grite em mim onda na rebentação.
Deixa, em cada despertar, a água que me arrasta
Fazer-te brilhar.


 Estive indecisa entre "Ich hab dich lieb", "Halt mich", mas decidi-me por "Ich will mehr", por ser uma canção mais enérgica. É do que todos precisamos; uma injecção de energia para o próximo ano quase a bater à porta...E pelas ondas.
  
Herbert Grönemeyer, o meu cantor alemão favorito.