Não creio que o segredo do mundo seja desvendado pela arte, mas considero que a arte nos segreda algo acerca do mundo. Algo de que poderíamos ter consciência não expressa, ou algo que pode surgir como novidade, como surpresa que apazigua a inquietação da existência. Precisamos do exercício da criatividade, porque a vida não nos responde a tudo; de facto não responde a quase nada, já que não responde ao essencial. Feita de conhecimento e imaginação, pode reduzir à insignificância o mundano e óbvio, e encher de sentido as pequenas coisas.
Como diria A. Tchekov, "as obras de arte dividem-se em duas categorias; as de que gosto, e as de que não gosto", porque cada um na sua individualidade apreende a beleza a partir da sua própria singularidade, com sensibilidade diferenciada, com um olhar único, porque a beleza reside sempre nos olhos de quem a vê.
Certo tipo de arte regressa de forma consciente ou inconsciente, a uma ingenuidade primitiva, a uma pureza de forma despojada de complexidade que a torna atractiva ao olhar numa beleza feita de simplicidade.
Há quem defenda que a racionalidade é que nos torna humanos, eu defendo que a arte completa a ideia do que é humano, já que todo o acto criativo emerge de um pensamento e sentimento (o canto da sensibilidade) que se materializa. O resultado dessa obra , deve geralmente ser bebido devagar, e poderá funcionar como abertura e motivação, ou poderá, o que não é pouco, deslumbrar-nos em segundos. A arte não deve ser massificada, tal como não deve ter carácter particular mas universal. Não existe pior erro que tentar adequar a arte ao gosto geral, contudo existem objectos artísticos entendíveis pela maioria devido a uma linguagem de fácil percepção, como se toda a desordem tivesse sucumbido à ordem e à harmonia.
Arte consiste também em retirar do feio a beleza, possibilitando a existência de uma estética do belo ou do horror; uma estética do encantamento ou da dor, como denúncia ou tentativa de catarse, porque a verdadeira arte não copia a aparência das coisas, mas a sua essência; o inconfundível.
A arte pode ser séria e sorumbática, mas também pode ser alegre e divertida.
A arte pode ser séria e sorumbática, mas também pode ser alegre e divertida.
Desejemos que a arte seja uma reconfortante negação da rotina e do aborrecimento dos dias.
A minha cidade não é propriamente efervescente em termos culturais, poderia dizer que entra até num estado de semi-letargia durante o Inverno, mas de vez em quando lá vai acontecendo alguma coisa que nos mantém acordados.
Para além de um Centro Cultural com exposições diversas e espetáculos de teatro ou música, existe um Grupo Cultural, Um Grupo de Jazz, uma Academia de Música, um Grupo de Teatro Experimental, um Cinema, uma Biblioteca bem equipada, com ciclos de cinema e encontros de poesia. Foi também criado há vários anos um Laboratório de Actividades Criativas no edifício da antiga Cadeia, que para além de artistas locais nas áreas de escultura, pintura, arquitectura, cinema, musica, museologia e cerâmica, e organizando oficinas de Dança, Pintura ou Escrita Criativa, recebe também artistas visitantes. Em 2011 foi lançada 1ª edição de ARTURb IN MY WALL com o intuito de valorizar espaços públicos abandonados e geralmente degradados, envolvendo a participação de artistas nacionais e estrangeiros de Arte de Rua.
Lagos é também uma cidade muito descontraída e receptiva a vários espetáculos de rua, ao que não é alheio o facto de ser uma cidade turística.
Como escreveu um dia M. Quintana, "A gente deve sair à rua como quem foge de casa". E diria eu, que a arte foge do mundo para que a encontremos logo ali à nossa frente. Fui surpreendida esta semana, por esta singela galeria ao ar livre de rústicas figuras, junto às muralhas da cidade, muito perto da minha casa.
Causaram-me confortável sorriso de espanto e enriqueceram o meu dia. Fizeram parar o mundo por um momento. Surgiram como que do nada para me surpreender.
Para rematar escolhi um vídeo com peças de João Cutileiro, escultor que informa a pedra bruta. Um apaixonado pelo mármore e pelas formas femininas. Cutileiro viveu em Lagos entre 1970 e 1985. É dele a controversa estátua de D. Sebastião, no centro da cidade.
*ARTURb -arte urbana de artistas unidos em residência





















