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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Arte da Surpresa



 Não creio que o segredo do mundo seja desvendado pela arte, mas considero que a arte nos segreda algo acerca do mundo. Algo de que poderíamos ter consciência não expressa, ou algo que pode surgir como novidade, como surpresa que apazigua a inquietação da existência. Precisamos do exercício da criatividade, porque a vida não nos responde a tudo; de facto não responde a quase nada, já que não responde ao essencial. Feita de conhecimento e imaginação, pode reduzir à insignificância o mundano e óbvio, e encher de sentido as pequenas coisas.
 Como diria A. Tchekov, "as obras de arte dividem-se em duas categorias; as de que gosto, e as de que não gosto", porque cada um na sua individualidade apreende a beleza a partir da sua própria singularidade, com sensibilidade diferenciada, com um olhar único, porque a beleza reside sempre nos olhos de quem a vê.
 Certo tipo de arte regressa de forma consciente ou inconsciente, a uma ingenuidade primitiva, a uma pureza de forma despojada de complexidade que a torna atractiva ao olhar numa beleza feita de simplicidade.
 Há quem defenda que a racionalidade é que nos torna humanos, eu defendo que a arte completa a ideia do que é humano, já que todo o acto criativo emerge de um pensamento e sentimento (o canto da sensibilidade) que se materializa. O resultado dessa obra , deve geralmente ser bebido devagar, e poderá funcionar como abertura e motivação, ou poderá, o que não é pouco, deslumbrar-nos em segundos. A arte não deve ser massificada, tal como não deve ter carácter particular mas universal. Não existe pior erro que tentar adequar a arte ao gosto geral, contudo existem objectos artísticos entendíveis pela maioria devido a uma linguagem de fácil percepção, como se toda a desordem tivesse sucumbido à ordem e à harmonia.
 Arte consiste também em retirar do feio a beleza, possibilitando a existência de uma estética do belo ou do horror; uma estética do encantamento ou da dor, como denúncia ou tentativa de catarse, porque a verdadeira arte não copia a aparência das coisas, mas a sua essência; o inconfundível.
A arte pode ser séria e sorumbática, mas também pode ser alegre e divertida.




 Desejemos que a arte seja uma reconfortante negação da rotina e do aborrecimento dos dias.
 A minha cidade não é propriamente efervescente em termos culturais, poderia dizer que entra até num estado de semi-letargia durante o Inverno, mas de vez em quando lá vai acontecendo alguma coisa que nos mantém acordados.
 Para além de um Centro Cultural com exposições diversas e espetáculos de teatro ou música, existe um Grupo Cultural, Um Grupo de Jazz, uma Academia de Música, um Grupo de Teatro Experimental, um Cinema, uma Biblioteca bem equipada, com ciclos de cinema e encontros de poesia. Foi também criado há vários anos um Laboratório de Actividades Criativas no edifício da antiga Cadeia, que para além de artistas locais nas áreas de escultura, pintura, arquitectura, cinema, musica, museologia e cerâmica, e organizando oficinas de Dança, Pintura ou Escrita Criativa, recebe também artistas visitantes. Em 2011 foi lançada 1ª edição de ARTURb IN MY WALL com o intuito de valorizar espaços públicos abandonados e geralmente degradados, envolvendo a participação de artistas nacionais e estrangeiros de Arte de Rua.



 Lagos é também uma cidade muito descontraída e receptiva a vários espetáculos de rua, ao que não é alheio o facto de ser uma cidade turística.
 Como escreveu um dia M. Quintana, "A gente deve sair à rua como quem foge de casa". E diria eu, que a arte foge do mundo para que a encontremos logo ali à nossa frente. Fui surpreendida esta semana, por esta singela galeria ao ar livre de rústicas figuras, junto às muralhas da cidade, muito perto da minha casa.
Causaram-me confortável sorriso de espanto e enriqueceram o meu dia. Fizeram parar o mundo por um momento. Surgiram como que do nada para me surpreender.







 Para rematar escolhi um vídeo com peças de João Cutileiro, escultor que informa a pedra bruta.  Um apaixonado pelo mármore e pelas formas femininas. Cutileiro viveu em Lagos entre 1970 e 1985. É dele a controversa estátua de D. Sebastião, no centro da cidade.




*ARTURb -arte urbana de artistas unidos em residência

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Lagos






Antigamente, a água chegava até às traseiras dos Paços do Concelho, e até ao paredão da Rua da Barroca. Só na década de 60 foi inaugurada a Avenida dos Descobrimentos.

Apresento-vos hoje a cidade onde vivo. Costuma dizer-se que um algarvio é um alentejano sem travões; acho que é isso que sou. Deve ser do vento que sopra por estas bandas...
 Fundada pelos Cónios como Lacóbriga, 2000 anos a.c. Desejada, várias vezes destruída e reconstruída, ocupada por cartagineses (já em 305 a.c daqui saíam "sob supervisão cartaginesa, atum e sardinha em salmoura para os portos do Mediterrâneo"), romanos, e conquistada pelos árabes aos visigodos por volta do ano 702, foi chamada de Zawiya durante a ocupação moura. Depois de conquistas e reconquistas, foi definitivamente reconquistada pelos cristãos em meados do séc.XIII, vindo a tornar-se vila no século seguinte, tendo tido papel importante na era dos Descobrimentos.Terra de Soeiro da Costa e de Gil Eanes, por aqui passou o Infante D. Henrique tomando como empresa o início das Descobertas no começo do séc.XV. Seria elevada a cidade em 1578, por D. Sebastião, estatuto que perderia após o terramoto de 1755 que matou  mais de 200 pessoas e arrasou os seus melhores edifícios, tendo sido invadida por ondas de onze metros. (Fonte: Lagos, Evolução Urbana e Património, Rui M. Paula)
 Cidade mais ocidental do Barlavento, com uma população de cerca de 23 000 habitantes e grande ligação ao mar. A pesca teve sempre importância fundamental, tal como a indústria conserveira. Produziu também muito figo e amêndoa, mas grande parte da sua actividade económica está hoje reduzida ao turismo, aos serviços, e a algum comércio. Uma cidade cheia de história que não merecia estar votada a ser praticamente uma aldeia durante o Inverno, tendo de viver exageradamente em função do turismo. Com saborosa gastronomia e praias de variadas dimensões e recortes, é um local que se deve visitar pelo menos uma vez na vida.
 Como monumentos de interesse histórico salientaria a Igreja de S. Sebastião, a Igreja de Sto. António, junto ao Museu Municipal, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Sta. Maria, o Mosteiro de S. Francisco, a Ermida de S. João, a Ermida do Pulgão ou de Nossa Senhora dos Aflitos, o Oratório de S. Gonçalo,(padroeiro da cidade), o Forte Ponta da Bandeira ou de Nossa Senhora da Penha de França, o Forte da Meia-Praia, a ponte D. Maria (romana), a Muralha com os seus baluartes, o Mercado de Escravos, o Armazém Regimental, a Casa da Dízima (Vedoria), a Messe Militar, o antigo quartel, o Trem de Cavalaria (actualmente "Aplauso", casa de strip-tease)....
 Devo dizer que acho que em certos aspectos, a cidade mudou a sua face, nem sempre para melhor. Foi gasto muito dinheiro na requalificação de zonas que nem disso precisavam, enquanto há zonas da cidade que são sempre esquecidas; visões de faraós dos tempos modernos...
 Realço de qualquer forma a Biblioteca Municipal, o Centro Cultural, o Auditório no Parque Dr. Júdice Cabral, ornamentado com alguns bancos em alvenaria com azulejos, o LAC (Laboratório de Artes Criativas, como aproveitamento da antiga cadeia), o Centro de Ciência Viva, e a reabilitação do antigo Mercado Municipal, datado de 1924.














 Escolhi 2 videos porque, embora o primeiro se intitule "Grutas em Lagos", apenas mostra o trajecto para lá chegar. O segundo  vídeo já mostra um pouco as grutas.










"Lagos que digo como passado agora
Como Verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido" 

Sophia de Mello Breyner