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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Herberto Hélder

"Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti que vem o fogo."
O Amor em Visita (um poema do outro mundo! Simplesmente maravilhoso)


 Herberto Hélder de Oliveira nasceu no Funchal em 1930, e faleceu em Cascais a 23 de Março de 2015. Foi jornalista , bibliotecário e apresentador de programas de rádio.
 Com verdadeira aversão ao mundo mediático sempre recusou prémios e entrevistas. Sobre ele foi feito o documentário possível : "Meu Deus faz com que eu seja sempre um poeta obscuro", bem demonstrativo deste desejo de afastamento das luzes da ribalta, ao recusar ser entrevistado. Tal como recusou prémios, entre os quais, o Prémio Pessoa.
 Embora influenciado em certa altura pelo surrealismo, a sua poesia é ao mesmo tempo concreta e experimental, fechada num exclusivo horizonte terreno, luminosamente carregada de metáforas, de força e de ritmo, numa escrita harmoniosamente arrancada ao próprio corpo, do qual sai e regressa em eroticidade.
 Um homem rodeado de mistério. Como afirmaria o pintor Cruzeiro Seixas: "A melhor maneira de ir ao encontro de Herberto Hélder é lê-lo."
  Algumas obras: "O Amor em Visita"(1958), "A Colher na Boca" e "Poemacto"(1961), "Retrato em Movimento"(1967), "O Bebedor Nocturno"(1968), "Vocação Animal"(1971), "Cobra e &"(1977), "O Corpo o Luxo a Obra"(1978), "Photomaton & Vox"(1979), "Flash"(1980), "Poesia Toda"(1981), "A Cabeça entre as Mãos"(1982), "Última Ciência"(1988), "Do Mundo"(1984), "A Faca não corta o Fogo"(2008), "Ofício Cantante"(2009), "Servidões"(2013).
 Escreveu também "Os Passos em Volta"(1963) e "A Apresentação do Rosto"(1968), obras de ficção, a última das quais um romance com alguns aspectos autobiográficos, apreendido pela PIDE, e rejeitado mais tarde pelo autor.



 SOBRE UM POEMA

                       Um poema cresce inseguramente
                       na confusão da carne,
                       sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
                       talvez como sangue
                       ou sombra de sangue pelos canais do ser.

                       Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
                       ou os bagos de uva de onde nascem
                       as raízes minúsculas do sol.
                       Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
                       do nosso amor,
                       os rios, a grande paz exterior das coisas,
                       as folhas dormindo o silêncio,
                       as sementes à beira do vento,
                       - a hora teatral da posse.
                       E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

                       E já nenhum poder destrói o poema.
                       Insustentável, único,
                       invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
                       a miséria dos minutos,
                       a força sustida das coisas,
                       a redonda e livre harmonia do mundo.

                        - Em baixo o instrumento perplexo ignora
                        a espinha do mistério.
                        - E o poema faz-se contra o tempo e  a carne.
                                                                               
                                                                              in Poesia Toda 



Escolhi para ilustrar este poema ao Poema, uma canção de José Luís Tinoco, de 1976, na voz de Carlos do Carmo. De um tempo em que as canções portuguesas eram construídas a partir de grandes poemas. "No Teu Poema"



Sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria.

                      in  A Faca não Corta o Fogo




sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Silêncio


SILÊNCIO

Foram silêncios longos, pausados,
Foram  alegrias, vãs quimeras...
Foram tristezas, passos cansados,
Foste tudo e tudo o que não eras.







Voar

VOAR

Quando vieres poderei desfolhar todas as rosas do jardim; 
até num gesto, sem que te rias de mim
destronar todas as princesas, pôr flores em todas as mesas.

Cobrirei no silêncio, o teu corpo de beijos

     e a minha cama de desejos.

     E quando o sol abrir de repente o teu sorriso

     dir-te-ei sem reservas com toda a força 

     que é preciso

     que os deuses morreram

     e só nos temos um ao outro.
     Depositarei no Olimpo todos os segredos contidos, 
     todas as mágoas nos tempos idos.
     Liberta de promessas, ilusões e receios
     fundirei nos céus todos os astros,
     ficarei na escuridão do quarto a escutar a tua voz.
     O vento soprará para nós e toda a cidade
     renascerá das cinzas; Fénix renascida 
     das noites do passado...
     Depois de te ter amado assim,
     porei dentro de ti, em mim teus olhos doces
     como se fosses
     a esperança e alegria da manhã.
     Sã miragem de sonho concretizado
     realizarei em próxima viagem, os teus cabelos
     a crescer sobre os meus dedos.
     Sem medos,
     como quem espera a madrugada,
     não pedirei mais nada.
     Decidirei em cada regresso 
     o renascer da bruma na orla da praia
     e pintarei para que não saia
     nunca mais das minhas margens o sonho das viagens
     e este rio que me percorre desde sempre.
     No presente ficarei a sós contigo.
     Em cada abrigo , perto das grutas
     nascerão de corpos cansados, todas as lutas.
     Estarei de braços abertos e fecharei em laços
     os teus braços, e ao ouvir os teus passos pelo chão
     estenderei sem limite a minha mão...
     Estarei à tua vinda, sempre, ainda,
     ave na primavera dos países.
     Voando....