"Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti que vem o fogo."
O Amor em Visita (um poema do outro mundo! Simplesmente maravilhoso)
Herberto Hélder de Oliveira nasceu no Funchal em 1930, e faleceu em Cascais a 23 de Março de 2015. Foi jornalista , bibliotecário e apresentador de programas de rádio.
Com verdadeira aversão ao mundo mediático sempre recusou prémios e entrevistas. Sobre ele foi feito o documentário possível : "Meu Deus faz com que eu seja sempre um poeta obscuro", bem demonstrativo deste desejo de afastamento das luzes da ribalta, ao recusar ser entrevistado. Tal como recusou prémios, entre os quais, o Prémio Pessoa.
Embora influenciado em certa altura pelo surrealismo, a sua poesia é ao mesmo tempo concreta e experimental, fechada num exclusivo horizonte terreno, luminosamente carregada de metáforas, de força e de ritmo, numa escrita harmoniosamente arrancada ao próprio corpo, do qual sai e regressa em eroticidade.
Um homem rodeado de mistério. Como afirmaria o pintor Cruzeiro Seixas: "A melhor maneira de ir ao encontro de Herberto Hélder é lê-lo."
Algumas obras: "O Amor em Visita"(1958), "A Colher na Boca" e "Poemacto"(1961), "Retrato em Movimento"(1967), "O Bebedor Nocturno"(1968), "Vocação Animal"(1971), "Cobra e &"(1977), "O Corpo o Luxo a Obra"(1978), "Photomaton & Vox"(1979), "Flash"(1980), "Poesia Toda"(1981), "A Cabeça entre as Mãos"(1982), "Última Ciência"(1988), "Do Mundo"(1984), "A Faca não corta o Fogo"(2008), "Ofício Cantante"(2009), "Servidões"(2013).
Escreveu também "Os Passos em Volta"(1963) e "A Apresentação do Rosto"(1968), obras de ficção, a última das quais um romance com alguns aspectos autobiográficos, apreendido pela PIDE, e rejeitado mais tarde pelo autor.
SOBRE UM POEMA
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
in Poesia Toda
Escolhi para ilustrar este poema ao Poema, uma canção de José Luís Tinoco, de 1976, na voz de Carlos do Carmo. De um tempo em que as canções portuguesas eram construídas a partir de grandes poemas. "No Teu Poema"
Sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria.
in A Faca não Corta o Fogo

