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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Réquiem a um poeta



                              

Um homem enorme morreu hoje.
Tocam os sinos do velho campanário.
Um homem que nasceu, mas não viveu
neste vil mundo de autêntico cenário.
A cidade veste-se solenemente de luto
acompanhando quem não se despediu,
 águas passam no antigo, alto aqueduto
nesta tarde escura e fria que adormece
em breve sono de cinzas, vazio absoluto;
toda enroscada já em desalento e prece.

Divagava sobre a beleza da Poesia,
sobre pequenas proezas masculinas,
em sintonia de realidade e alegoria.
Um vento repentino invade a serra,
 vida incerta traveste-se pelas esquinas
acorda a solidão que decide aparecer
 como soluço abafado saído da terra.
Um homem que abandonou o mundo
sem recado de intenção e sem aviso.
Esquecendo um suspiro moribundo;
aparentando ter partido de improviso.

Só dois amarelos cravos de defunto,
coisa barata, aroma rude e agreste,
lançados agora sobre o caixão, junto
da sombra acolhedora do cipreste.
Nem petúnias, nem vibrantes rosas
nem sagrada benção do azul celeste.
Nem finos versos, delicadas prosas.

Quem teria sido este homem...?
Seria um alegre velho, triste jovem?
Ou seria somente delirante poeta...
Altivo, belo príncipe, bravo guerreiro,
Vagabundo solitário, simples esteta.
De olhar brilhantemente aventureiro,
um peito profundo a rebentar de amor,
 doce encantador de musas, baladeiro,
  perfeito cavalheiro, imperfeito malfeitor?

Em mortalha, o seu corpo é já passado.
Um silêncio cúmplice abraça as árvores,
afaga de mansinho as almas deste lado
e ao longe sonora trovoada se anuncia.
O poeta dilui-se para sempre na paisagem.
O ar boceja na penumbra a morte do dia
enquanto uma luz se esconde na folhagem.



Ilustrar este poema com o Requiem de Mozart, Verdi, Fauré, Brahms, ou Domingos Bomtempo, seria um exagero, por serem composições longas. Por isso escolhi uma peça de um dos meus compositores preferidos; HeitorVilla-Lobos, O Canto do Cisne Negro.