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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Feira da Ladra



Fotos de Nancy Wilde




                              De nome não tão nobre e belo
                              como El Rastro ou Portobello,
                              é local de compra e venda
                              não muito longe do castelo.
                              Expõe imagens de restos da alma
                              tantas vezes esquecida em fugazes intenções.
                              Ora desfeita em popular mercado,
                              ora em sofisticados, pachorrentos leilões,
                              cortada às fatias, bocado a bocado,
                              exposta em hasta pública
                              quando tudo perdeu o significado.

                              Regateia-se o preço do desnecessário,
                              e tudo desaparece depressa
                              da banca e do imaginário;
                              o quadro pintado pelo tio,
                              o serviço de chá Vista Alegre da avó
                              esquecido durante anos
                              na indiferença do sotão, coberto de pó.
                              Na Feira da Ladra, os ladrões
                              estão agora dentro de nós
                              solitários numa trincheira de cifrões.

                              Livros, roupa, realejos e calçado,
                              moedas, selos e violas,
                              ferramentas, estatuetas,
                              breves discussões e caixas de esmolas.
                              Tudo o que a imaginação desejar.
                              É só olhar, fazer o lance
                              e comprar.

                              Encontro com o exclusivo e o inesperado;
                              estanhos, pratas, uma tiara...
                              À terça e ao sábado
                              no Campo de Santa Clara
                              há panos e restos de vida
                              espalhados pelo chão.
                              Móveis, ferro-velho, falcatruas,
                              telas, um sôfrego desejo em cada mão
                              e um intenso movimento pelas ruas.





Inicialmente cantada por Carlos do Carmo, A Nova Feira da Ladra, um poema de Ary dos Santos, aqui numa versão refrescante de Sara Tavares

                      
              

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Inviável Arquitectura








                                          Desenhas linhas rectas e elipses,
                                          marcas projectos ao sabor do tempo.
                                          Imagino em ti longos eclipses,
                                          guardo o sol em mim por um momento.

                                          Construo em ti a bruma, o amanhecer
                                           na eterna dimensão do teu olhar;
                                           geometricamente traço esferas, ao ver
                                           rabiscos nos teus olhos a dançar.

                                           Tectos feitos de céu ao entardecer
                                           Vida a criar em mim espaços possíveis
                                           Abóbadas de luz ao anoitecer...

                                            Coloridos vitrais não vi nascer,
                                            pilares assentam em águas invisíveis
                                            e não cabem nas casas do meu ser.



"The Fountainhead" (Vontade Indómita), filme de King Vidor baseado no livro homónimo de Ayn Rand, realizado em 1949, retrata a história de um arquitecto, Howard Roark com uma visão muito peculiar sobre a vida e sobre a Arquitectura. Esta não é encarada como forma de suprir as necessidades colectivas, mas as próprias necessidades e desejos do arquitecto, defendendo que o homem deve ser livre e fazer apenas aquilo que deseja. Um "Objectivismo" sentido como crença e centrado apenas no individualismo.
Um filme com Gary Cooper e Patricia Neal. O filme indicado para ilustrar o meu poema.



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Vergílio Ferreira



"Só há humilhação se se aceita a escala de valores que os outros nos impõem."


 Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia 1916-Lisboa 1996), professor e escritor, distinguiu-se no género de romance, ensaio e diário, tendo sido galardoado com o Prémio Camões em 1992. São tantas as suas obras que salientarei apenas: "O Caminho fica Longe"(1943), "A Face Sangrenta"(1953), "Aparição"(1959), "Cântico Final"(1960), "Apelo da Noite"(1963), "Alegria Breve"(1965), "Apenas Homens"(1970), "Signo Sinal"(1979), "Para Sempre"(1983), "Até ao Fim"(1987), "Em Nome da Terra"(1990), "Na tua Face"(1993)......Ler mais
 A Universidade de Évora instituiu em 1997 o Prémio Vergílio Ferreira como homenagem ao escritor e ensaísta, galardoando assim outros autores de Língua Portuguesa.
 Inserido na corrente neo-realista, a sua escrita foi aos poucos sendo influenciada pelo Existencialismo, pautando as suas narrativas pela importância do indivíduo como actor do seu destino, no qual a memória e a consciência adquirem valor próprio.
 Um esteta da palavra que considerava que a ligação do homem com o mundo era feita de emoção, e como tal precisaria de "um esclarecimento e superior objectivação" que só a a arte poderia tornar possível.
 Apaixonado pela Serra da Estrela onde como num regresso às origens,seria enterrado, decidi  por isso evocar "Manhã Submersa", romance escrito em 1954, drama de cunho autobiográfico no qual o autor relata experiências pessoais dolorosas, partindo da personagem António Borralho para a abordagem da pobreza e desigualdades sociais, num ambiente de repressão educativa.
 Coagido a frequentar o Seminário do Fundão, por uma tutora  beata que o oprime através da religião,para uma vocação que não sente, António vivenciará os caprichos dos padres e as suas obsessões, a solidão e a angústia, suavizadas apenas pelo espírito de camaradagem entre os rapazes.Adopta, por fim, uma posição de ruptura através de um acto impensado que lhe indicará o caminho de volta a uma realidade crua mas liberta. 
Eis alguns excertos.


MANHÃ SUBMERSA

 "...Marcada a cama de cada um, voltamos à sala de espera para recolher a bagagem. Tivemos de ceder a primazia aos mais velhos(...)Sei que depois ainda fomos à capela e nos despimos, com um cerimonial esquisito, antes de dormirmos. Mas nessa altura, pesado de sofrimento, um grande apelo final de silêncio e desistência subia para mim desde as raízes da noite. E fechei os olhos.(...)
 E uma saudade densa caiu-me, como um peso na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei na saca de roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto....(...)O peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido.
Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.
 (...)Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas a um apelo de abandono, a um esquecimento "real", a bruma da distância levanta-se -me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente....(...)
 Inesperadamente, por minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...."


Este romance foi adaptado ao cinema por Lauro António. Uma longa-metragem rodada em 1978-1979, estreada em 1980. Com Eunice Muñoz, o próprio V. Ferreira como Reitor do Seminário, Canto e Castro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Camacho Costa, Joaquim M. Dias entre outros.









domingo, 4 de novembro de 2012

Florbela Espanca

                   
                                                     "Tens sido vida fora o meu desejo
                                                      E agora, que te falo, que te vejo,
                                                      Não sei se te encontrei...se te perdi.."


 Uma vida imensa  de apenas 36 anos (Vila Viçosa 1894-Matosinhos 1930) abreviada devido a uma alma perturbada e sofredora, (experienciando ora estados de depressão, ora de exaltação), que conseguiu transformar o sofrimento  em poesia pincelada de erotismo, feminilidade caprichosa e panteísmo.
 Florbela Espanca foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino secundário. Inscreveu-se depois no curso de Direito da Universidade de Lisboa, licenciatura que não terminaria.
 De destacar na sua obra o "Livro de Mágoas"(1919), o "Livro de Soror Saudade"(1923),  "Charneca em Flor" e "Reliquiae"( ambos editados postumamente em 1931).
 Todos os seus sonetos foram reunidos em "Sonetos Completos",obra publicada em 1934, e sucessivamente reeditada. Com disse José Régio, existem "Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido..."
 Afectada por uma neurose, não resistiu à terceira tentativa de suicídio. Faleceu no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.



                                                            ALMA PERDIDA

                                                Toda esta noite o rouxinol chorou,
                                                Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
                                                Alma de rouxinol, alma de gente,
                                                Tu és talvez, alguém que se finou!

                                                Tu és, talvez, um sonho que passou,
                                                Que se fundiu na Dor, suavemente...
                                                Talvez sejas a alma, a alma doente
                                                Dalguém que quis amar e nunca amou!

                                                Toda a noite choraste...e eu chorei
                                                Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
                                                Que ninguém é mais triste do que nós!

                                                Contaste tanta coisa à noite calma,
                                                Que eu pensei que tu eras a minh'alma
                                                Que chorasse perdida em tua voz!...
                                                                             
                                                                    in  "Livro de Mágoas" ("Sonetos Completos")


Florbela Espanca tem sido cantada por artistas tão diferentes como Luísa Basto, Tereza Silva Carvalho, Luís Represas, Mariza, ou Fagner...Como tal, tendo dificuldade em escolher uma interpretação, prefiro chamar a atenção para o filme "Florbela" realizado por Vicente Alves do Ó, protagonizado por Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo.





sexta-feira, 26 de outubro de 2012


DESCONCERTO

O amor é um barco distante no mar,
ou este ondular constante do meu coração
nas praias do teu olhar?
Ou é apenas o saltitar das minhas mãos, tão persistente
na estrada da imaginação descrita pelo sol poente?
Será este céu que se sente tão fundo na alma...
É lava de vulcão
ou apenas a estranha calma
duma louca e desconcertada oração?
Será flor de jardim,
ou apenas este pomar a brotar desajeitado
dentro e fora de mim?


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fernando Pessoa

                                                              

Um dos maiores poetas de sempre ( Lisboa 1988- ibid.1935). Funda em 1914, com outros intelectuais, a revista "Orfeu", e, em 1924 inicia e dirige a revista " Atena" de curta duração. Viveu uma existência apagada, num círculo restrito e fechado ao amor, deixando inédita quase a totalidade da sua obra literária. Concebeu ao todo 17 heterónimos, dos quais se destacam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Um excerto de " Chuva Oblíqua", um poema simplesmente grandioso.


CHUVA OBLÍQUA
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas
Uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é porto transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme
Que lá estivesse desdobrada, 
Esta paisagem toda, renque de árvores,
estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...