quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fernando Pessoa

                                                              

Um dos maiores poetas de sempre ( Lisboa 1988- ibid.1935). Funda em 1914, com outros intelectuais, a revista "Orfeu", e, em 1924 inicia e dirige a revista " Atena" de curta duração. Viveu uma existência apagada, num círculo restrito e fechado ao amor, deixando inédita quase a totalidade da sua obra literária. Concebeu ao todo 17 heterónimos, dos quais se destacam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Um excerto de " Chuva Oblíqua", um poema simplesmente grandioso.


CHUVA OBLÍQUA
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas
Uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é porto transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme
Que lá estivesse desdobrada, 
Esta paisagem toda, renque de árvores,
estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...





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