Corsino Fortes nasceu no Mindelo (Ilha de S. Vicente), Cabo Verde, em 1933. Poeta e político cabo-verdiano, fez parte de vários governos do seu país e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal. De destacar a sua obra "Pão e Fonema" de 1974, e "Árvore e Tambor" de 1986.
HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE
Canto IIQuando a África incha seus músculos de sangue e secura
Não há Sahel que não queime
No coração da noite
A sua salina de solidão
Não há boca que não chova a sua gota de corpo e alma
Nem gota
De água doce que não seja
Um espaço! para amar e habitar
Por vezes! O relâmpago
Escreve coisas vivas na boca do arquipélago
E as ilhas soerguem-se
pelo arquipélago das patas
E vão
De cratera em cratera
Erguer
Na boca das sementes
A força contida dos vulcões
Homem! deus é grande entre duas ilhas
Se baleias emergem da gota do teu rosto
Na ilha! A cicatriz de deus é grande
Mas a ferida do homem é maior
Canção! no arbusto da viola
Que chove
A lírica de deus é grande
Mas a música do homem é maior
Mulher! quando o céu da tua boca
Arrasta o corpo da terra
Até à goela da água longínqua
A febre conta no arco-íris
Da carne que sangra
A montanha roída dos dentes...
E da cicatriz da mão
Brotam raízes
Que vicejam a memória dos séculos.
in "Árvore e Tambor"
Uma pequena homenagem a Cesária Évora, também ela nascida no Mindelo (1941-2011)

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