Uma vida imensa de apenas 36 anos (Vila Viçosa 1894-Matosinhos 1930) abreviada devido a uma alma perturbada e sofredora, (experienciando ora estados de depressão, ora de exaltação), que conseguiu transformar o sofrimento em poesia pincelada de erotismo, feminilidade caprichosa e panteísmo.
Florbela Espanca foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino secundário. Inscreveu-se depois no curso de Direito da Universidade de Lisboa, licenciatura que não terminaria.
De destacar na sua obra o "Livro de Mágoas"(1919), o "Livro de Soror Saudade"(1923), "CharnecaemFlor" e "Reliquiae"( ambos editados postumamente em 1931).
Todos os seus sonetos foram reunidos em "Sonetos Completos",obra publicada em 1934, e sucessivamente reeditada. Com disse José Régio, existem "Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido..."
Afectada por uma neurose, não resistiu à terceira tentativa de suicídio. Faleceu no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.
ALMA PERDIDA
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste...e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
in "Livro de Mágoas" ("Sonetos Completos")
Florbela Espanca tem sido cantada por artistas tão diferentes como Luísa Basto, Tereza Silva Carvalho, Luís Represas, Mariza, ou Fagner...Como tal, tendo dificuldade em escolher uma interpretação, prefiro chamar a atenção para o filme "Florbela" realizado por Vicente Alves do Ó, protagonizado por Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
PROMESSA Um dia soltarei as borboletas que trago na barriga
E no ar lançarei as vagas.
Contigo ficarei para sempre comigo a sós, e irei
Sempre com uma moldura na voz
Rodear-te de atenção e loucura. Em ti porei
Para sempre, como no presente, a minha ternura.
Nus, teus braços barcos cordas, esperarei
Em cada vale o deslizar de todas as neves
E se suspendam de ti as folhas, alegrias breves.
A mar-te-ei como às flores, para sempre todas as tuas cores.
Um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.( Póvoa de Atalaia 1923-Porto 2005).
Viveu em Lisboa, Coimbra, onde acabou os estudos, e no Porto onde viveu muitos anos e viria a falecer. Sempre distanciado da vida mundana, recebeu o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários(1986), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus(1988), o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(1989) e o Prémio Camões(2001).
De destaque na sua vasta obra : "As Mãos e os Frutos", "Os Amantes sem Dinheiro", " As Palavras Interditas", "Escrita da Terra", "Matéria Solar", "Rente ao Dizer", "Ofício de Paciência", "O Sal da Língua", "Os Lugares do Lume"....
Foi-me difícil escolher um poema, são todos de um lirismo impressionante. Escolhi este.