sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Celebridades de Portugal em 2013


                                                                    Nadir Afonso


 Ficamos esta semana a saber quais os assuntos mais pesquisados em Portugal através do Google durante este ano que está a chegar ao fim. O grupo musical One Direction, a Casa dos Segredos, a vila da Ericeira, o S.L.e Benfica, o Google Maps e o bolo de chocolate são alguns dos termos que lideram as várias listas de pesquisa, num conjunto em que Cristina Ferreira, apresentadora de televisão, a surfista brasileira Maya Gabeira, que infelizmente não teve sucesso ao tentar surfar uma onda gigante na Nazaré como a que Carlos Bule surfou, o tema Harlem Shake e as eleições autárquicas assumem protagonismo.
 As mortes de Georges Moustaki, Ramos Rosa, Peter O'Toole, Bigas Luna, José Luis Sampedro, Bana, Urbano Tavares Rodrigues, Nadir Afonso, Lou Reed, ou esse homem extraordinário que foi Nelson Mandela, deixaram-me um pouco mais a pesquisá-los quase como uma homenagem ao relembrá-los. Deparar-me com este top de celebridades teve uma certa piada. No fundo, nada de inesperado por aí além, mas surpreendeu-me que Érica Fontes, actriz porno de 22 anos de idade, da qual nunca tinha ouvido falar, suplantasse Cristiano Ronaldo como figura mais procurada na internet, ou até Tony Carreira, cantor tão popular. Achei delirante a tentativa de justificação de Érica Fontes em relação à escolha da sua profissão e a sua benevolente intenção de "abrir a mentalidade dos portugueses". Apreciei os golos de C. Ronaldo, que quase parecem levar o narrador Nuno Matos à loucura, e quanto a Tony Carreira, nada a dizer já que não é um cantor que faça parte da minha lista de preferências. 
   
                                        TOP DAS CELEBRIDADES

                                        1. ÉRICA FONTES 
                                        2. CRISTIANO RONALDO
                                        3. TONY CARREIRA


Poderia ter escolhido Lou Reed e "A Perfect Day", mas num ano em que milhares de portugueses voltaram a ter de emigrar, optei por Georges Moustaki. Le Métèque, uma letra lindíssima.




UM FELIZ 2014 !
Obrigada a todos pelo carinho e atenção que me dedicaram ao longo deste ano.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Natal


"Deixem que se espalhem as redes 
da respiração, desde o caos materno ao sonho da criança
exacerbada,
                                     única"  (Herberto Hélder)


 Nunca gostei muito do Natal, talvez porque nunca o tivesse celebrado na infância e na adolescência. Uma época de consumismo e tantas vezes de uma alegria mais aparente que real. Uma quadra festiva de oratória, um tempo de intervalo, de preparação para a resiliência necessária para enfrentar o novo ano que já se anuncia. Um tempo de tréguas, de inspiração de confiança; como que uma desejada revitalização.
 Compram-se presentes porque se têm de comprar, medita-se pouco ou nada sobre mais um ano que estrebucha moribundo, as pessoas tornam-se boas por obra e graça do Espírito Santo, em recolhimento feito de reconciliação, paz e confraternização. De repente somos todos irmãos. Pensa-se ao de leve nos desvalidos da sorte, interrompem-se guerras para continuá-las com mais vigor no dia seguinte. Mal comparado, um pouco como o Dia Europeu sem carros.
 Música angelical na tv e na rádio, coros a jorrar doçura e elevação celestial. Passa-se a mão pela cabeça das crianças, perdoam-se alguns inimigos, incita-se à esperança, beijam-se amigos e conhecidos num corre-corre entre lojas de montras convidativas, ornamentadas de entusiasmantes vermelhos, dourados e prateados, de luzes que brilham exageradamente sobre coisas que não precisamos. Abrem-se antecipadamente quermesses onde se vendem lavores e jarras para ajudar os pobrezinhos.
 Compreendo o fascínio das crianças, mas não o dos adultos. Sei que existem pessoas generosas o ano inteiro, e entendo que qualquer pretexto seja válido para reunir a família para uns "comes e bebes", sobretudo com o frio que faz lá fora, mas faz-me um pouco de confusão a partilha e comunhão com dias e horas marcados. Mas é algo de muito pessoal; nada contra a alegria e a festa do convívio, os presépios já sem musgo, a fé no calor da lareira, o cheiro a resina e a lenha. O bacalhau, a canja, o borrego, o leitão, as azevias de feijão ou batata doce, a cabidela, os frutos secos, as rabanadas, os sonhos...
 A questão é que não percebo o que pode haver para celebrar nesta altura de tanta crise. Muitas cantinas escolares estarão abertas para alimentar alunos carenciados e em alguns casos a própria família, e muita gente terá consoada devido à caridade alheia.
 O relógio do tempo que me atravessa faz com que o meu Natal viva, por um lado de recordações dos que partiram cedo demais e dos que adoro e estão geograficamente longe,  por outro lado, do regozijo pelo verdadeiro natal que aconteceu em mim há anos. Como um vulcão que tivesse soluçado e aberto crateras de luz na terra, e com ele eclodissem apenas sorrisos e a invenção de gestos de ternura antes desconhecidos, que durarão para sempre, em todas as horas da minha noite e do meu dia. Numa adoração da duração dos afagos quotidianos. Por isso o meu Natal é  também lembrança viva de histórias infantis contadas ao lado de um berço. Sem preces, ou fictícia alegria. Não é viver de lembranças, mas sabê-las como parte integrante da vida. 
 As borboletas duram pouco, mas continuaremos a amar todos os que já amamos. E quando da janela se observa a rua a movimentar-se em excitação de cânticos e estrelas luminosas, sei que a única luz está ou não dentro de nós. Botas secas ou molhadas, pés quentes ou gelados continuarão o destino do seu próprio milagre; a vida. A chuva e o sol continuarão a cair sobre as vides geladas e as figueiras carcomidas, sobre as avenidas iluminadas e os becos escuros de bebedeira e solidão. Não existirão mudanças depois de um Natal de justiça roubada e solidariedade ocasional. Desisti há muito de tentar decifrar a ortografia do mundo. Quero apenas viver e tentar tornar as coisas simples. Por isso o Natal é para mim a celebração do nascimento da minha filha. Existe entre nós um cordão umbilical invisível que dura desde um 24 de Dezembro e durará para sempre. Que não aprisiona porque feito de respeito e liberdade.
 Aos quatro anos já sabia ler, e o seu interesse por livros e filmes faz com que seja uma cinéfila sempre em cima do acontecimento, e uma leitora compulsiva. Nunca se perdeu de amores pela escola, porque muitas vezes tinha de corrigir professores, cozinha e escreve muito bem, e tem um talento para a pintura que infelizmente deixou de explorar. Mas a sua grande paixão é a Fotografia e Viagens. Tem um sentido de autonomia e independência ímpares. É criativa. É o meu grande amor.










Para ti, Sara, Amy Winehouse com a canção I saw Mommy Kissing Santa Claus



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Como se...



 O firmamento parava nos meus olhos para te olhar. Como se a Primavera tivesse trazido as cores de todas as flores imperecíveis e os desígnios insondáveis do mundo e arredores. Dizias frases supostamente com sentido, e tomavas no teu o meu corpo como se não existisse a hora seguinte, e o amanhã pudesse ser remoto e adiável.
 Inventei em ti a frescura das manhãs e o mistério do movimento de translação da terra, a ondulação das giestas, os gestos quentes e atlânticos feitos de azul e mar. A certeza ilusória de um trilho em direcção ao sol poente, como anjo de asas cortadas que se tivesse esquecido de descobrir a claridade dos dias, mas se aventurasse na penumbra da noite. 
 Reconheci o teu respirar no meu, sempre que a lua se sentava distraidamente no meu peito quando adormecias e me encostava a ti, e  existia uma leve brisa feita de ternura que despertava em deslumbramento todos os silêncios. Uma brisa feita de oceanos de palavras não ditas, amarrotadas nos bolsos, e da opulência de mãos acesas que davam luz aos corpos e incendiavam a matéria. Pendurei no teu corpo o infinito, como se um momento tivesse em si a semente robusta de um dia claro e abrangente. Como se tudo existisse em ti...
 Suaves gotas de chuva tépida molham o regresso dos dias. Descubro-te ainda em cada arco-íris, como se fosses o sol que me ilumina aonde quer que vá. Como se um brado sereno travasse os movimentos antes incontidos das marés, e todos os rios só encontrassem agora o caminho para o orvalho do meu olhar. Todo o sentimento de ausência pode ser um longuíssimo adágio ou uma sinfonia descontínua de sons e imagens difusas que estremecem no ruído dos dias. Ou tímidos vazios imperiais de desalento. Lá fora a manhã vagarosamente se anuncia. Restos de noite sobem de mão dada com a densa neblina enquanto o meu corpo, mera superfície lavrada, desperta a lembrança do Verão fazendo soprar um bafo quente de tempo irrepetível.
 Continuas a caminhar nos meus passos com a leveza das aves anónimas que há muito voaram para longe, aladas na ventania que deixa para trás árvores decapitadas. Galopo contudo a crista da manhã como se me esquecesse de ser triste, e a tranquilidade da noite tivesse emprestado ao dia uma doce e serena resignação.



Uma animação de Louis Clichy  para a canção "À quoi ça sert l'amour?" com Theo Sarapo e Edith Piaf. 



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A Estante


Livros são ternos e valiosos segredos. Deles não me livro.

  

                               Não existe espaço vazio naquela estante.
                               Grandes, pequenos, frágeis ou resistentes,
                               livros recentes ou de um tempo distante.
                               De folhas já soltas, coladas ou cosidas,
                               cheirando a novo ou há anos amarelecidas.
                               Epopeias e fábulas, antologias de poesia,
                               policiais, dicionários, abundantes tragédias,
                               longos ensaios, dementes farsas, filosofia.
                               Crime e mistério, contos e enciclopédias,
                               crónicas breves, sátiras, romances de amor,
                               psicologia, teatro, relatos de suspense, terror.
                               Alguns dificilmente tragados e digeridos,
                               outros que provaram ser de incrível sabor.
                               Apertados e  fechados, tão aborrecidos,
                               abertos, acariciados, calmamente felizes,
                               infelizes, amuados quando esquecidos;
                               se ignorados como velhas meretrizes...
                               Folhas, estradas, veredas que calcorreei
                               às quais desejo regressar constantemente
                               ou que de vez, para sempre abandonei...
                               Descobertos em recônditos alfarrabistas,
                               em grandes livrarias modernas e centrais,
                               anunciados em raras, atraentes revistas
                               ou dados a conhecer em grandes jornais.
                               Para consciências sonolentas ou despertas,
                               Leituras expectáveis ou tão imprevistas
                               com narrativas explícitas ou encobertas.

                               Como livro à minha cabeceira, tenho
                               um delirante bestiário por mim escrito,
                               e um caderno hilariante onde desenho
                               impressões amorais, pesadelo interdito.
                               Sobre o limiar do meu coração aberto
                               repousa suspenso um livro sem palavras
                               que quero ardentemente que tu abras.
                               Em idioma de loucos artistas e amantes;
                               breviário de orações profanas e terrenas
                               tímidas vogais, consoantes exuberantes
                               e um código rígido das minhas penas.

                                


De Loreena McKennitt, cantora e compositora canadiana, escolhi "Dante's Prayer" do álbum "The Book of Secrets" lançado em 1997.