"Bebo ao lar em pedaços, à minha vida feroz, à solidão dos abraços.
E a ti, num brinde, ergo a voz... Ao lábio que me traiu, aos mortos
que nada vêem, ao mundo estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém." (Último Brinde, 1934)
E a ti, num brinde, ergo a voz... Ao lábio que me traiu, aos mortos
que nada vêem, ao mundo estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém." (Último Brinde, 1934)
Anna Akhmátova, pseudónimo de Anna Gorenko, nasceu em Odessa em 1889 e faleceu em Leningrado em 1966. Considerada um dos mais importantes nomes da poesia acmeísta russa, começou a escrever aos onze anos de idade, embora como descendente da nobreza russa isso não fosse bem aceite pelo pai. Com a separação dos pais consegue continuar os estudos, tendo inclusive frequentado o curso de Direito que abandonaria para estudar Literatura.
Em 1910 casa com o poeta Nicolai Gumilev que a incita a continuar a escrever, tendo começado a publicar pouco tempo depois. Influenciada por Racine e Pushkin, a sua obra tem como temas predominantes o tempo, no qual a memória adquire papel essencial, o destino da mulher sobretudo enquanto mãe, e as vivências numa sociedade repressiva e totalitarista. Composta inicialmente por pequenos poemas líricos, com a revolução bolchevique e posterior governo estalinista, a sua criação poética torna-se cruamente dramática e de uma clareza e precisão dolorosa, primeiramente devido ao fuzilamento em 1921, do já ex-marido e pai do seu único filho Lev, por supostas actividades contra-revolucionárias.
Lev Gumilev seria preso e condenado a trabalhos forçados por conspiração anti-bolchevique em 1938, apenas por ser filho de um poeta já executado, tendo sido libertado em 1956. Entretanto Anna casaria com Nicolai Punin, também preso em 1949 e que acabaria por morrer em 1953 num campo de prisioneiros na Sibéria.
Impedida de publicar entre 1925 e 1952, com um ligeiro interregno durante a Segunda Guerra Mundial para aproveitamento político da sua obra. Apesar de todas as dificuldades nunca considerou fugir do país como alguns dos seus contemporâneos literários. Estaline terá decidido atacá-la indirectamente através dos maridos e filho, e Akhmátova terá até escrito alguns poemas de louvor a Estaline para tentar salvar o filho.
O seu mais longo e poderoso poema, "Requiem" constituído por vários pequenos poemas, foi escrito entre 1935 e 1940, e retrata as atrocidades infligidas ao povo russo durante o estalinismo.
Aqui mostrarei apenas um excerto:
(1939)
Aqui mostrarei apenas um excerto:
V
Há dezassete meses choro
chamando-te de volta para casa.
Já me atirei aos pés do teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
e não consigo mais distinguir, agora,
quem é fera, quem é homem,
e quanto terei de esperar até à tua execução.
Só o que me resta são flores empoeiradas
e o tilintar do turíbulo e pegadas
que levam de lugar nenhum a parte alguma.
E bem nos olhos me olha,
com a ameaça de uma morte próxima,
uma estrela enorme.
(1939)
Depois da morte de Estaline em 1953, a figura de Akhmátova seria aos poucos reabilitada. Em 1963 é escolhida para a Presidência do Sindicato Soviético dos Escritores, e nos anos seguintes é autorizada a deslocar-se a Itália para receber o Prémio Taormina, e a Oxford onde recebe um título honorário. A totalidade da sua obra só viria a ser publicada vinte anos depois da sua morte.
Dos poemas que conheço dela, este é o meu preferido:
HÁ NA INTIMIDADE UM LIMIAR SAGRADO
Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor-
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.
Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.
Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.
(1915)
in Só o Sangue Cheira a Sangue ( trad. de Nina
Guerra e Filipe Guerra)
Como The Anna Akhmatova File, o interessante documentário realizado por Semion Aranovich tem 65 minutos, optei pela voz de Svetlana Loukine com um pouquinho do "Requiem" de Anna Akhmátova.
