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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A Céu Aberto


                                   
               "The Inner Ocean" Christian Schloe



                                                         Todo o vale a leste
                                                          foi ocultado por colinas
                                                          p'lo leve manto que me deste,
                                                          feito de vento e pedras finas.
                                                          Enquanto o espanto me pasmava
                                                          em perfume de alegria
                                                          a aragem despenteava
                                                          no meu rosto a franja do dia.
                                                          Do outeiro a norte
                                                          encomendei primeiro 
                                                          um pouco de sorte...
                                                          Do prado a sul
                                                          o aroma verde do pinheiro.
                                                          Do lago dos meus olhos
                                                          um espelho de luz no monte
                                                          a céu aberto.
                                                          Subitamente
                                                          do vasto horizonte
                                                          todo o sal da beleza
                                                          se fez perto
                                                          num mar de sol
                                                          e azul turqueza.




Sou uma apaixonada pela música do Fausto B. Dias, por isso escolhi hoje, Todo este Céu, cantado pela Né Ladeiras. 
" E qualquer coisa acontece no mais alto dos céus/ qualquer coisa no fundo do meu coração/ mas não sei das trevas nem da luz/ Pois sem ti não há céu nem chão/..."

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Miguel Esteves Cardoso



"Aldrabar não é só enganar. É enganar sem o devido cuidado; sem o mínimo esforço. Enganar é nobre, implica um mínimo de esforço e respeito pela vítima: ser enganado não é sinal de estupidez"
(Revista Nós-Jornal i, 2010)


 Miguel Vicente Esteves Cardoso é um crítico, cronista, jornalista e escritor nascido em Lisboa em 1955, de pai português e mãe inglesa.
 Licenciado em Estudos Políticos e com um pós-doutoramento em Filosofia Política, dividiu a sua vida académica entre Inglaterra e Portugal, carreira que abandonaria em 1988 para fundar com Paulo Portas o jornal "O Independente", semanário de cariz conservador e elitista, em contraposição com a imprensa maioritariamente esquerdista da época. Deixaria a direcção d' "O Independente" para criar a revista "K". Escreveu desde muito jovem, crónicas sobre música para vários jornais e revistas, tendo fundado com Pedro Ayres de Magalhães, Ricardo Camacho e Francisco Sande e Castro, a Fundação Atlântica, primeira editora portuguesa independente que viria a produzir discos para os "Sétima Legião", "Xutos e Pontapés", "Delfins", Anamar, etc. M.E.Cardoso contribuiria também como letrista para nomes como Né Ladeiras ou Manuela Moura Guedes, com a pedrada no charco do "Foram cardos foram prosas".
Também se dedicou à crítica literária e cinematográfica, fez traduções de S. Beckett, foi autor e co-autor de programas de rádio e participou em programas de televisão; como guionista no "Humor de Perdição" de Herman José e na "Noite da Má Língua", saudoso talk-show da SIC.
 Principais obras: "A Causa das Coisas"(1986), "Os Meus Problemas"(1988), "As Minhas Aventuras na República Portuguesa"(1990), "O Amor é Fodido"(1994), "A Vida Inteira"(1995), "O Cemitério de Raparigas"(1996), "Com os Copos"(2007), "Em Portugal Não se Come Mal"(2008), "Como é Linda a Puta da Vida"(2013), etc.
 De pensamento vivo e acutilante, intelectualmente irónico e desconcertante, aprecio sobretudo a veia satírica das suas crónicas. 



NÃO HÁ AMOR COMO O PRIMEIRO

 Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica.
 Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltámos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.

 Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer "Alto-e-pára-o-baile", amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto- preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco -branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

 Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não há outro amor como o amor doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: " Adeus Mariana-desta vez é que me vou mesmo suicidar". Podem ficar (e que remédio têm) com o "savoir-faire" e os "fait-divers" e o "quero com vista para o mar se ainda houver". Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente perde e toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: " Não pensar, não resistir, não duvidar". Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - "e não há milagres em segunda mão". É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor morre-se. Quando se renasce há uma ressaca.

                                                           Miguel E. Cardoso, in "Os Meus Problemas"


 Não vou escolher nem Anamar, nem Manuela Moura Guedes porque os vídeos são pré-históricos e horríveis, embora as letras de M.E. Cardoso sejam boas; prefiro mostrar Né Ladeiras, a cantar "Sinhô", uma composição de Chico César em parceria com Tiago Torres da Silva.