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sexta-feira, 18 de abril de 2014

25 de Abril - 40 Anos Depois



"Nasci aqui ao pé do mar/ duma garganta magoada de cantar/Eu sou a festa inacabada/quase ausente/eu sou a briga/a luta antiga renovada/ainda urgente"
José Fanha



 As celebrações do 25 de Abril de 1974  têm-se resumido nos últimos anos, sob o ponto de vista institucional, a uma série de discursos triviais e sem chama, ao mesmo tempo que as dificuldades da maioria dos portugueses se têm vindo a agravar. Comemora-se o Dia da Liberdade como a morte de um sonho que se tivesse perdido no caminho, arrastando com ele a esperança e ideais como a justiça social e a igualdade de direitos.
 Os militares fizeram algo de raro; um golpe de Estado sem nódoa, abdicando do poder para entregá-lo aos civis através de eleições livres. Suspeito que um povo silenciado durante quase meio século por um regime de medo e opressão, sofra ainda hoje de um mutismo feito consentimento que o impede de abandonar o espírito de rebanho que se transforma em conivência, e elevar-se em indignação quando todos os direitos sociais adquiridos estão a ser postos em causa por sucessivos governos de Vampiros.
 A tão apregoada solidariedade europeia é conversa fiada porque como sabemos, pouco interessará aos outros europeus que o salário mínimo nacional seja de 485 euros. A única vantagem de pertencer à União Europeia parece ser a livre circulação de pessoas e bens no espaço dito comum, e a moeda única. No entanto até neste último aspecto ficamos a perder porque com o dinheiro que se comprava um kg de batatas compra-se agora uma batata. E se há portugueses que auferem reformas de 295 euros, poderemos imaginar o desânimo de certas famílias.
 A Saúde e a Educação foram os sectores que evoluíram drasticamente nestes 40 anos após a revolução, mas mesmo esses têm vindo a estar debaixo de fogo com o encerramento de escolas, Centros de Saúde e valências hospitalares, não esquecendo contudo, que o Ensino nunca serviu verdadeiramente as singularidades e aspirações de cada um, nem visa plenamente a autonomia individual, e a quem tem um sério problema de saúde, os hospitais públicos raramente conseguem dar resposta atempada.
 Ridícula e lamentável foi a polémica entre a sra. Presidente da Assembleia da República ("O problema é deles!", disse a Dra. Conceição Esteves na sua voz esganiçada), e a Associação 25 de Abril sobre a possibilidade de Vasco Lourenço vir a discursar no Parlamento. Não sendo o Regimento da Assembleia para aqui chamado porque de um dia de festa se trata, ou deveria tratar-se, a maioria dos líderes parlamentares decidiram que não estão dispostos a ouvir o pensamento divergente que afectaria a paz podre de tipo "Conversas em Família " do antigamente. A Associação 25 de Abril que pense o quiser, que discurse onde quiser, mas nunca na casa da Democracia, o que constitui  em si mesmo um facto político relevante em relação à liberdade de expressão que estes e outros militares ofereceram ao país. A Associação 25 de Abril não assistirá à sessão solene e fará o seu discurso no Largo do Carmo.
 Gostaria de lembrar nesta altura todos os portugueses que sofreram uma guerra colonial sem sentido, todos os presos políticos, e todos os militares envolvidos na Revolução de 1974, dos quais destaco Salgueiro Maia, embora todos tenham sido fundamentais.



ANTES QUE

                                                    Antes que a fúria bruta nos vença
                                                    e o desalento cedo nos mate 
                                                    a coragem de ir e continuar.
                                                    Antes que a revolta nos convença
                                                    e a descrença em nós desate
                                                    a desistência ou o fundo clamor
                                                    sem consciência ou sem razão.
                                                    Antes que leviana democracia
                                                    se torne séria ditadura disfarçada
                                                    em falas mansas e em queixume,
                                                    acendamos em cada madrugada
                                                    a fogueira em que arderá o lume
                                                    do abafado desespero e a cicatriz
                                                    dos enganos e perpétuo adiamento.
                                                    Acendamos o sonho, a solene raiz
                                                    feita de sol, maré em movimento
                                                    atracada  ao silêncio deste cais.
                                                    Soltemos as amarras do tormento
                                                    para que o Antes não viva nunca mais.




Poderia ter escolhido "Grândola Vila Morena", mas acho que "Redondo Vocábulo", música composta em Abril de 1973 na prisão de Caxias, é uma boa escolha, até por ser uma das suas canções menos conhecidas, e uma das minhas preferidas. Zeca Afonso, sempre, claro. Uma animação de Eurico Coelho.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Salgueiro Maia


O capitão que existiu para cumprir o destino de um povo



"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegamos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!" 
Palavras dirigidas aos 240 homens sob o seu comando, na madrugada de 25 de Abril de 1974, que imediatamente formaram à sua frente


 Fernando José Salgueiro Maia nasceu em Castelo Vide em 1944. Faleceu em Lisboa em 1992, aos 47 anos, precisamente no mês de Abril, vítima de cancro. Depois da revolução , licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas.
 Comandou a coluna de blindados que partiu de Santarém rumo ao Terreiro do Paço,como braço de rio que se espraiasse sem pressa, como se o destino só pudesse ser aquele, tendo conseguido, já ao fim do dia, a rendição de Marcelo Caetano, numa das revoluções mais poéticas da História.
 Imagino a penumbra das longas horas prenhes de decisão, audácia, até improviso, feitas de gestos e sombras na noite, num país de profundezas e superfícies amarradas. Numa ditadura de olhar severo, labirinto de opressão, de desesperados prantos ao anoitecer, de vozes abafadas, de perseguições, de subjugação do outro. De experiências de guerra em terras longínquas que deixaram em jovens um futuro de pesadelos inconfessáveis. Um reino de raiva surda, de medos e marés contidas.
 O erro e a indecisão poderiam ter sido fatais para a claridade do dia, contudo não houve dúvida ou  qualquer tipo de reticência... Não sei se Salgueiro Maia foi prudente, mas se a tarefa que tomou como sua fosse segura, qualquer um a poderia ter executado. Falar é fácil, digo eu, que tenho a mania de governar-me por palavras, mas só na acção, só com atitude, mesmo o muito difícil, o impossível, pode tornar-se realidade.
 Salgueiro Maia faz parte dessa estirpe de homens que faz o que considera correcto, sem desejar para si qualquer tipo de recompensa, tendo rejeitado sempre qualquer cargo de influência militar ou civil. Com um coração suficientemente fundo para nele guardar os anseios do mundo inteiro. Um homem com sede de coisa nenhuma a não ser a liberdade do seu país. Ser grande é entender que, independentemente do valor do acto, não faz sentido qualquer tipo  de sobranceria ou endeusamento, por isso tenho por este homem uma admiração afectuosa. Não se acomodou, lutou por todos, e sem o seu sentido de comando, determinação e coragem, a deposição do regime não teria sido possível.
 "A única solução do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impossibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas - batalhas para os outros, não para ele, que as percebe - há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos" (Agostinho da Silva)
 Creio que tenha passado, nesse dia tão longo, por momentos de absoluta solidão. Pessoas  penduradas em árvores no Largo do Carmo, suspensas de negociações  tensas e infindáveis... culminando com a rendição de Marcelo Caetano, que viria a ser escoltado pelo próprio Salgueiro Maia ao avião com destino ao exílio no Brasil, numa viragem de percurso pacífica.






 A arte e o pensamento livres de vozes oprimidas desabrochariam, num renascimento de uma contra-cultura que sai de si, que deixa de ser teoria para ser praxis, embriaguez que rejeita a ordem e abraça a desordem, rejeita o monólogo e tenta investir no diálogo.
  Cravos brotaram nos canos das armas. Cantou-se. O país abriu os olhos de  alegria e de espanto e sorriu.

A SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi "Fiel à palavra dada à ideia tida"
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

                                                                                              Sophia de Mello Breyner


 Salgueiro Maia recebeu em 1983 a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor e Mérito em 1992, a título póstumo, e a Medalha de Ouro da cidade de Santarém.
 Em 1988 requereu ao então primeiro ministro Cavaco Silva, uma pensão por serviços excepcionais e relevantes prestados ao país, pedido para o qual nem obteve resposta. Cavaco Silva concordaria no entanto com a atribuição de pensões a dois ex- inspectores da PIDE, um dos quais envolvido no tiroteio frente à sede da Polícia Política,na António Maria Cardoso, em 1974.
 Convém lembrar.


 "Capitães de Abril", filme de Maria de Medeiros, realizado em 2000