"Nasci aqui ao pé do mar/ duma garganta magoada de cantar/Eu sou a festa inacabada/quase ausente/eu sou a briga/a luta antiga renovada/ainda urgente"
José Fanha
José Fanha
As celebrações do 25 de Abril de 1974 têm-se resumido nos últimos anos, sob o ponto de vista institucional, a uma série de discursos triviais e sem chama, ao mesmo tempo que as dificuldades da maioria dos portugueses se têm vindo a agravar. Comemora-se o Dia da Liberdade como a morte de um sonho que se tivesse perdido no caminho, arrastando com ele a esperança e ideais como a justiça social e a igualdade de direitos.
Os militares fizeram algo de raro; um golpe de Estado sem nódoa, abdicando do poder para entregá-lo aos civis através de eleições livres. Suspeito que um povo silenciado durante quase meio século por um regime de medo e opressão, sofra ainda hoje de um mutismo feito consentimento que o impede de abandonar o espírito de rebanho que se transforma em conivência, e elevar-se em indignação quando todos os direitos sociais adquiridos estão a ser postos em causa por sucessivos governos de Vampiros.
A tão apregoada solidariedade europeia é conversa fiada porque como sabemos, pouco interessará aos outros europeus que o salário mínimo nacional seja de 485 euros. A única vantagem de pertencer à União Europeia parece ser a livre circulação de pessoas e bens no espaço dito comum, e a moeda única. No entanto até neste último aspecto ficamos a perder porque com o dinheiro que se comprava um kg de batatas compra-se agora uma batata. E se há portugueses que auferem reformas de 295 euros, poderemos imaginar o desânimo de certas famílias.
A Saúde e a Educação foram os sectores que evoluíram drasticamente nestes 40 anos após a revolução, mas mesmo esses têm vindo a estar debaixo de fogo com o encerramento de escolas, Centros de Saúde e valências hospitalares, não esquecendo contudo, que o Ensino nunca serviu verdadeiramente as singularidades e aspirações de cada um, nem visa plenamente a autonomia individual, e a quem tem um sério problema de saúde, os hospitais públicos raramente conseguem dar resposta atempada.
Ridícula e lamentável foi a polémica entre a sra. Presidente da Assembleia da República ("O problema é deles!", disse a Dra. Conceição Esteves na sua voz esganiçada), e a Associação 25 de Abril sobre a possibilidade de Vasco Lourenço vir a discursar no Parlamento. Não sendo o Regimento da Assembleia para aqui chamado porque de um dia de festa se trata, ou deveria tratar-se, a maioria dos líderes parlamentares decidiram que não estão dispostos a ouvir o pensamento divergente que afectaria a paz podre de tipo "Conversas em Família " do antigamente. A Associação 25 de Abril que pense o quiser, que discurse onde quiser, mas nunca na casa da Democracia, o que constitui em si mesmo um facto político relevante em relação à liberdade de expressão que estes e outros militares ofereceram ao país. A Associação 25 de Abril não assistirá à sessão solene e fará o seu discurso no Largo do Carmo.
Gostaria de lembrar nesta altura todos os portugueses que sofreram uma guerra colonial sem sentido, todos os presos políticos, e todos os militares envolvidos na Revolução de 1974, dos quais destaco Salgueiro Maia, embora todos tenham sido fundamentais.
ANTES QUE
Antes que a fúria bruta nos vença
e o desalento cedo nos mate
a coragem de ir e continuar.
Antes que a revolta nos convença
e a descrença em nós desate
a desistência ou o fundo clamor
sem consciência ou sem razão.
Antes que leviana democracia
se torne séria ditadura disfarçada
em falas mansas e em queixume,
acendamos em cada madrugada
a fogueira em que arderá o lume
do abafado desespero e a cicatriz
dos enganos e perpétuo adiamento.
Acendamos o sonho, a solene raiz
feita de sol, maré em movimento
atracada ao silêncio deste cais.
Soltemos as amarras do tormento
para que o Antes não viva nunca mais.
Poderia ter escolhido "Grândola Vila Morena", mas acho que "Redondo Vocábulo", música composta em Abril de 1973 na prisão de Caxias, é uma boa escolha, até por ser uma das suas canções menos conhecidas, e uma das minhas preferidas. Zeca Afonso, sempre, claro. Uma animação de Eurico Coelho.



