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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Aniversário

Tela de Aldemir Martins, 1949



Descubro na minha face
três rugas do lado direito,
quatro rugas do lado esquerdo.
Toda eu sou perfeito defeito.
Meu nariz é grande e torto,
o meu cabelo é palha sem ter jeito
sempre rebelde e indomável.
E este meu ar tão absorto
dá-me um aspecto lamentável.
A cintura outrora fina e delicada
desapareceu, perdeu-se no tempo.
E não sei se o meu firme peito
se aliou à força da gravidade
ou apenas não suporta o peso da idade.
No entanto a minha pele é suave.

As minhas pernas são delgadas,
a barriga flácida, mole como pudim,
contudo sinto a minha pele suave
quando distraída toco em mim.
Na juventude pensei ser bonita
mas não basta ser simpática
e prender o cabelo com uma fita...
Depois julguei ser inteligente.
Levei muito tempo iludida
por mim própria e outra gente.
Julguei achar-me interessante;
o que sobra se a juventude se esgota
mas sempre surge alguém pedante
a mostrar-me que sou uma idiota.

Não sendo bonita, inteligente ou interessante
só me resta crer que sou única,
singular, original e formidável.
Com alguma criatividade
e sentido de humor inigualável.
Da mocidade ficou a tola ingenuidade
e o tempo que fugiu como uma ave
fez em mim pousar uma desconcertante balada
e uma pele irritantemente suave.
Porque não tenho voz nem sei cantar
abdico da música
e o melhor é me calar.



The Lady is a Tramp, Frank Sinatra