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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Voar

VOAR

Quando vieres poderei desfolhar todas as rosas do jardim; 
até num gesto, sem que te rias de mim
destronar todas as princesas, pôr flores em todas as mesas.

Cobrirei no silêncio, o teu corpo de beijos

     e a minha cama de desejos.

     E quando o sol abrir de repente o teu sorriso

     dir-te-ei sem reservas com toda a força 

     que é preciso

     que os deuses morreram

     e só nos temos um ao outro.
     Depositarei no Olimpo todos os segredos contidos, 
     todas as mágoas nos tempos idos.
     Liberta de promessas, ilusões e receios
     fundirei nos céus todos os astros,
     ficarei na escuridão do quarto a escutar a tua voz.
     O vento soprará para nós e toda a cidade
     renascerá das cinzas; Fénix renascida 
     das noites do passado...
     Depois de te ter amado assim,
     porei dentro de ti, em mim teus olhos doces
     como se fosses
     a esperança e alegria da manhã.
     Sã miragem de sonho concretizado
     realizarei em próxima viagem, os teus cabelos
     a crescer sobre os meus dedos.
     Sem medos,
     como quem espera a madrugada,
     não pedirei mais nada.
     Decidirei em cada regresso 
     o renascer da bruma na orla da praia
     e pintarei para que não saia
     nunca mais das minhas margens o sonho das viagens
     e este rio que me percorre desde sempre.
     No presente ficarei a sós contigo.
     Em cada abrigo , perto das grutas
     nascerão de corpos cansados, todas as lutas.
     Estarei de braços abertos e fecharei em laços
     os teus braços, e ao ouvir os teus passos pelo chão
     estenderei sem limite a minha mão...
     Estarei à tua vinda, sempre, ainda,
     ave na primavera dos países.
     Voando....



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Soeiro Pereira Gomes



SOEIRO PEREIRA GOMES

 S. Pereira Gomes ( Baião 1909-Lisboa 1949) foi um dos iniciadores da ficção neo-realista em Portugal. Casado com a compositora Manuela Câncio Reis, escreveu crónicas n' "O Diabo", e publicou "Esteiros" em 1941. "Engrenagem", Refúgio Perdido" e "Contos Vermelhos" foram publicados postumamente.
 Empregado na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra, dinamizou socialmente a vila, organizando conferências sobre temas culturais e desportivos, dirigindo cursos de ginástica, colaborando na montagem de bibliotecas particulares, tendo contribuído para a construção duma piscina popular onde trabalhou como operário.
 Um excerto de "Esteiros", romance sobre os "filhos dos homens que nunca foram meninos", narrativa sobre meninos miseráveis dos esteiros do Tejo. Um história comovente.


"Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os touros pastar na outra margem e as rotas dos barcos. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Mas Gineto sonhava conquistar todas as ruas. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscara no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu daquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta - era junco - e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua. A mãe bem lhe dizia ao fechar a porta:
- Toma-me conta do pequeno! - Mas ele deixava o irmão a gatinhar na lama, e ia alvoroçar os garotos seus iguais. Ainda não era o Gineto ladrão. O nome veio-lhe depois com os assaltos aos pomares, florestas mais belas do que os esteiros. Mas já era mau e temido. Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados. Fora disso, era mesmo um Gineto escorraçado.
Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre, como um homem.
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro agora tilintasse no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tornava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas.
Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.
E seguiu estrada fora, antegozando a Feira. Festeiro de pés sem botas e calças com fundilhos, porque não tinha, como Malesso e outros, um fato de feira para estrear." (...)