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domingo, 19 de abril de 2015

Günter Grass


"Desde o colapso do socialismo, o capitalismo ficou sem rival. Esta situação anormal desencadeou o seu ganancioso - e acima de tudo - o seu poder suicida. Agora a crença é que tudo -e todos - estão num jogo justo"




 Günter Grass, romancista, poeta, dramaturgo, e artista plástico alemão, nasceu em Danzig, actual Gdansk, na Polónia, a 16 de Outubro de 1927, e faleceu em Lübeck a 13 de Abril de 2015.
 Integra as Waffen-SS aos 17 anos, na fase final da II Guerra Mundial, acabando por ser ferido e capturado pelas tropas aliadas e feito prisioneiro durante um ano na então Checoslováquia. Trabalhou nas minas, na agricultura, foi aprendiz de pedreiro, estudou Desenho e Escultura em Dusseldorf, e frequentou posteriormente a Academia de Artes de Berlim entre 1953 e 1955. Embora já escrevesse Poesia, só a partir da sua mudança para Paris no ano seguinte, se dedica verdadeiramente à Literatura, publicando com grande sucesso "O Tambor de Lata" (Die Blechtrommel) em 1959, romance de crítica social e de costumes da sociedade alemã, que lhe traz notoriedade internacional imediata. Primeiro livro de uma trilogia da qual fazem parte "Gatos e Ratos" (1961) e "O Cão de Hitler"(1963), para além de poemas e peças de teatro.
 De ideias políticas de esquerda, no regresso à Alemanha integra o Grupo 47, e participa activamente na vida pública do seu país, tendo representado uma lufada de ar fresco na Literatura alemã do pós-guerra, através da Ironia, do Absurdo e do Grotesco, satirizando sobretudo o milagre económico da reconstrução alemã.
 Algumas outras obras:  "A Passo de Caranguejo", "A Ratazana", "Uma Longa História", "O Meu Século", "O Pregado", "Em Viagem de uma Alemanha à Outra". " Descascando a Cebola", "A Caixa" e "As Palavras dos Grimm. Uma Declaração de Amor", constituem a sua trilogia autobiográfica. Em "Descascando a Cebola"(2007), descreve o período de 1939 a 1959, e a obra quase atinge a dimensão de escândalo nacional com a revelação do seu alistamento nas SS. Uma honestidade tardia que mancharia a sua imagem de homem transparente em relação à sua postura pública. Grass acreditou que passado tanto tempo, a sua "obra enquanto escritor e cidadão fossem suficientes" para não ter sido atacado por um erro de juventude.
 Recebe o Prémio Georg Büchner (1965), o Pémio Nobel da Literatura(1999), o Pémio Princípe das Astúrias, o Prémio Internacional Mondello e a Medalha Alexander-Majakovsky. E ilustra o livro de José Saramago "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas", inédito publicado o ano passado. 
 Em 2012, atrai novamente as críticas ao publicar um poema no qual questionava o Ocidente por ignorar o programa nuclear israelita, uma ameaça à paz mundial, e um poema de apoio à Grécia, intitulado "A Vergonha da Europa", não se contendo nas apreciações desfavoráveis a Angela Merkel por apenas considerar a austeridade como a única via possível.




A VERGONHA DA EUROPA

              À beira do caos porque fora da razão dos mercados,
              Tu estás longe da terra que te serviu de berço.

              O que buscou a Tua alma e encontrou
               rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata.

               Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra
               a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar.

               À pobreza condenada a terra da sofisticação
              e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura.

               Os que com a força das armas arrasaram o país das ilhas
               abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila.

               País a custo tolerado cujos coronéis
               toleraste outrora na Tua Aliança.

               Terra sem direitos a quem o poder
               do dogma aperta o cinto mais e mais.

               Trajada de negro, Antígona desafia-Te e no país inteiro
                o povo cujo hóspede foste veste-se de luto.

                Contudo os sósias de Creso foram em procissão entesourar
                fora de portas tudo o que tem a luz do ouro.

                Bebe de uma vez, bebe! grita a claque dos comissários,
                mas Sócrates devolve-Te, irado, a taça cheia até à borda.

                Os deuses amaldiçoarão em coro quem és e o que tens
                 se a Tua vontade exige a venda do Olimpo.

                Sem a terra cujo espírito Te concebeu, Europa,
                 marcharás estupidamente.
                                                                                  trad. de  Carlos Leite




 Realizado por Volker Schlöndorff a partir do romance de G. Grass, "O Tambor" é um filme extraordinário.  Oskar decide no dia do seu 3º aniversário, deixar de crescer. É também nesse dia que recebe como presente um tambor do qual se tornará inseparável. Uma história que acompanha os traços burlescos de uma sociedade alemã, antes e depois da II guerra Mundial. Uma crítica mordaz carregada de ironia impiedosa. A liberdade criativa a partir de uma obra fascinante. Palma de Ouro em Cannes e Oscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1980, para além de outras distinções. Um dos meus filmes preferidos.
                                         
"Não sou responsável pelas coisas que fiz enquanto criança", personagem Oskar