sexta-feira, 25 de abril de 2014

Tropeço






                                                   Segui estrada adiante sem receio
                                                   pés descalços, coração aceso.
                                                   Com lama, armadilhas pelo meio
                                                   o corpo cansado ficou preso.

                                                   Tentei começar uma escalada,
                                                   vertigem travou a descoberta.
                                                   De cordas suspensa, desolada,
                                                   perdi-me da alma em parte incerta.

                                                   Agora me estranho e reconheço
                                                   em casa secreta com janelas
                                                   onde me alegro e entristeço

                                                   descobrindo vida nas vielas,
                                                   a magia de tudo se tropeço
                                                   na cor e no brilho das estrelas.

                                                   


                                    
 Uma composição de Candeia  na voz de Angenor de Oliveira, imortalizado como Cartola, "Preciso me encontrar". 



sexta-feira, 18 de abril de 2014

25 de Abril - 40 Anos Depois



"Nasci aqui ao pé do mar/ duma garganta magoada de cantar/Eu sou a festa inacabada/quase ausente/eu sou a briga/a luta antiga renovada/ainda urgente"
José Fanha



 As celebrações do 25 de Abril de 1974  têm-se resumido nos últimos anos, sob o ponto de vista institucional, a uma série de discursos triviais e sem chama, ao mesmo tempo que as dificuldades da maioria dos portugueses se têm vindo a agravar. Comemora-se o Dia da Liberdade como a morte de um sonho que se tivesse perdido no caminho, arrastando com ele a esperança e ideais como a justiça social e a igualdade de direitos.
 Os militares fizeram algo de raro; um golpe de Estado sem nódoa, abdicando do poder para entregá-lo aos civis através de eleições livres. Suspeito que um povo silenciado durante quase meio século por um regime de medo e opressão, sofra ainda hoje de um mutismo feito consentimento que o impede de abandonar o espírito de rebanho que se transforma em conivência, e elevar-se em indignação quando todos os direitos sociais adquiridos estão a ser postos em causa por sucessivos governos de Vampiros.
 A tão apregoada solidariedade europeia é conversa fiada porque como sabemos, pouco interessará aos outros europeus que o salário mínimo nacional seja de 485 euros. A única vantagem de pertencer à União Europeia parece ser a livre circulação de pessoas e bens no espaço dito comum, e a moeda única. No entanto até neste último aspecto ficamos a perder porque com o dinheiro que se comprava um kg de batatas compra-se agora uma batata. E se há portugueses que auferem reformas de 295 euros, poderemos imaginar o desânimo de certas famílias.
 A Saúde e a Educação foram os sectores que evoluíram drasticamente nestes 40 anos após a revolução, mas mesmo esses têm vindo a estar debaixo de fogo com o encerramento de escolas, Centros de Saúde e valências hospitalares, não esquecendo contudo, que o Ensino nunca serviu verdadeiramente as singularidades e aspirações de cada um, nem visa plenamente a autonomia individual, e a quem tem um sério problema de saúde, os hospitais públicos raramente conseguem dar resposta atempada.
 Ridícula e lamentável foi a polémica entre a sra. Presidente da Assembleia da República ("O problema é deles!", disse a Dra. Conceição Esteves na sua voz esganiçada), e a Associação 25 de Abril sobre a possibilidade de Vasco Lourenço vir a discursar no Parlamento. Não sendo o Regimento da Assembleia para aqui chamado porque de um dia de festa se trata, ou deveria tratar-se, a maioria dos líderes parlamentares decidiram que não estão dispostos a ouvir o pensamento divergente que afectaria a paz podre de tipo "Conversas em Família " do antigamente. A Associação 25 de Abril que pense o quiser, que discurse onde quiser, mas nunca na casa da Democracia, o que constitui  em si mesmo um facto político relevante em relação à liberdade de expressão que estes e outros militares ofereceram ao país. A Associação 25 de Abril não assistirá à sessão solene e fará o seu discurso no Largo do Carmo.
 Gostaria de lembrar nesta altura todos os portugueses que sofreram uma guerra colonial sem sentido, todos os presos políticos, e todos os militares envolvidos na Revolução de 1974, dos quais destaco Salgueiro Maia, embora todos tenham sido fundamentais.



ANTES QUE

                                                    Antes que a fúria bruta nos vença
                                                    e o desalento cedo nos mate 
                                                    a coragem de ir e continuar.
                                                    Antes que a revolta nos convença
                                                    e a descrença em nós desate
                                                    a desistência ou o fundo clamor
                                                    sem consciência ou sem razão.
                                                    Antes que leviana democracia
                                                    se torne séria ditadura disfarçada
                                                    em falas mansas e em queixume,
                                                    acendamos em cada madrugada
                                                    a fogueira em que arderá o lume
                                                    do abafado desespero e a cicatriz
                                                    dos enganos e perpétuo adiamento.
                                                    Acendamos o sonho, a solene raiz
                                                    feita de sol, maré em movimento
                                                    atracada  ao silêncio deste cais.
                                                    Soltemos as amarras do tormento
                                                    para que o Antes não viva nunca mais.




Poderia ter escolhido "Grândola Vila Morena", mas acho que "Redondo Vocábulo", música composta em Abril de 1973 na prisão de Caxias, é uma boa escolha, até por ser uma das suas canções menos conhecidas, e uma das minhas preferidas. Zeca Afonso, sempre, claro. Uma animação de Eurico Coelho.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Agustina Bessa-Luís


"A existência do homem adulto não encerra senão monotonia. A paixão não procede das pessoas, mas de algo a que elas têm que obedecer para não cumprirem apenas uma vida sem impulso e sem fantasia."



 Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, conhecida como Agustina Bessa-Luís, é uma das grandes escitoras portuguesas. Nasceu em 1922 em Vila Meã, região do Douro que influenciará fortemente a sua obra e  pode dizer-se que o seu despertar para a Literatura se deu em tenra idade, pela descoberta dos melhores autores franceses e ingleses aos quais teve acesso na biblioteca do avô materno.
 Estuda no Porto e em Coimbra, e a partir de 1950 fixa-se definitivamente no Porto, onde ainda reside. Colaborou em jornais e revistas, participou no programa da RTP "Ela por Ela" com Mª João Seixas, foi directora do jornal "O primeiro de Janeiro", membro da Autoridade para a Comunicação Social, e directora do Teatro Nacional D. Maria II, sendo actualmente membro da Academia Europeia das Ciências das Artes e das Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Cências de Lisboa (Classe de Letras).
 Distinguida com a Ordem de Sant'Iago da Espada, com a Medalha de Honra da cidade do Porto, grau de Doutor Honoris Causa pela Fac. de Letras da Univ. do Porto, e grau de Oficial da Ordem das Artes e das Letras atribuído pelo governo francês, são tantos os prémios que salientarei apenas o Prémio Eça de Queirós, o Prémio Vergílio Ferreira, o Prémio do Festival Grinzane Cinema de Turim, e o Prémio Camões.
 Interessada pelo Romantismo de Camilo Castelo Branco, Eduardo Lourenço considerá-la-ia uma Neo-Romântica, embora a sua obra não possa ser inserida em nenhuma corrente literária específica.
 Excelente prosadora caracterizada por uma riqueza semântica que rejeita a superficialidade, num encadeamento de acção cuja linearidade dá por vezes lugar a saltos narrativos, a racionalidade e objectividade do discurso de personagens sempre fortes acaba por ser invadida por uma subjectividade que se faz sentir na abertura de caminhos possíveis pela mutabilidade espaço-temporal que implica transformação. Uma escrita com preocupações históricas, que visa livrar o passado do esquecimento, ficcionando-o.
 Não irei, nem de perto nem de longe , indicar todas as suas obras, divididas em Romances e Contos, Biografias, Teatro, Crónicas, Memórias, Ensaios e Literatura Infantil. Destaco apenas alguns romances:
 "Mundo Fechado"(1948), "Os Super-Homens"(1950), "A Sibila"(1954), "Os Incuráveis"(1956), "A Muralha"(1957), "O Susto"(1958), "Ternos Guerreiros"(1960), "O Sermão do Fogo"(1962), As Relações Humanas (trilogia escrita entre 1964 e 1966, que engloba "Os Quatro Rios", "A Dança das Espadas" e "Canção Diante de Uma Porta Fechada"), "Fanny Owen"(1979), "O Mosteiro"(1980), "Prazer e Glória"(1988), "Vale Abraão"(1991), "Um Cão que Sonha"(1997), "A Quinta Essência"(1999), O Princípio da Incerteza (trilogia escrita entre 2001 e 2003 que inclui "Jóia de Família", "A alma dos Ricos" e "Os Espaços em Branco"), "Doidos e Amantes"(2005), "A Ronda da Noite"(2006) é o seu último romance, a partir do qual se afastou da vida pública por motivos de saúde. 


Dos poucos livros que li dela, escolhi um excerto de "A Sibila", obra que lhe trouxe reconhecimento imediato após a sua publicação.



"É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio,vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.
 Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida..."
                                                                   A Sibila,1953




Alguns dos seus livros foram adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira. Francisca ( a partir de "Fanny Owen"), O Convento ("As Terras do Risco"), Inquietude ("A Mãe de Um Rio"), Party e Vale Abraão.
João Botelho também levou à tela "A Corte do Norte". Escolhi Vale Abraão, um filme de 1993 com Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra, Ruy de Carvalho e Diogo Dória. Uma espécie de Mme. Bovary duriense do séc.xx.


"Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A Sacola



"Vivo sempre no presente. O futuro não o conheço. O passado já não o tenho." F. Pessoa





                                        Sinto coisas que aconteceram ontem 
                                        como se tivessem acontecido hoje.
                                        Mas o tempo intolerante foge.
                                        Passa por nós e pelas coisas
                                        como invisível cavaleiro andante.
                                        Acena-nos com o amanhã e o durante,
                                        esquiva-se a ser guardado numa sacola.
                                        Esconde-se enquanto passa insinuante
                                        presente passado. Pesada e lenta passarola.
                                        Na sacola guardamos o fumo do que foi,
                                        o que alegra ou entristece, e o que dói.
                                        A sacola é tudo o que dele resta,
                                        talvez a dor, a alegria, um dia de festa.
                                        O tempo. Petulante ladrão das horas,
                                        da pressa. Da ingenuidade juvenil.
                                        De momentos perdidos nas demoras
                                        guardando na sacola o teu perfil.





Avec le Temps, canção emblemática de Léo Ferré