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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Soldado Milhões



 Aníbal Augusto Milhais nasceu em Valongo de Milhais em 1895, onde viria a falecer em 1970. O mais novo de três irmãos orfãos acolhido por familiares próximos, começou a trabalhar ainda criança a troco de alimentação e abrigo. Nunca foi à escola, guardou rebanhos e trabalhou na agricultura.
Em 1915 assenta praça no Regimento de Infantaria (R.I.) de Bragança, altura em que sai pela primeira vez do concelho de Murça. Depois de uma transferência para o R.I. de Chaves, parte para a I Guerra Mundial em 1917 como atirador especial, onde se especializaria em metralhadoras Lewis.
 A 9 de Abril de 1918, na Batalha de La Lys, a 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), do qual fazia parte, foi entre mortos, feridos e prisioneiros, praticamente dizimada, tendo os sobreviventes sido obrigados a retirar. Aníbal (e o companheiro Malha Vacas que morreria pouco depois), terá decidido voluntariamente, cobrir a retirada dos companheiros. Na companhia da sua Lewis, conhecida entre os portugueses como "Luísa", ora a partir das trincheiras, ora pelos campos, continuou a fazer fogo esporádico de várias posições distintas, permitindo a retirada segura de soldados portugueses e britânicos, ao criar nas tropas alemãs a ilusão de que estas posições estivessem bem guarnecidas.
 Três dias depois do início da batalha terá encontrado um médico escocês a quem salvou de afogamento num pântano, e terá sido este médico a dar conta ao Exército Aliado da coragem e abnegação do soldado transmontano durante os últimos dias.
Foto de Arnaldo Rodrigues Garcez, fotóg. do CEP

Regressado ao acampamento português, o comandante Ferreira do Amaral ter-lhe-á dito : " Tu és Milhais, mas vales Milhões!"
 Foi o único soldado português condecorado com a Ordem Militar de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, não em Lisboa, mas em pleno campo de batalha, em Ibsberg, e perante ele desfilaram em continência 15 000 soldados aliados. Agraciado pelo que fez, mas também como reconhecimento a todos os soldados que combateram e tombaram no campo de batalha.
 No regresso a Portugal, casa com Teresa, mas o trabalho na agricultura não passa de mera luta de sobrevivência, insuficiente para alimentar os filhos.
Em 1924, o "Diário de Lisboa" decide resgatar o herói de guerra e usá-lo como símbolo de propaganda da Primeira República, e depois do regime do Estado Novo. Uma figura de soldado raso e iletrado, ideal para a fácil identificação do povo, forçado a comparecer em cerimónias oficiais fardado e com as medalhas ao peito. A sua terra, Valongo, passaria também a chamar-se Valongo de Milhais.
 Em 1928, devido à crise do pós-guerra parte para o Brasil numa tentativa de melhorar a vida, contudo os seus conterrâneos convenceram-no a regressar, colectando-se para o ajudar. Segundo eles, o lugar de um herói deveria ser na pátria, e não emigrado. Com o dinheiro trazido do Brasil constrói uma casa com a ajuda dos vizinhos e retoma as actividades agrícolas tentando alimentar os dez filhos.
 Dificilmente falava da guerra, e só o fazia quando lho pediam."A guerra era para ele um tempo de tristeza".

Anúncio no jornal "A Capital", 1917

  Praceta do Jardim Herói Milhões, Murça

 Existe este breve video sobre o Soldado Milhões, e esta entrevista já quase no fim da vida.