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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reino do Sol








                                                                                Fotos de Elena Shumilova



Dois Meninos
                                                 
                                                 Meu menino tem nos olhos os mistérios
                                                 Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
                                                 Mas de que tenho saudades infinitas.
                                                 (......)
                                                 Não sabe falar
                                                 Mas sabe fazer arabescos de sons
                                                 Que têm poesia.
                                                  (......)
                                                 Meu menino ama os cães
                                                 Os gatos, as aves e os galos
                                                 E fica horas sem fim
                                                 Enlevado a olhá-los.
                                                                     
                                                  Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra" 




 A varanda é alta. Chega quase ao céu. De um lado e de outro, janelas sem fim. Paredes caiadas de uma intensidade branca contrastam com as asas da solitária borboleta que tenta segurar-se ao sol em dança de repentina ventania, resgatada no limite por amena aragem. Revestidas de heras povoadas por insectos inimagináveis, ora inebriados de luz, ora quietos na sombra ou viajando para a mata circundante. Edifício sem contornos definidos. Simples casa ou alto castelo rodeado de guerreiros e donzelas, fadas e duendes. Reino de príncipes e princesas, cavaleiros e trovadores, pequenos reis sem coroa nem trono. De piões, berlindes, esconde-esconde e cabra-cega. De fisionomia arquitectónica esbatida por recordações, mas de interior nítido e luminoso como a suave claridade dos dias de Maio. Todas as salas irradiam ternura, e o som de um piano quebra ocasionalmente, a mudez do tempo suspenso sobre um telhado vermelho, roxo e amarelo, matizado ainda por ninhos de aves jamais vistas. Lugar onde a chuva não molha, apenas refresca, e tudo em si tem uma razão. Porque a natureza em metamorfose é um templo no qual tudo acontece por artes mágicas de um secreto feiticeiro, e nela os olhos são obrigados a perder-se em contemplação.
 Território sem letras, palavras ou tabuletas, regida por infância de gestos. As crianças queimaram no centro da praça os últimos vestígios das palavras porque uma memória secular permite decifrar olhares e intenções. Inocência  de almas densas e corpos leves que flutuam ao sabor da descoberta de um mundo inicial embrulhado em invisível pano de linho que envolve afectos e delimita a fronteira ainda não calendarizada entre a fina névoa da manhã e o brilho solar na formosura da tarde.
 Derradeiras folhas secas fazem distraidamente no mato cama aos ouriços, e os ramos das árvores estremecem se uma garça-real neles pousa, numa música  feita de cavado silêncio para que pasmemos com a voz e o preceito das pequenas coisas; gigantescas na riqueza dos seus mistérios e na desassombrada vivacidade dos seus detalhes.
 A aurora faz germinar sementes e madressilvas enquanto os homens buscam na constância das horas de mansa fluidez o acerto que dá cor aos dias e religiosidade aos actos. Uma brisa serena deposita na pele das crianças um gosto adocicado de pólen e mel, quando pela manhã se encontram a sós com a graça e a timidez dos bichos, e deles apenas se separam em direcção à falua do Bom barqueiro que os espera na margem do lago.
Regressam ao entardecer e comem maçãs.



"O Beijo do Sol", peça musical baseada num canto tradicional do Quénia, incluído nos "Cantos da Babilónia", o último trabalho do maestro e compositor Pedro Osório, falecido em Janeiro de 2012.