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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

J. Slauerhoff


"Os meus poemas são a minha única casa"


 Jan Jacob Slauerhoff, poeta e novelista holandês, nasceu em Leeuwarden em 1898 e faleceu em Hilversum em 1936. Estudou Medicina em Amesterdão onde começa a escrever poesia. Inadaptado à sociedade do princípio do séc.XX inicia uma vida boémia influenciada pelos seus poetas-modelo; Baudelaire, Verlaine e Rimbaud.
 De constituição frágil e saúde precária, decide no entanto tornar-se médico de bordo, actividade que interromperia diversas vezes por motivos de saúde. Durante a sua última viagem à África do Sul contraiu malária, o que a juntar a uma tuberculose não devidamente tratada fez com que voltasse para recuperação em Itália, mas já era tarde demais. Ainda doente voltou ao país natal onde acabaria por falecer aos 38 anos de idade. Devido à sua morte tão prematura, muitas das suas obras só foram publicadas postumamente.
 De espírito atormentado e solitariamente aventureiro, desencantado com o seu tempo, tentou encontrar noutras culturas um estímulo para tentar sair da sua forma de escrever e sentir, um pouco depressiva.
 Durante as escalas de suas viagens marítimas passou por todas as colónias portuguesas, contactou regularmente em Lisboa com muitos cantores de fado e privou com Fernando Pessoa. Dessas visitas resultou a colectânea "Solares" cuja secção intitulada "Saudades" apresenta poemas com títulos em português; Lisboa, Vida Triste, O Enjeitado, Saudade, Fado... Faz de Lisboa e Macau projeções do seu irremediável mal-estar. Muito interessado em Camões, figura para a qual transporia as suas próprias obsessões, tornando-a personagem recorrente na sua obra; no romance "O Reino Proibido", em poemas como "O regresso de Camões", "A última aparição de Camões", ou em "Camões" da colectânea " Um Honroso Jazigo de Marinheiro". Um "Camões transfigurado que tem mais a ver com o próprio Slauerhoff.
Um homem que conheceu de perto a alma portuguesa já de si impregnada de tantos cantos do mundo, que a sua poesia teria de ter carácter universal. Dele apenas conheço "O Reino Proibido", e alguns poucos poemas traduzidos para português para o álbum "O Descobridor - Cristina Branco Canta Slauerhoff".

Fontes: 1."Camões e Macau num Romance Neerlandês" de Patrícia Couto com Arie Pos, Ed. Teorema 
 2. Wikipedia


                                        A UMA PRINCESA DISTANTE

                           Jamais voltaremos a ver-nos. 
                           Entre nós dois há um mundo pelo meio.
                           Por vezes, de noite, à janela nos detemos
                           Mas são outras as estrelas que vemos...
                           De outros tempos o enleio.
    
                           É tão longínquo o vosso país do meu:
                           Como a luz da mais funda escuridão - tão distante-
                           Que viajando sem parar nas asas do desejo, eu
                           Vos saudaria num suspiro agonizante.

                            Porém, se for verdade,
                            Que sonhando o impossível,
                            Se leva o maior dos anseios
                            À estrela mais intangível :
                            Então eu voltarei,
                            Voltarei todas as noites...
                             De saudade.
                                                           (  Slauerhoff, trad. de Mila Vidal Paletti)


 Deste álbum "O Descobridor-Cristina Branco Canta Slauerhoff" escolhi "Os Solitários", porque "...tudo passa, tudo desaparece... /E embora inspire ternura, /O pouco que ficou / Não chega para viver."
                  




sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Corsino Fortes

 Corsino Fortes nasceu no Mindelo (Ilha de S. Vicente), Cabo Verde, em 1933. Poeta e político cabo-verdiano, fez parte de vários governos do seu país e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal. De destacar a sua obra "Pão e Fonema" de 1974, e "Árvore e Tambor" de 1986.


HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE
                                                                    Canto II

    Quando a África incha seus músculos de sangue e secura
    Não há Sahel que não queime
    No coração da noite
    A sua salina de solidão

    Não há boca que não chova a sua gota de corpo e alma

    Nem gota
    De água doce que não seja
    Um espaço! para amar e habitar

    Por vezes! O relâmpago

    Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

    E as ilhas soerguem-se

    pelo arquipélago das patas
    E vão

    De cratera em cratera

    Erguer
    Na boca das sementes
    A força contida dos vulcões

    Homem! deus é grande entre duas ilhas

    Se baleias emergem da gota do teu rosto

    Na ilha! A cicatriz de deus é grande

    Mas a ferida do homem é maior

    Canção! no arbusto da viola


    Que chove

    A lírica de deus é grande
    Mas a música do homem é maior

    Mulher! quando o céu da tua boca

    Arrasta o corpo da terra
    Até à goela da água longínqua
    A febre conta no arco-íris
    Da carne que sangra
    A montanha roída dos dentes...

    E da cicatriz da mão

    Brotam raízes
    Que vicejam a memória dos séculos.
                                                           
                                                         in "Árvore e Tambor"

Uma pequena homenagem a Cesária Évora, também ela nascida no Mindelo (1941-2011)