António Jacinto do Amaral Martins, filho de um casal de colonos de Alfândega da Fé, nasceu em Luanda em 1924, e faleceu em Lisboa em 1991, aos 67 anos de idade. Reconhecido principalmente como poeta de protesto, foi também contista com o pseudónimo de Orlando Távora.
Empregado de escritório e técnico de contabilidade, desde cedo exerceu actividade na vida política e cultural de Angola, colaborando também em alguns jornais e revistas. Devido à sua militância política contra o regime fascista e o colonialismo, foi condenado a catorze anos de prisão, dez dos quais cumpridos no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Depois de breve passagem por Lisboa, fugiria para Argel e juntar-se-ia ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Com a independência, em 1975, seria nomeado Ministro da Educação e Cultura de Angola, cargo que ocupou até 1978.
Co-fundador da União de Escritores Angolanos e membro do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, recebeu o prémio Noma, o Prémio Lotus da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, e o Prémio Nacional de Literatura. O Instituto Nacional de Indústrias Culturais(INIC) criou um prémio literário com o seu nome.
Obras: "Poemas"(1961), "Vovô Bartolomeu"(1979), "Poemas"(1982, ed. alargada), "Em Kilunje do Golungo"(1984), "Prometeu"(1987), "Fábulas de Sanji"(1988).
Tenho por África e seus escritores e artistas um fascínio imenso. Um continente com inúmeras línguas e dialectos, com tanta diversidade cultural e ambiental. Um património histórico e natural que me encanta, com povos tão injustiçados ao longo da História.
MONANGAMBÉ
Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
-"Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir as palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras.
- "Monangambéé..."
in Poemas (1961)
Monangambé- nome dado aos angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, no período colonial. Por vezes, deslocados de províncias muito distantes, sendo por isso afastados da família.
dendém- fruto do dendenzeiro, palmeira da qual se extrai o óleo de palma.
tonga- terra a ser lavrada, lavoura.
angolar- moeda oficial de Angola, entre 1926 e 1958.
maruvo- bebida resultante da fermentação da seiva da palmeira, uma espécie de aguardente.
Poema musicado e cantado por Rui Mingas

