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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Reguila


"Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação, e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono" Millôr Fernandes




A minha mãe 
desperta-me cedinho.
Prepara-me para a escola,
serve-me leite e carinho.

Aprendo letras e versos,
a escrever e a contar, 
salto ao eixo, jogo à bola.
Se me empurram e se caio
eu finjo não me aleijar.

A minha mãe
diz que tenho que estudar,
e de tanto fingir que estudo
acabo por tanto aprender...
Diz-me que sou bonito
e nisso eu até acredito
porque sou lindo a valer!

A minha mãe 
é serena, bela e doce
e trata-me como se eu fosse
o seu pequenino rei.
Ah como eu sei
como ela gosta de mim!
Mas quando me avista da janela
e me chama p'ra jantar
finjo que não dou por ela
e continuo a brincar.

Depois mais tarde ao serão,
minha mãe conta uma história
e embala uma canção,
derrama muita ternura
no berço do meu irmão.
E na hora de dormir
cobre-me de tantos beijos,
aconchega-me o lençol...
Eu finjo que me aborreço,
e só ao adormecer 
eu desisto de fingir
e durmo até o sol nascer.




Canção de Embalar, Zeca Afonso



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Largo


"Os senhores da Vila desciam ao Largo e falavam de igual para igual com os mestres alvanéis, os mestres-ferreiros. E até com os donos do comércio, com os camponeses, com os empregados da Câmara. Até, de igual para igual, com os malteses, os misteriosos e arrogantes vagabundos. Era aí o lugar dos homens, sem distinção de classes. Desses homens antigos que nunca se descobriam diante de ninguém e apenas tiravam o chapéu para deitar-se.


Também era lá a melhor escola das crianças. Aí aprendiam as artes ouvindo os mestres artífices, olhando os seus gestos graves. Ou aprendiam a ser valentes, ou bêbados, ou vagabundos. Aprendiam qualquer coisa e tudo era vida. O Largo estava cheio de vida, de valentias, de tragédias. Estava cheio de grandes rasgos de inteligência. E era certo que a criança que aprendesse tudo isto vinha a ser poeta e entristecia por não ficar sempre criança a aprender a vida- a grande e misteriosa vida do Largo.


Quem lá dominasse, dominava toda a Vila. Os mais inteligentes e sabedores desciam ao Largo e daí instruíam a Vila. Os valentes erguiam-se no meio do Largo e desafiavam a Vila, dobravam-na à sua vontade. Os bêbados riam-se da Vila, cambaleando, estavam-se nas tintas para todo o mundo, quem quisesse que se ralasse, queriam lá saber- cambaleavam e caíam de borco. Caíam ansiados de tristeza no pó branco do Largo. Era o lugar onde os homens se sentiam grandes em tudo o que a vida dava, quer fosse a valentia, ou a inteligência, ou a tristeza.

 Era o centro da Vila. Os viajantes apeavam-se da diligência e contavam novidades. Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo. Também, à falta de notícias, era aí que se inventava alguma coisa que se parecesse com a verdade. O tempo passava, e essa qualquer coisa inventada vinha a ser a verdade. Nada a destruía: tinha vindo do Largo. Assim, o Largo era o centro do mundo.

A casa era para as mulheres."

MANUEL DA FONSECA

Um bonito excerto de " O Fogo e as Cinzas" (1951) de Manuel da Fonseca. Um retrato dos trabalhadores rurais dos anos 40-50, num Alentejo rústico e em decomposição, de personagens condenadas à pobreza, pela exclusão ou pelo esquecimento.Um mestre do neo-realismo.

Um pouco do meu Alentejo. Neste caso, os mineiros, tão esquecidos.