Mostrar mensagens com a etiqueta sangue. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sangue. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As Cores



                                    Tela de Nancy Wilde


                     

Sei como colorir-me.As cores da liberdade apontam-me o caminho.



AS CORES

 Todos sabemos que cores não são mais que sensações trazidas aos nossos olhos, pela luz reflectida pelos corpos que nos rodeiam. Que o branco representa as cores do espectro, e que o preto é a inexistência de cor, ou a ausência de luz.
 Não pode pintar-se sem cor, tal como não se pode escrever sem palavras na Língua que nos pertence, ou que abracemos. E toda a Língua tem cor própria. Reverenciemos por isso todas as cores que podem traduzir audácia, revolta, tranquilidade ou tormenta, com ou sem respingos de ternura ou agressividade, ao contemplar os vários matizes de auroras e ocasos, as borboletas, as aves garridas, árvores e rios, céu e terra, o fogo... Desvendemos todas as paisagens agrestes, agitadas ou calmas, todas as cascatas, ou qualquer deserto em todas as suas tonalidades. De contornos leves ou pesados, de formas concretas ou abstractas, difusas ou nítidas, na harmonia ou na desordem, em contrastes de luz e de sombra, nos quais todos os tons se tornam possíveis. Em transparência ou opacidade, em atmosfera de calor ou de frio, ou num caleidoscópio de simbologias que nos devolvem serenidade, ou nos pincelam os mais primitivos sentimentos de nostalgia ou inquietude.
 A minha preferência por paredes brancas não existe por acaso; exijo que o sol me invada a casa de luz, que me evite a penumbra. Aprecio a escuridão apenas se me envolvo nos braços de Morfeu, ou se o meu cansaço é tão profundo que me impeça manter os olhos abertos.
 Para vestir gosto de branco, azul, preto, púrpura, e fujo do amarelo, do verde-alface, ou de qualquer outra cor gritante ou com brilhos, como o diabo foge da cruz. Mas sei que podemos, através da sua junção ou afastamento, encontrar beleza em todas as cores; numa paisagem de neve, num campo apenas verdejante, ou pintado de alfazemas, ou papoilas, num pomar de cerejas, até nas pedras... A escolha de uma cor reside, ocasionalmente, não apenas em questões de preferência estética, mas também em questões de  funcionalidade ou simbolismo, dependendo nesse caso do nosso estado de espírito, ou de certos acontecimentos. Embora a tradição tenha tendência a alterar-se, o branco continua ainda a ser o preferido das noivas, como signo de pureza e paz, assim como o preto é geralmente associado ao luto. Tal como o vermelho, conotado desde sempre com paixão, desejo, sangue...
 Sejamos inteiros em todas as nossas cores e tons, em cada momento que passa.Em todas as nossas atitudes. Aceitemos os céus enevoados, as luminosidades etéreas, as tonalidades rodeadas de negro.
 Apreciemos também qualquer pessoa, independentemente da sua cor e forma; uma mera expressão da nossa claridade enquanto gente.












Como música, a " Aquarela" de Toquinho. A mestria da simplicidade.








sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pablo Neruda


                      "Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem, são eternos como a natureza"
                        


 Pablo Neruda, pseudónimo do poeta chileno Ricardo Eliézer Neftali Reyes Basoalto (Parral 1904-Santiago do Chile 1073). Foi professor do Instituto Pedagógico de Santiago, tendo desempenhado posteriormente cargos diplomáticos em Espanha, México e França. Prémio Lenine da Paz em 1953, e Prémio Nobel da Literatura em 1971, a sua escrita parte do pós-modernismo e desagua no vanguardismo e na poesia social.
 De destacar na sua obra: "Crepusculário"(1923), "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"(1924), "Canto Geral"(1950), "Todo o Amor"(1953), "Odes Elementares"(1954), "Cem sonetos de Amor"(1959), "Memorial da Isla Negra"(1964), "A Barcarola" e "A Morte de Joaquin Murieta" de (1967), "Confesso que Vivi" (autobiografia publicada postumamente em 1974), e muitos outros escritos que não vou enumerar.
 Pensei em publicar este soneto na versão portuguesa mas como o poema perde muito em termos de sonoridade, aqui vai o original.


                                                        SONETO LXVI

                                           No te quiero sino porque te quiero
                                           Y de quererte a no quererte llego
                                           Y de esperarte cuando no te espero
                                           Pasa  mi corazón del frio al fuego.

                                           Te quiero sólo porque a ti te quiero,
                                           Te odio sin fin, y odiándote te ruego,
                                           Y la medida de mi amor viajero
                                           Es no verte y amarte como un ciego.

                                           Talvez consumirá la luz de Enero,
                                           Su rayo cruel, mi corazón entero,
                                           Robándome la llave del sosiego.

                                           En esta historia sólo yo me muero
                                           Y moriré de amor porque te quiero,
                                           Porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

                                                                                  in "Cem sonetos de Amor"


 Cantado por artistas como Ana Belén, Joaquin Sabina, Pablo Milanés, Estrella Morente, Paco Ibañez, Victor Jara, Julieta Venegas ou Miguel Poveda, decidi-me no entanto  pelo poema " Me gustas quando callas", musicado por Victor Jara , na voz de Mercedes Sosa, e a maravilhosa pintura de Jorge Murillo.







E para finalizar, o trailer do filme de Michael Radford "O Carteiro de Pablo Neruda" (Il Postino), baseado no livro de Antonio Skármeta, com Philippe Noiret, o talentoso Massimo Troisi, e Maria Grazia Cucinotta.






sábado, 29 de dezembro de 2012

J.C.Ary dos Santos


" E as coisas que não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
Meu pântano de rosas afogadas"

 José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um dos grandes poetas portugueses (Lisboa 1937-Lisboa 1984).Nascido numa família burguesa enraizada na aristocracia,decide sair de casa por volta dos 16 anos de idade,e é também nessa altura que alguns dos seus poemas integram a Antologia do Prémio Almeida Garret, mas poderemos dizer que a sua verdadeira entrada na escrita se dá com "A Liturgia do Sangue".
 A sua poesia chegaria facilmente ao grande público através de mais de 600 fantásticas letras para canções que ficaram célebres, tendo sido cantado por inúmeros artistas dos quais destaco Simone de Oliveira,Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália, Maria Armanda,Tereza S. Carvalho, Maria da Fé, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, e muitos outros... Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti prestaram-lhe homenagem com " Rua da Saudade".
 Depois da sua morte foi-lhe atribuída a Grande Ordem do Infante D. Henrique,e o seu nome foi dado a um largo de Alfama, bairro onde viveu praticamente toda a sua vida.
 Grande declamador expressou melhor que ninguém "As Portas que Abril Abriu".
 Abril escancarou portas que ameaçam fechar-se num futuro próximo. Que poemas escreveria Ary, um homem sem papas na língua, na situação actual do país?...
          
     
         
     De destaque na sua obra "Asas"(1953), "A Liturgia do Sangue"(1963, "Tempo da Lenda das Amendoeiras"(1964),  "Adereços, Endereços"(1965), "Insofrimento in Sofrimento"(1968), "Ary dos Santos por Si Próprio"(1970), "Poesia Política"(1974), "Llanto para Alfonso Sastre y Todos"(1975), "As Portas que Abril Abriu"(1979), "O Sangue das Palavras"(1983), etc...


DESESPERO

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

                                                       in "Liturgia do Sangue"



Letra de Ary dos Santos, música de F. Tordo na voz de Carlos do Carmo, "Estrela da Tarde"








sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Corsino Fortes

 Corsino Fortes nasceu no Mindelo (Ilha de S. Vicente), Cabo Verde, em 1933. Poeta e político cabo-verdiano, fez parte de vários governos do seu país e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal. De destacar a sua obra "Pão e Fonema" de 1974, e "Árvore e Tambor" de 1986.


HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE
                                                                    Canto II

    Quando a África incha seus músculos de sangue e secura
    Não há Sahel que não queime
    No coração da noite
    A sua salina de solidão

    Não há boca que não chova a sua gota de corpo e alma

    Nem gota
    De água doce que não seja
    Um espaço! para amar e habitar

    Por vezes! O relâmpago

    Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

    E as ilhas soerguem-se

    pelo arquipélago das patas
    E vão

    De cratera em cratera

    Erguer
    Na boca das sementes
    A força contida dos vulcões

    Homem! deus é grande entre duas ilhas

    Se baleias emergem da gota do teu rosto

    Na ilha! A cicatriz de deus é grande

    Mas a ferida do homem é maior

    Canção! no arbusto da viola


    Que chove

    A lírica de deus é grande
    Mas a música do homem é maior

    Mulher! quando o céu da tua boca

    Arrasta o corpo da terra
    Até à goela da água longínqua
    A febre conta no arco-íris
    Da carne que sangra
    A montanha roída dos dentes...

    E da cicatriz da mão

    Brotam raízes
    Que vicejam a memória dos séculos.
                                                           
                                                         in "Árvore e Tambor"

Uma pequena homenagem a Cesária Évora, também ela nascida no Mindelo (1941-2011)