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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Soeiro Pereira Gomes



SOEIRO PEREIRA GOMES

 S. Pereira Gomes ( Baião 1909-Lisboa 1949) foi um dos iniciadores da ficção neo-realista em Portugal. Casado com a compositora Manuela Câncio Reis, escreveu crónicas n' "O Diabo", e publicou "Esteiros" em 1941. "Engrenagem", Refúgio Perdido" e "Contos Vermelhos" foram publicados postumamente.
 Empregado na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra, dinamizou socialmente a vila, organizando conferências sobre temas culturais e desportivos, dirigindo cursos de ginástica, colaborando na montagem de bibliotecas particulares, tendo contribuído para a construção duma piscina popular onde trabalhou como operário.
 Um excerto de "Esteiros", romance sobre os "filhos dos homens que nunca foram meninos", narrativa sobre meninos miseráveis dos esteiros do Tejo. Um história comovente.


"Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os touros pastar na outra margem e as rotas dos barcos. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Mas Gineto sonhava conquistar todas as ruas. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscara no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu daquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta - era junco - e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua. A mãe bem lhe dizia ao fechar a porta:
- Toma-me conta do pequeno! - Mas ele deixava o irmão a gatinhar na lama, e ia alvoroçar os garotos seus iguais. Ainda não era o Gineto ladrão. O nome veio-lhe depois com os assaltos aos pomares, florestas mais belas do que os esteiros. Mas já era mau e temido. Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados. Fora disso, era mesmo um Gineto escorraçado.
Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre, como um homem.
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro agora tilintasse no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tornava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas.
Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.
E seguiu estrada fora, antegozando a Feira. Festeiro de pés sem botas e calças com fundilhos, porque não tinha, como Malesso e outros, um fato de feira para estrear." (...)



Eugénio de Andrade


EUGÉNIO DE ANDRADE


 Um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.( Póvoa de Atalaia 1923-Porto 2005).
 Viveu em Lisboa, Coimbra, onde acabou os estudos, e no Porto onde viveu muitos anos e viria a falecer. Sempre distanciado da vida mundana, recebeu o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários(1986), o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus(1988), o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(1989) e o Prémio Camões(2001).
  De destaque na sua vasta obra : "As Mãos e os Frutos", "Os Amantes sem Dinheiro", " As Palavras Interditas", "Escrita da Terra", "Matéria Solar", "Rente ao Dizer", "Ofício de Paciência", "O Sal da Língua", "Os Lugares do Lume"....    
 Foi-me difícil escolher um poema, são todos de um lirismo impressionante. Escolhi este.

                                                    ELEGIA
                                 
                                   Às vezes era bom que tu viesses.
                                   Falavas de tudo com modos naturais:
                                   Em ti havia a harmonia
                                   dos frutos e dos animais.

                                   Maio trouxe cravos como outrora,
                                   cravos morenos como tu dizias,
                                   mas cada hora
                                   passa e não se demora
                                   na tristeza das nossas alegrias.

                                   Ainda sabemos cantar,
                                   só a nossa voz é que mudou:
                                   somos agora mais lentos,
                                   mais amargos,
                                   um novo gesto é igual ao que passou.

                                   Um verso já não é a maravilha,
                                    um corpo já não é a plenitude,
                                    tu quebraste o ritmo, o ardor,
                                    ao partires um a um,
                                    os ramos da tua juventude.

                                    Não estamos sós:
                                    Setembro traz ainda
                                    um fruto em cada mão.
                                    Mas os homens, as aves e os ventos
                                    já não bebem em ti a direcção.

                                                                in "Os Amantes sem Dinheiro"