Antes o vôo da ave , que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar.
Alberto Caeiro, Poema XLIII, in "O Guardador de Rebanhos"
Escrito em 1914. Publicado pela 1ª vez pela revista
Athena em 1925.

