Li algures que livros são janelas, e será raro o dia em que não abro uma, mesmo que só leia uma frase ou duas.... Com eles encontro-me com Aretusa ou qualquer outra personagem mitológica, plena de virtude ou ignomínia,com sentimentos de serenidade ou de tumulto. Posso vivenciar um espaço e um tempo diferentes, mergulhar num oceano de metáforas, ou ficar agarrada ao chão com uma correria de acontecimentos reais. Conhecer uma alga, ser uma estrela do mar... "Eu", poderia eventalmente ser o título de um livro escrito por mim, porque como dizia F. Pessoa, "quando escrevo visito-me solenemente". Neste Dia do Livro, nascido inicialmente na Catalunha como homenagem a Cervantes e instituído pela UNESCO em 1955 como Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor recomeçarei a ler, muito aos solavancos, " An Afternoon Walk" de Dorothy Eden, uma novela gótica cheia de suspense.
Entretanto vou ouvindo "Estrela do Mar" de Jorge Palma, um poeta de canções
E já agora, uma homenagem a este santuário de livros; Livraria Lello, no Porto
"Só há humilhação se se aceita a escala de valores que os outros nos impõem."
Vergílio Ferreira (Melo, Gouveia 1916-Lisboa 1996), professor e escritor, distinguiu-se no género de romance, ensaio e diário, tendo sido galardoado com o Prémio Camões em 1992. São tantas as suas obras que salientarei apenas: "O Caminho fica Longe"(1943), "A Face Sangrenta"(1953), "Aparição"(1959), "Cântico Final"(1960), "Apelo da Noite"(1963), "Alegria Breve"(1965), "Apenas Homens"(1970), "Signo Sinal"(1979), "Para Sempre"(1983), "Até ao Fim"(1987), "EmNome da Terra"(1990), "Na tua Face"(1993)......Ler mais
A Universidade de Évora instituiu em 1997 o Prémio Vergílio Ferreira como homenagem ao escritor e ensaísta, galardoando assim outros autores de Língua Portuguesa.
Inserido na corrente neo-realista, a sua escrita foi aos poucos sendo influenciada pelo Existencialismo, pautando as suas narrativas pela importância do indivíduo como actor do seu destino, no qual a memória e a consciência adquirem valor próprio.
Um esteta da palavra que considerava que a ligação do homem com o mundo era feita de emoção, e como tal precisaria de "um esclarecimento e superior objectivação" que só a a arte poderia tornar possível.
Apaixonado pela Serra da Estrela onde como num regresso às origens,seria enterrado, decidi por isso evocar "Manhã Submersa", romance escrito em 1954, drama de cunho autobiográfico no qual o autor relata experiências pessoais dolorosas, partindo da personagem António Borralho para a abordagem da pobreza e desigualdades sociais, num ambiente de repressão educativa.
Coagido a frequentar o Seminário do Fundão, por uma tutora beata que o oprime através da religião,para uma vocação que não sente, António vivenciará os caprichos dos padres e as suas obsessões, a solidão e a angústia, suavizadas apenas pelo espírito de camaradagem entre os rapazes.Adopta, por fim, uma posição de ruptura através de um acto impensado que lhe indicará o caminho de volta a uma realidade crua mas liberta.
Eis alguns excertos.
MANHÃ SUBMERSA
"...Marcada a cama de cada um, voltamos à sala de espera para recolher a bagagem. Tivemos de ceder a primazia aos mais velhos(...)Sei que depois ainda fomos à capela e nos despimos, com um cerimonial esquisito, antes de dormirmos. Mas nessa altura, pesado de sofrimento, um grande apelo final de silêncio e desistência subia para mim desde as raízes da noite. E fechei os olhos.(...)
E uma saudade densa caiu-me, como um peso na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas. Então lembrei-me, por entre o pranto, de um pequeno saco de figos que minha mãe me dera à despedida. Procurei na saca de roupa, puxei-o para a cama. E o sabor deles, que me encheu a alma, trouxe-me a presença de um carinho morto....(...)O peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido.
Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.
(...)Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas a um apelo de abandono, a um esquecimento "real", a bruma da distância levanta-se -me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente....(...)
Inesperadamente, por minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...."
Este romance foi adaptado ao cinema por Lauro António. Uma longa-metragem rodada em 1978-1979, estreada em 1980. Com Eunice Muñoz, o próprio V. Ferreira como Reitor do Seminário, Canto eCastro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Camacho Costa, Joaquim M. Dias entre outros.
José Carlos Pereira Ary dos Santos foi um dos grandes poetas portugueses (Lisboa 1937-Lisboa 1984).Nascido numa família burguesa enraizada na aristocracia,decide sair de casa por volta dos 16 anos de idade,e é também nessa altura que alguns dos seus poemas integram a Antologia do Prémio Almeida Garret, mas poderemos dizer que a sua verdadeira entrada na escrita se dá com "A Liturgia do Sangue".
A sua poesia chegaria facilmente ao grande público através de mais de 600 fantásticas letras para canções que ficaram célebres, tendo sido cantado por inúmeros artistas dos quais destaco Simone de Oliveira,Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália, Maria Armanda,Tereza S. Carvalho, Maria da Fé, Dulce Pontes, Kátia Guerreiro, e muitos outros... Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti prestaram-lhe homenagem com " Rua da Saudade".
Depois da sua morte foi-lhe atribuída a Grande Ordem do Infante D. Henrique,e o seu nome foi dado a um largo de Alfama, bairro onde viveu praticamente toda a sua vida.
Grande declamador expressou melhor que ninguém "As Portas que Abril Abriu".
Abril escancarou portas que ameaçam fechar-se num futuro próximo. Que poemas escreveria Ary, um homem sem papas na língua, na situação actual do país?...
De destaque na sua obra "Asas"(1953), "A Liturgia do Sangue"(1963, "Tempo da Lenda dasAmendoeiras"(1964), "Adereços, Endereços"(1965), "Insofrimento in Sofrimento"(1968), "Arydos Santos por Si Próprio"(1970), "Poesia Política"(1974), "Llanto para Alfonso Sastre y Todos"(1975), "As Portas que Abril Abriu"(1979), "O Sangue das Palavras"(1983), etc...
DESESPERO
Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.
in "Liturgia do Sangue"
Letra de Ary dos Santos, música de F. Tordo na voz de Carlos do Carmo, "Estrela da Tarde"