Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Trenet. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Trenet. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Crepúsculo



"Meu coração é um pórtico partido
   Dando excessivamente sobre o mar" Fernando Pessoa



 Entorna-me de canto a noite e de silêncio o canto dos dias, para que eu seja capaz de sentir o som das tuas mãos sobre o meu peito e a saída de todas as barcas para o mar. Quando te debruças sobre mim assim, nada mais existe que um sopro trazido da maré baixa que se eleva pelas areias e penetra as correntes ancoradas no meu corpo, numa enchente de exigências como se os sentidos fossem donos de razão. O vento afaga as dunas enquanto o rosmaninho se curva ao peso de um solitário camaleão em lento caleidoscópio de cores que faz nascer em mim um pranto luminoso, feito de coisas pequenas que tinha esquecido quando as supostas coisas grandes se sobrepunham no altar de todas as urgências. Sortilégio dos sortilégios ter já esquecido o que fez de mim antigo marasmo de gente pouca, enleada num misto de encontro e desencontro na fugacidade dos instantes que passam.
 Voltei hoje a beber a luz do sol e a percorrer os caminhos que pensei perdidos. Nada é o que foi dantes, mas a minha pele reconhece o brilho que já teve e o mar revolto mansamente se calou. A serenidade voltou porque voltei a lembrar-me dela. Porque a vida só pode ser alegria se deixarmos os deuses entregues à sua própria adoração; mistérios fúteis que não perduram no renascimento da voz que me pertence quando a alvorada traz sobre mim um véu de tranquilidade e um brado sereno em seu regaço.
 O importante não é saber dos ventos e marés ou dos cardumes longe da costa,  entender  o entrelaçar das algas que dão à praia ou se o canto das sereias é mais poderoso que a vontade, mas entender as vagas que invadem o meu corpo, todo ele breve enseada sem praia ou cais e pássaros perdidos nos canaviais. Recantos onde meço a pulso as coisas feitas, na hora em que tudo é passageiro e um corcel de prata surge de mão dada com a noite, no preciso momento em que a tarde se ajoelha perante o dia e o brilho de todos os ocasos não consegue já ofuscar o meu olhar. À hora em que todas as barcas se recolhem.



La Mer, Charles Trenet


Não postarei em Outubro porque estarei a derreter-me toda com a visita da minha querida mana!