Mostrar mensagens com a etiqueta Amore Perduto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amore Perduto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de janeiro de 2015

Escarpas


                                                                     Inna Tsukakhina




O meu território é rodeado de sebes invisíveis
que o vento não consegue derrubar.
Sou pária de um mundo de gestos previsíveis
onde não encontro derradeiro lugar.
Deixei de sonhar e nem me pretendo em realidade.
O frio pousa cada vez mais lentamente
secando a pele e enrouquecendo a voz
quando me deslizo no inicial vestígio da noite
e já adormeceste em mim um sono calmo
no corpo que emprestei à ideia de ti.
É comovente o teu respirar dentro do meu peito
enquanto pressinto o rumor da terra seca
e o duro silêncio morrente que povoa a cidade.
Se ao menos um bicho me invadisse a casa... 
Se ao menos uma asa me levasse à nascente 
fugidia que murmura o canto da água
e me emprestasse por momentos a frescura
e o sabor fremente do idioma dos dias...
Que o sol me invadisse de mansinho o colchão
me incendiasse de cor o peito e o ventre
quando a chuva consagra o bosque que 
num dia triste pensei ter erigido ao teu redor.
E pudesse eu subir às alvas palavras penduradas
na antiga eloquência da imaginada ternura!
Confundo-me no granito das escarpas pedregosas
onde o chão escondeu os teus passos para sempre
e as flores bravias teimam em desabrochar.
Trago um lume nos dedos que me consome
lentamente o desejo de tocar-te
se a aurora descobre no luar a cor do barro
numa diáspora de inocente primeira vez 
e os meus olhos iluminam nos escombros da manhã
a sombra longínqua da tua imensa pequenez.





 José Carreras no "Adágio de Albinoni", na realidade um tema composto muito mais tarde por Remo Giazotto, a partir de um pequeno manuscrito deixado por T.Albinoni.