Lisboa, 1927-Lisboa, 1996
"Nem só de carne é feito este presídio, pois no teu corpo existe o mundo todo!"
Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor catedrático na mesma universidade, director do jornal "A Capital" entre 1974-1975, e Secretário de Estado da Cultura entre 1976 e 1979.
Os seus escritos abarcam géneros como o ensaio, a tradução, o teatro, a poesia e o romance.
A sua obra poética ganha relevo sobretudo devido à temática amorosa de rigor formal que não dispensa um lirismo culto, que tanto pode ser subtil como despudorado, plena de intimismo e emotividade.
Vencedor de vários Prémios Literários, que seria fastidioso enumerar, foi também condecorado com o Grau de Grande Oficial da Ordem Militar De Santiago de Espada, em 1981, e recebeu o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Principais obras: "Isolda"(1948), "Contrabando" e "Secreta Viagem"(1950), "Gaivotas em Terra"(1959), "Vinte Poetas Contemporâneos"(1960), "Motim Literário"(1962), "Hospital das Letras"(1966), "Do Tempo ao Coração"(1966), "Sonetos do Cativo"(1974), "Sobre Viventes" e "As Lições do Fogo"(1976), "Lâmpadas no Escuro"(1979), "Os Amantes e Outros Contos"(1968), "As Quatro Estações"(1980), "Um Amor Feliz"(1986)....
TERNURA
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não há mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
in " Infinito Impessoal"
Tela de Benjamin Shiff
A BOCA AS BOCAS
Apenas uma boca A tua boca
Apenas outra A outra tua boca
É Primavera E ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas que sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que boca a minha boca
Mais louca do que boca a tua boca
in "Matura Idade"
Cantado por vários cantores, foi no entanto Amália a primeira a dar-lhe voz e aquela que mais o cantou; fados como "Barco Negro" (com música original de "Mãe Preta" do compositor brasileiro Caco Velho), "Abandono", "Primavera", ou "Madrugada de Alfama", entre muitos outros.
Embora o meu tema preferido seja "Primavera", escolhi outro tema para demonstrar que fado não é só tristeza, e como David Mourão-Ferreira amava Lisboa, "Maria Lisboa" aqui na voz de Mariza.

