Samantha Keeley Smith
"Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho"
Sophia de Mello Breyner
As quilhas carcomidas
dos velhos navios desenham
longe da orla da cidade
o violento ritmo das correntes
alteradas em segredos
de escuridão e bruma,
palco de nereidas com seus tridentes
exibindo longos cabelos de algas
e delicados seios de espuma.
Neptuno comanda o seu séquito
de deuses antigos destronados
ao mesmo tempo que um céu
de chumbo anoitece
tornando cinzento um mar
que nunca adormece
na insónia das ilhas de um destino
de saudade sem regresso
condensando no pranto
de um triste fado
a tormenta e o seu avesso.
Lancei ao mar
todos os meus desígnios e ideais
e a imaginada fortaleza
desfez-se em abismo e estranheza
sepultada para sempre
num cemitério de areia e de corais
quando em todos os restos
de vidas vencidas
descansavam os lemes em todos os cais
e as amarras, outrora fortes
sucumbem agora apodrecidas
perto de monstros marinhos
austeros e com caudas de golfinhos,
estátuas líquidas de tritões;
água doce deslizando
fragilidades e encenações.
Gestos gastos de velhos mareantes
e olhares vazios de mulheres
que perderam em vendavais
os seus temerários amantes.
Às vezes pergunto-me porque choro...
Persegue-me o luto dos náufragos
como se na descida das marés
um ar frio e inodoro
me atirasse o mundo aos pés.
O meu amor é um barco roto
por onde a água e o sal
invadiram o convés
e já nem sei
se é a bombordo ou estibordo
que a ventania se levanta,
se é à proa ou à popa
que cada marinheiro se espanta.
Nas ondas cavadas sinto caladas
todas as mudas mortes
que me aconteceram.
Das frias profundezas ancoradas
sobem à superfície das águas
clamando na voz dos búzios
todas as mágoas.
Que zarpem
agonizantes e moribundas
e para sempre afoguem
do amor salgado
as suas cicatrizes fundas.
Fado Insulano, do álbum "Fados, Fantasmas e Folias" de Zeca Medeiros. Aqui com Rui Veloso.









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