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Escrevo essencialmente para me libertar da dor"
Maria do Rosário Pedreira nasceu em Lisboa em 1959. Licenciada em Estudos Franceses e Ingleses, a sua obra divide-se pela ficção, romance, crónica, ensaio e literatura juvenil, género a que não será alheio a sua passagem pelo ensino de Português e Francês. Tem também o curso de Língua e Cultura do Instituto Italiano em Portugal e a frequência de 4 anos no Goethe Institut.
Directora das Publicações da Sociedade Portugal-Frankfurt 97 e editora dos catálogos oficiais temáticos da Expo' 98, passou pela editora Quid Novi, Temas e Debates, e Gradiva, tendo integrado depois o Grupo Leya.
Principais obras: "O Clube das Chaves" (em co-autoria com M. Teresa Gonzalez, 21 vols, entre 1989 e 1998), "Detective Maravilhas" (19 vols desde 1997), "Alguns Homens Duas Mulheres e Eu" (1993), "A Casa e o Cheiro dos Livros" (1996), "O Canto do Vento nos Ciprestes" (2001), "Nenhum Nome Depois" (2004), e "Poesia Reunida" (2012).
Uma escritora que segundo as suas próprias palavras prefere "claramente a leitura e a vida à escrita"(in diário digital, 19-9-2012). A sua poesia de carácter romântico constitui um lamento suave em relação à perda e à ausência, ao sentimento de abandono que expõe a casa como local onde a memória vive no que ficou do amor, no cheiro dos livros, na solidão, e nos gatos que nela procuram abrigo. O reduto onde a instabilidade do Eu mergulha em busca de identidade.
Dela escolhi dois poemas.
DEI-TE O MEU CORPO COMO QUEM ESTENDE UM MAPA ANTES DE VIAGEM
Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes de viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o Verão. Se me tivesses
tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.
Mas afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo
dos teus gestos apenas conjecturas, sombras
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E , ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.
VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO
Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.
Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha :
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos
que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.
Escolhi contudo, António Zambujo em Flagrante, uma letra com muito sentido de humor.
A autora tem também um blog com crónicas muito interessantes.
Aqui