sábado, 27 de dezembro de 2014

Epitáfio


"Já repararam como é bom dizer 'o ano passado'? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem..." Mário Quintana




Na hora em que de ti já pouco resta
a noite será friamente escura
iluminada por fogo de artifício.
E o jardim de luz lançado a certa altura
túmulo de tempo; um desperdício,
desaba sobre a terra em sepultura.

Abram-se todas as janelas e portas,
que o novo ano nelas entre!
Saudade; que o vento a afaste
para o mutismo de todas as coisas mortas
e se desfraldem bandeiras a meia-haste.




Para terminar o ano, A Despedida (Der Abschied), sexta parte da Canção da Terra (Das Lied von der Erde) de Gustav Mahler.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sono


                                                      Noite Estrelada, V.van Gogh


"Quero dormir e sonhar um sonho que em cor me afogue:
Verdes e azuis de Renoir
amarelos de Van Gogh."
                                             A. Gedeão in Movimento Perpétuo




                                        Adoro o silêncio das ermidas
                                        agradam-me os ecos nos prados.
                                        Risos de crianças, vozes bebidas,
                                        gestos que dispensam ser falados.

                                        Trilhos tortuosos dos regatos
                                         p'las escarpas íngremes dos montes,
                                         o som das cotovias p'los matos
                                         o musgo a adornar todas as fontes.

                                         Noite a lançar estrelas sobre a terra
                                         se da dor do dia me despeço
                                         e nos seus braços me aconchego.

                                         Branda luz que a madrugada encerra
                                         quando no seu colo adormeço
                                         e o meu sono é fundo desapego. 




 "Starry Starry Night" de Don McLean.


Para quem aprecia, aqui está uma curiosa animação de Petros Vrellis sobre a Noite Estrelada de Van Gogh




quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Maria do Rosário Pedreira


"Escrevo essencialmente para me libertar da dor"

 Maria do Rosário Pedreira nasceu em Lisboa em 1959. Licenciada em Estudos Franceses e Ingleses, a sua obra divide-se pela ficção, romance, crónica, ensaio e literatura juvenil, género a que não será alheio a sua passagem pelo ensino de Português e Francês. Tem também o curso de Língua e Cultura do Instituto Italiano em Portugal e a frequência de 4 anos no Goethe Institut.
 Directora das Publicações da Sociedade Portugal-Frankfurt 97 e editora dos catálogos oficiais temáticos da Expo' 98, passou pela editora Quid Novi, Temas e Debates, e Gradiva, tendo integrado depois o Grupo Leya.
  Principais obras: "O Clube das Chaves" (em co-autoria com M. Teresa Gonzalez, 21 vols, entre 1989 e 1998), "Detective Maravilhas" (19 vols desde 1997), "Alguns Homens Duas Mulheres e Eu" (1993), "A Casa e o Cheiro dos Livros" (1996), "O Canto do Vento nos Ciprestes" (2001), "Nenhum Nome Depois" (2004), e "Poesia Reunida" (2012).
 Uma escritora que segundo as suas próprias palavras prefere "claramente a leitura e a vida à escrita"(in diário digital, 19-9-2012). A sua poesia de carácter romântico constitui um lamento suave em relação à perda e à ausência, ao sentimento de abandono que expõe a casa como local onde a memória vive no que ficou do amor, no cheiro dos livros, na solidão, e nos gatos que nela procuram abrigo. O reduto onde a instabilidade do Eu mergulha em busca de identidade.
 Dela escolhi dois poemas. 


DEI-TE O MEU CORPO COMO QUEM ESTENDE UM MAPA ANTES DE VIAGEM


Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes de viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o Verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E , ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

                                 
           

VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO


Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume  
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha :
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



M. do Rosário Pedreira  tem escrito também excelente letras para canções, como é o caso de Nas Linhas da Minha Mão, para Ricardo Ribeiro, Fado com Dono, para Aldina Duarte, Pontas Soltas, para Carlos do Carmo e Ricardo Ribeiro, Sem Palavras, Carlos do Carmo, aqui com Maria João Pires.
 Escolhi contudo, António Zambujo em Flagrante, uma letra com muito sentido de humor.
          


A autora tem também um blog com crónicas muito interessantes. Aqui


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Reguila


"Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação, e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono" Millôr Fernandes




A minha mãe 
desperta-me cedinho.
Prepara-me para a escola,
serve-me leite e carinho.

Aprendo letras e versos,
a escrever e a contar, 
salto ao eixo, jogo à bola.
Se me empurram e se caio
eu finjo não me aleijar.

A minha mãe
diz que tenho que estudar,
e de tanto fingir que estudo
acabo por tanto aprender...
Diz-me que sou bonito
e nisso eu até acredito
porque sou lindo a valer!

A minha mãe 
é serena, bela e doce
e trata-me como se eu fosse
o seu pequenino rei.
Ah como eu sei
como ela gosta de mim!
Mas quando me avista da janela
e me chama p'ra jantar
finjo que não dou por ela
e continuo a brincar.

Depois mais tarde ao serão,
minha mãe conta uma história
e embala uma canção,
derrama muita ternura
no berço do meu irmão.
E na hora de dormir
cobre-me de tantos beijos,
aconchega-me o lençol...
Eu finjo que me aborreço,
e só ao adormecer 
eu desisto de fingir
e durmo até o sol nascer.




Canção de Embalar, Zeca Afonso