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terça-feira, 10 de março de 2015

Castelos no Ar



" O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é o que lhe dá existência. O engano em que ele vive, é o que lhe dá vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma."  
Teixeira de Pascoaes 
         




 Somos vítimas de uma séria sobriedade. De uma normalidade rasante que, de mãos dadas com a banalidade, nos faz povoar a vida de preconceitos todos os dias.
 Encharcamo-nos de uma pretensa intelectualidade que não passa de mera soma de conhecimentos e graus, degraus para um estatuto, mas fechamo-nos ao mundo que aí está à nossa frente, pleno de mistérios e sedutor no chamamento.
 Não existem tisanas ou secretos poderes, tágides ou bardos, corações em tumulto, ou estrofes escritas no silêncio da noite, que nos concedam a coragem de ser quem somos. O ideal foge, raramente regressa, e quando se viajou pelos astros, a redonda e pequena terra azul, parece um pântano; um lugarejo de sensações malditas que cavalo altivo transportou não se sabe como... Afogamo-nos na inocência de interditos, em liberdades impossíveis, em limites inevitáveis. Castram-nos e castramo-nos em enredos e receios que nos devoram a vontade. 
 Passamos a vida em contenção e abstinência, pecando por excesso ou por defeito. Será melhor o menos ou o mais? Devemos ser famintos, ou rebentar de abundância?... Somos tão reticentes ...Tentamos conter a seiva, o sémen, o riso e as palavras, numa sociedade que desconfia da franca alegria e faz apanágio do sacrifício. Que exaspera se os rios secam, que desespera se transbordam, que defende o apriosionamento em vez da libertação. Que rejeita que a natureza erre, se confunda, ou se exceda sem substanciais propósitos.
 Tornemo-nos então, maníacos da decepção; mera consequência da nossa irresponsabilidade, ao construir castelos no ar, não tratando de estabelecer os respectivos alicerces. Prefiramos a mentirosa aparência das coisas ao seu real valor, porque somos o nosso próprio contra-senso, e o corpo pode ser uma cama desconfortável para a alma. Esvaziemo-nos de claras intenções, e afoguemos a inocente genialidade em monótona vulgaridade. Sobretudo que não ousemos pensar. Muito menos sentir. Não gostemos verdadeiramente de nada, e se amarmos, que o façamos com parcimónia. Preferível que tudo nos seja mais ao menos indiferente. Não olhemos à nossa volta, muito menos para dentro de nós, a não ser para que, a partir da nossa própria imagem no espelho, nos desintegremos e fiquemos diante de nós como não imaginávamos ; uma imensidão de átomos que se julgaram importante matéria. Esqueçamos a singularidade da qual somos feitos.
 Existiu um rio onde mirei o meu olhar. Dois passos adiante, o rio não estava lá. Nem a minha imagem, nem eu.
 O dia está triste?...Nem pensar!...É apenas o meu olhar a demorar-se em breve diáspora sobre um horizonte de estepes adormecidas.





De Don McLean, Castles in the Air.
  

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sono


                                                      Noite Estrelada, V.van Gogh


"Quero dormir e sonhar um sonho que em cor me afogue:
Verdes e azuis de Renoir
amarelos de Van Gogh."
                                             A. Gedeão in Movimento Perpétuo




                                        Adoro o silêncio das ermidas
                                        agradam-me os ecos nos prados.
                                        Risos de crianças, vozes bebidas,
                                        gestos que dispensam ser falados.

                                        Trilhos tortuosos dos regatos
                                         p'las escarpas íngremes dos montes,
                                         o som das cotovias p'los matos
                                         o musgo a adornar todas as fontes.

                                         Noite a lançar estrelas sobre a terra
                                         se da dor do dia me despeço
                                         e nos seus braços me aconchego.

                                         Branda luz que a madrugada encerra
                                         quando no seu colo adormeço
                                         e o meu sono é fundo desapego. 




 "Starry Starry Night" de Don McLean.


Para quem aprecia, aqui está uma curiosa animação de Petros Vrellis sobre a Noite Estrelada de Van Gogh