Escolhi para este Dia Mundial da Poesia, um dos meus poetas de eleição; Eugénio de Andrade, o poeta do corpo e da claridade. Aqui está um poema de um erotismo fresco, a condizer com a chegada da Primavera.
NAS ERVAS
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te; eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
Eugénio de Andrade, in Chuva sobre o Rosto
E como a poesia vive de palavras, Lahsa de Sela, "Con Toda Palabra".
" O homem é um castelo feito no ar. O que ele tem de não existente, é o que lhe dá existência. O engano em que ele vive, é o que lhe dá vida. Toda a realidade do seu corpo se firma na mentira da sua alma."
Teixeira de Pascoaes
Somos vítimas de uma séria sobriedade. De uma normalidade rasante que, de mãos dadas com a banalidade, nos faz povoar a vida de preconceitos todos os dias.
Encharcamo-nos de uma pretensa intelectualidade que não passa de mera soma de conhecimentos e graus, degraus para um estatuto, mas fechamo-nos ao mundo que aí está à nossa frente, pleno de mistérios e sedutor no chamamento.
Não existem tisanas ou secretos poderes, tágides ou bardos, corações em tumulto, ou estrofes escritas no silêncio da noite, que nos concedam a coragem de ser quem somos. O ideal foge, raramente regressa, e quando se viajou pelos astros, a redonda e pequena terra azul, parece um pântano; um lugarejo de sensações malditas que cavalo altivo transportou não se sabe como... Afogamo-nos na inocência de interditos, em liberdades impossíveis, em limites inevitáveis. Castram-nos e castramo-nos em enredos e receios que nos devoram a vontade.
Passamos a vida em contenção e abstinência, pecando por excesso ou por defeito. Será melhor o menos ou o mais? Devemos ser famintos, ou rebentar de abundância?... Somos tão reticentes ...Tentamos conter a seiva, o sémen, o riso e as palavras, numa sociedade que desconfia da franca alegria e faz apanágio do sacrifício. Que exaspera se os rios secam, que desespera se transbordam, que defende o apriosionamento em vez da libertação. Que rejeita que a natureza erre, se confunda, ou se exceda sem substanciais propósitos.
Tornemo-nos então, maníacos da decepção; mera consequência da nossa irresponsabilidade, ao construir castelos no ar, não tratando de estabelecer os respectivos alicerces. Prefiramos a mentirosa aparência das coisas ao seu real valor, porque somos o nosso próprio contra-senso, e o corpo pode ser uma cama desconfortável para a alma. Esvaziemo-nos de claras intenções, e afoguemos a inocente genialidade em monótona vulgaridade. Sobretudo que não ousemos pensar. Muito menos sentir. Não gostemos verdadeiramente de nada, e se amarmos, que o façamos com parcimónia. Preferível que tudo nos seja mais ao menos indiferente. Não olhemos à nossa volta, muito menos para dentro de nós, a não ser para que, a partir da nossa própria imagem no espelho, nos desintegremos e fiquemos diante de nós como não imaginávamos ; uma imensidão de átomos que se julgaram importante matéria. Esqueçamos a singularidade da qual somos feitos.
Existiu um rio onde mirei o meu olhar. Dois passos adiante, o rio não estava lá. Nem a minha imagem, nem eu.
O dia está triste?...Nem pensar!...É apenas o meu olhar a demorar-se em breve diáspora sobre um horizonte de estepes adormecidas.