O dinheiro e o desejo incontrolável de obtê-lo, sobe de tal forma à cabeça de certas pessoas que tudo o resto à volta fica turvo e ausente de sentido se não estiver envolto em notas, não das musicais , susceptíveis de harmonizar os dias e as noites, mas das outras, das que não raras vezes criam desarmonia a todos as horas.
Há um certo tempo tomei conhecimento de uma história que não esqueci. E nada mais interessante que um relato verdadeiro para nos fazer reflectir sobre os desvarios irremediáveis de certa gente.
Jorge Mário de Carvalho, empresário já reformado de uma empresa pertencente a um grupo criado pelo seu pai, comendador Manuel Carvalho, decide no ano 2000 oferecer, a título particular, 160 jips da marca Honda no valor de dois milhões e quinhentos mil euros aos seus funcionários da empresa "Alcatifas da Lousã", da qual era um dos sócios. Decisão talvez influenciada pelo exemplo do pai que tinha oferecido bicicletas aos seus empregados muitas décadas antes.
Foi entregue em Janeiro desse ano um cheque no valor de quatrocentos e cinquenta mil euros para sinalizar o contracto de compra das viaturas. Solteiro e sem filhos, acabaria também por deixar grande parte dos seus bens à mulher com quem vivia; o que deve ter sido desde logo uma afronta a irmãos e um dos sobrinhos, contudo a oferta de um jip a cada um dos trabalhadores da fábrica, gente que nem deve ter onde cair morta, deve ter sido algo de absolutamente inadmissível para sanguessugas convictas de que o que aos seus familiares pertence, só a eles pertencerá um dia, não tendo qualquer valor a vontade expressa do dono do dinheiro.
Enquanto ao longo da vida o empresário foi apoiando diversas instituições humanitárias, desportivas e culturais da terra, ainda vá que não vá, mas ter esta insana ideia peregrina quando já os herdeiros esperavam que a maior parte do bolo lhes caísse nas mãos, foi talvez ofensa demasiadamente profunda para poder ser tolerada. O homem só poderia ter perdido o juízo!...
Dois irmãos e um sobrinho do benemérito instauraram à velocidade da luz, uma acção de inabilitação como forma de oposição ao negócio, invocando o pressuposto de que J. Carvalho teria de ser "defendido dele próprio" para evitar "actos ruinosos" que delapidariam o seu património, que padeceria de doença psíquica há mais de vinte e cinco anos, o que retiraria legitimidade às suas decisões por ser incapaz de gerir os seus bens. Sofreria de doença bipolar, como se tal doença fosse sinónimo de demência.
Altruísmo parece ser enfermidade para insaciáveis abutres. Um homem apontado como incapaz apenas porque decide reconhecer que toda a sua riqueza tem na sua origem a dedicação permanente dos seus operários, que dessa riqueza não se tornou escravo, e que por isso os quer recompensar.... Mostrar nobreza de carácter é inaceitável para homens com espírito de chacal. Como se alguém não pudesse fazer do seu dinheiro o que lhe apetecer.
O processo só chegaria a julgamento em 2010, cinco anos após a morte do empresário aos 70 anos, impossibilitado de cumprir a promessa, tendo sido adiado para 2011, num caso bem demonstrativo da lentidão da nossa Justiça. O tribunal declararia que J. Carvalho era pessoa com capacidade para decidir sobre o seu património, e que suas deliberações deveriam ser cumpridas.
Para alguns dos seus familiares talvez tivesse sido de louvar que a fábrica tivesse sido levada à falência arrastando para a miséria os que lá trabalhavam e daí lavar as mãos como Pilatos...
De salientar em todo este processo a oposição de um dos sobrinhos, António Carvalho Pinheiro, testemunha abonatória do tio, afirmando sempre que este "sabia o que fazia".
Jorge Carvalho dá nome a uma das ruas de um bairro social ocupado maioritariamente por funcionários seus, curiosamente intitulado "Os Carvalhos".
Um senhor talvez crente de que a riqueza só se justifica quando partilhada por quem a criou sem exigi-la, e por isso merece dela uma fatia.
Fonte: Jornal de Notícias e SIC Notícias
Como fico sempre atónita com situações destas, escolhi hoje não uma curta, mas uma curtíssima, de cariz surreal intitulada "Buraco Negro", dirigida por Phil Sansom e Olly Williams.


