Mostrar mensagens com a etiqueta justiça. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta justiça. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O homem enlouqueceu!


                                                                                 Ganância de Dr Voyour



 O dinheiro e o desejo incontrolável de obtê-lo, sobe de tal forma à cabeça de certas pessoas que tudo o resto à volta fica turvo e ausente de sentido se não estiver envolto em notas, não das musicais , susceptíveis de harmonizar os dias e as noites, mas das outras, das que não raras vezes criam desarmonia a todos as horas.
 Há um certo tempo tomei conhecimento de uma história que não esqueci. E nada mais interessante que um relato verdadeiro para nos fazer reflectir sobre os desvarios irremediáveis de certa gente.
 Jorge Mário de Carvalho, empresário já reformado de uma empresa pertencente a um grupo criado pelo seu pai, comendador Manuel Carvalho, decide no ano 2000 oferecer, a título particular, 160 jips da marca Honda no valor de dois milhões e quinhentos mil euros aos seus funcionários da empresa "Alcatifas da Lousã", da qual era um dos sócios. Decisão talvez influenciada pelo exemplo do pai que tinha oferecido bicicletas aos seus empregados muitas décadas antes.
 Foi entregue em Janeiro desse ano um cheque no valor de quatrocentos e cinquenta mil euros para sinalizar o contracto de compra das viaturas. Solteiro e sem filhos, acabaria também por deixar grande parte dos seus bens à mulher com quem vivia; o que deve ter sido desde logo uma afronta a irmãos e um dos sobrinhos, contudo a oferta de um jip a cada um dos trabalhadores da fábrica, gente que nem deve ter onde cair morta, deve ter sido algo de absolutamente inadmissível para sanguessugas convictas de que o que aos seus familiares pertence, só a eles pertencerá um dia, não tendo qualquer valor a vontade expressa do dono do dinheiro.
 Enquanto ao longo da vida o empresário foi apoiando diversas instituições humanitárias, desportivas e culturais da terra, ainda vá que não vá, mas ter esta insana ideia peregrina quando já os herdeiros esperavam que a maior parte do bolo lhes caísse nas mãos, foi talvez ofensa demasiadamente profunda para poder ser tolerada. O homem só poderia ter perdido o juízo!...
 Dois irmãos e um sobrinho do benemérito instauraram à velocidade da luz, uma acção de inabilitação como forma de oposição ao negócio, invocando o pressuposto de que J. Carvalho teria de ser "defendido dele próprio" para evitar "actos ruinosos" que delapidariam o seu património, que padeceria de doença psíquica há mais de vinte e cinco anos, o que retiraria legitimidade às suas decisões por ser incapaz de gerir os seus bens. Sofreria de doença bipolar, como se tal doença fosse sinónimo de demência.
 Altruísmo parece ser enfermidade para insaciáveis abutres. Um homem apontado como incapaz apenas porque decide reconhecer que toda a sua riqueza tem na sua origem a dedicação permanente dos seus operários, que dessa riqueza não se tornou escravo, e que por isso os quer recompensar.... Mostrar nobreza de carácter é inaceitável para homens com espírito de chacal. Como se alguém não pudesse fazer do seu dinheiro o que lhe apetecer.
 O processo só chegaria a julgamento em 2010, cinco anos após a morte do empresário aos 70 anos, impossibilitado de cumprir a promessa, tendo sido adiado para 2011, num caso bem demonstrativo da lentidão da nossa Justiça. O tribunal declararia que J. Carvalho era pessoa com capacidade para decidir sobre o seu património, e que suas deliberações deveriam ser cumpridas.
 Para alguns dos seus familiares talvez tivesse sido de louvar que a fábrica tivesse sido levada à falência arrastando para a miséria os que lá trabalhavam e daí lavar as mãos como Pilatos...
 De salientar em todo este processo a oposição de um dos sobrinhos, António Carvalho Pinheiro, testemunha abonatória do tio, afirmando sempre que este "sabia o que fazia".
Jorge Carvalho dá nome a uma das ruas de um bairro social ocupado maioritariamente por funcionários seus, curiosamente intitulado "Os Carvalhos".
 Um senhor talvez crente de que a riqueza só se justifica quando partilhada por quem a criou sem exigi-la, e por isso merece dela uma fatia.
 Fonte: Jornal de Notícias e SIC Notícias



Como fico sempre atónita com situações destas, escolhi hoje não uma curta, mas uma curtíssima, de cariz surreal intitulada "Buraco Negro", dirigida por Phil Sansom e Olly Williams.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Justiça




"O hábito cria a impressão de justiça e não existe maior inimigo para o progresso que o hábito"
J.J. Martí Pérez



 Estive a pensar, algo que faço raramente, já que os meus fracos neurónios se têm recusado a sair do seu estado de letargia e preguiça; que não existirá por certo, povo que goste de dar tiros nos próprios pés, como nós, portugueses. Donos de uma história secular de ousadia, imaginação e luta, muitas vezes de desenrascanço. De ideais por vezes vagos, mas aventureiros de forte relação umbilical com este cantinho, mesmo quando longe dele.
 Uma sociedade repleta de proezas, também de falta de orientação, ilusão, com laivos de energia para remediar situações. Um país com traços de megalomania; iludido com desejos de grandeza que a nossa pequenez geográfica, situação periférica e império perdido, não deveriam inspirar. Um delírio de ambição promiscuamente mesclado de sensibilidade e de saudade. E o problema é que nos temos vindo a tornar satélites de nós mesmos, à volta de um pretenso eixo de um passado ilusoriamente instituído como razão do nosso existir, ao redor do qual teremos de deixar de gravitar, e prontamente pensar o futuro. D. Sebastião não voltará, com nevoeiro, ou sem ele...Cansei-me de ver tanta gente apenas com apego às suas longas caudas, erro crasso de qualquer indivíduo; o de olhar mais para trás do que para a frente.
 Tanto tempo perdido. Eu própria, não passo de uma "despassarada" ridícula, uma cabeça de vento que sonhava mudar o mundo, quando nem o meu pequeno universo fui capaz de mudar.Permaneço contudo uma "fora-da-lei" com intrincado sentido de justiça, e vulnerável em relação à injustiça.
 Ocorre-me a frase preferida dos nossos eméritos políticos de que "À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer", como se César fosse, claro, exemplo máximo de virtude. E a importância do parecer não admira, vindo dos nossos responsáveis pela res pública, alguns deles pretendendo ter cursos que nunca tiveram, fantochada tendo na sua origem o descriminatório pressuposto de que uma licenciatura seria garantia de idoneidade, inteligência e competência, atributos que desconhecem. Exacerbam em discurso enganador que todos são iguais perante a Lei, quando em termos práticos, a Lei não é igual para todos, num sistema de Justiça de curvas e contra-curvas, rotundas, atalhos, escapatórias, com vírgulas e pontos onde não deveriam existir. Formas de atrasar, subverter ou negar a Justiça, tornando injustos, julgamentos que deveriam ter como resultado a transmissão de uma consciência da Humanidade, e não uma distinção entre ricos e pobres, através de diferentes possibilidades de acesso à Justiça, que deveria responder ao direito do mais fraco, mas de tão inflexível, cria o caos, um almejo, apenas uma esperança de justiça, inflingindo estocadas  numa sociedade cada vez mais deprimida.
 Todos sabemos que deveríamos ser puros, sérios, honestos em todos os actos da nossa vida, mas o erro  espreita a cada esquina. E Perfeito, só havia um, e jogava no Belenenses... Contudo só a injustiça precisa de muita elaboração, de infindável argumentação, de recursos, de prescrições.
 Não falo aqui do extraordinário Alves dos Reis, do famoso"Troca-Tintas", gatuno e assassino, ou de Guilhermina Adelaide, perita em apropriação de tudo o que a sua vista podia alcançar, mas cujos "modos aristocráticos a punham ao abrigo de suspeitas", nem do mais recente cabo Costa, devoto de Nossa Senhora e de Salazar, e assassino de jovens raparigas nas horas vagas. Ou do caso BPN, exemplo magistral de alta corrupção, como se fazer desaparecer milhões tornasse nobre tal acto. Dou como exemplo a tentativa de furto, ocorrida em 2010, de duas embalagens de comida para cão no valor de 0,98€. Existe um prazo de 6 meses para apresentar queixa,que o Lidl não deixa nunca passar, levando qualquer tipo de transgressão aos tribunais portugueses.Estas empresas conhecem bem a Lei e sabem que as despesas serão do Estado. O  Ministério Público propôs inicialmente uma pena de 10 horas de trabalho comunitário, mas voltou atrás devido ao facto de a ré ser já reincidente. Uma senhora  que reincide em bagatelas! Porque não decidiu ela tomar como seu algo de decente, ao menos?..O processo esteve em julgamento durante dois anos,  foi condenada em  200€, mas vai recorrer, continuando com apoio judiciário.
 Que fastidioso escrever sobre isto! Que aborrecimento esta desproporcionalidade de tratamento. Roubar maçãs ou comida para cão não é exactamente o mesmo que desviar milhões, ou a dignidade de alguém. Deveria haver proporcionalidade entre a pena e o valor roubado. Mas, o que é na verdade um desvio astronómico, comparado com um roubo de comida para cão? Alimentação para animais, em ambos os casos. No caso dos milhões não vejo ninguém a apoquentar-se muito...
 Receio que meio século perdido numa ditadura asfixiante e de falta de instrução, continue ainda a tentar reduzir Portugal a Fado, Fátima e Futebol, como se a forma mudasse, mas a substância da desigualdade permanecesse...
Ouvi dizer que Isaltino Morais vai já no seu 44º recurso! A lutar contra condenações de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e abuso de poder. Desplante? Não, utiliza apenas os estratagemas que o sistema judicial permite a quem tem dinheiro. E o senhor até é jurista.
 Justiça com atraso deixa de ser Justiça. Passa a ser injustiça aceite institucionalmente.



Para ilustrar esta imagem de homens ilustres, nada melhor do que "Salvem os Ricos", num hino sempre actual, porque como sabemos, Natal é sempre que um homem quiser. 
Os Contemporâneos