terça-feira, 16 de abril de 2013

Justiça




"O hábito cria a impressão de justiça e não existe maior inimigo para o progresso que o hábito"
J.J. Martí Pérez



 Estive a pensar, algo que faço raramente, já que os meus fracos neurónios se têm recusado a sair do seu estado de letargia e preguiça; que não existirá por certo, povo que goste de dar tiros nos próprios pés, como nós, portugueses. Donos de uma história secular de ousadia, imaginação e luta, muitas vezes de desenrascanço. De ideais por vezes vagos, mas aventureiros de forte relação umbilical com este cantinho, mesmo quando longe dele.
 Uma sociedade repleta de proezas, também de falta de orientação, ilusão, com laivos de energia para remediar situações. Um país com traços de megalomania; iludido com desejos de grandeza que a nossa pequenez geográfica, situação periférica e império perdido, não deveriam inspirar. Um delírio de ambição promiscuamente mesclado de sensibilidade e de saudade. E o problema é que nos temos vindo a tornar satélites de nós mesmos, à volta de um pretenso eixo de um passado ilusoriamente instituído como razão do nosso existir, ao redor do qual teremos de deixar de gravitar, e prontamente pensar o futuro. D. Sebastião não voltará, com nevoeiro, ou sem ele...Cansei-me de ver tanta gente apenas com apego às suas longas caudas, erro crasso de qualquer indivíduo; o de olhar mais para trás do que para a frente.
 Tanto tempo perdido. Eu própria, não passo de uma "despassarada" ridícula, uma cabeça de vento que sonhava mudar o mundo, quando nem o meu pequeno universo fui capaz de mudar.Permaneço contudo uma "fora-da-lei" com intrincado sentido de justiça, e vulnerável em relação à injustiça.
 Ocorre-me a frase preferida dos nossos eméritos políticos de que "À mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer", como se César fosse, claro, exemplo máximo de virtude. E a importância do parecer não admira, vindo dos nossos responsáveis pela res pública, alguns deles pretendendo ter cursos que nunca tiveram, fantochada tendo na sua origem o descriminatório pressuposto de que uma licenciatura seria garantia de idoneidade, inteligência e competência, atributos que desconhecem. Exacerbam em discurso enganador que todos são iguais perante a Lei, quando em termos práticos, a Lei não é igual para todos, num sistema de Justiça de curvas e contra-curvas, rotundas, atalhos, escapatórias, com vírgulas e pontos onde não deveriam existir. Formas de atrasar, subverter ou negar a Justiça, tornando injustos, julgamentos que deveriam ter como resultado a transmissão de uma consciência da Humanidade, e não uma distinção entre ricos e pobres, através de diferentes possibilidades de acesso à Justiça, que deveria responder ao direito do mais fraco, mas de tão inflexível, cria o caos, um almejo, apenas uma esperança de justiça, inflingindo estocadas  numa sociedade cada vez mais deprimida.
 Todos sabemos que deveríamos ser puros, sérios, honestos em todos os actos da nossa vida, mas o erro  espreita a cada esquina. E Perfeito, só havia um, e jogava no Belenenses... Contudo só a injustiça precisa de muita elaboração, de infindável argumentação, de recursos, de prescrições.
 Não falo aqui do extraordinário Alves dos Reis, do famoso"Troca-Tintas", gatuno e assassino, ou de Guilhermina Adelaide, perita em apropriação de tudo o que a sua vista podia alcançar, mas cujos "modos aristocráticos a punham ao abrigo de suspeitas", nem do mais recente cabo Costa, devoto de Nossa Senhora e de Salazar, e assassino de jovens raparigas nas horas vagas. Ou do caso BPN, exemplo magistral de alta corrupção, como se fazer desaparecer milhões tornasse nobre tal acto. Dou como exemplo a tentativa de furto, ocorrida em 2010, de duas embalagens de comida para cão no valor de 0,98€. Existe um prazo de 6 meses para apresentar queixa,que o Lidl não deixa nunca passar, levando qualquer tipo de transgressão aos tribunais portugueses.Estas empresas conhecem bem a Lei e sabem que as despesas serão do Estado. O  Ministério Público propôs inicialmente uma pena de 10 horas de trabalho comunitário, mas voltou atrás devido ao facto de a ré ser já reincidente. Uma senhora  que reincide em bagatelas! Porque não decidiu ela tomar como seu algo de decente, ao menos?..O processo esteve em julgamento durante dois anos,  foi condenada em  200€, mas vai recorrer, continuando com apoio judiciário.
 Que fastidioso escrever sobre isto! Que aborrecimento esta desproporcionalidade de tratamento. Roubar maçãs ou comida para cão não é exactamente o mesmo que desviar milhões, ou a dignidade de alguém. Deveria haver proporcionalidade entre a pena e o valor roubado. Mas, o que é na verdade um desvio astronómico, comparado com um roubo de comida para cão? Alimentação para animais, em ambos os casos. No caso dos milhões não vejo ninguém a apoquentar-se muito...
 Receio que meio século perdido numa ditadura asfixiante e de falta de instrução, continue ainda a tentar reduzir Portugal a Fado, Fátima e Futebol, como se a forma mudasse, mas a substância da desigualdade permanecesse...
Ouvi dizer que Isaltino Morais vai já no seu 44º recurso! A lutar contra condenações de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e abuso de poder. Desplante? Não, utiliza apenas os estratagemas que o sistema judicial permite a quem tem dinheiro. E o senhor até é jurista.
 Justiça com atraso deixa de ser Justiça. Passa a ser injustiça aceite institucionalmente.



Para ilustrar esta imagem de homens ilustres, nada melhor do que "Salvem os Ricos", num hino sempre actual, porque como sabemos, Natal é sempre que um homem quiser. 
Os Contemporâneos






25 comentários:

  1. Estou abismada com a tua exposição. Talvez dos melhores tratados anti-nossa-justiça que já tive oportunidade de ler. Eu resumiria dizendo que somos de brandos costumes, e que vamos permitindo estas loucuras alheias sem darmos um tiro nessas pessoas que nos vão gozando, nos que estão acima da lei, que não passam de uns fora-de-lei!!!

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    1. Oh R., não lhe chamemos um tratado, só que o texto que fiz inicialmente, e que cortei muito, para não aborrecer tanto, era realmente quase um tratado, com alusões a questões técnicas sobre as quais me tentei instruir...:-)
      Sim há quem esteja acima da lei. O sistema judicial foi criado à medida das necessidades que lhes podem surgir. Flexível para uns, inflexível para outros, mas sempre lento.

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    2. Com corrupção sempre na sua base.

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    3. Não, corrupção é o que o sistema judicial permitirá a alguns. Na base , eu diria que existe um "dirigismo" para tal.

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    4. Eu não diria então que a Justiça é cega, mas que a Justiça é bisgarolha. :-P

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    5. Bisgarolha! Aaaahhh! Exactamente...Só tu.....:-)

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  2. Houvesse Justiça outro galo cantaria, como não há... são sempre os mesmos no poleiro.

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    1. Exactamente, Rui, mas é tudo um ciclo vicioso, uma pescadinha de rabo na boca, um vira o disco, e toca o mesmo. Por isso a verdadeira educação para a autonomia, e para pensar pela própria cabeça não interessa.
      Por um lado existe o "rebanho", por outro lado, todos aqueles que se demitem de ter voz activa, como se a sociedade não tivesse de ser feita por todos.

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  3. Gostei de ver o Manuel Marques a fazer de Bob Dylan.
    Sofia

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    1. Sim, com aquele ar lamuriento...:-) Também gostei muito do Nuno Lopes como G Michael! Um actor que gosto muito.

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  4. Concordo, fazem as leis para se governarem a eles.

    João Nicolau

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  5. O Nuno Lopes a fazer de George Michael dá-me vontade de rir. Tem os tiques todos.
    Pergunto-me se o Cabo Costa come muito caldo verde nos calabouços, na masmorra...
    Eu não acredito na Justiça. Só na justiça pelas próprias mãos. Chamem-me extremista mas pensem na quantidade de predadores sexuais ricos que por aí andam ao ataque... Aposto que se me apanhassem a mim num pequeno delito género furto de comida mais depressa ia eu ver o sol aos quadradinhos que a vara de porcos que é o esquadrão de pedófilos da alta sociedade que por aí anda. Bah. Aos olhos da Justiça uns são filhos, outros são enteados - infelizmente, e salvo raras excepções.

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    1. Calabouços, masmorra? Nah!, o sr. Costa está bem acomodado...há que pensar em termos de direitos humanos dos presos, porque as vítimas já eram...:-( Ainda bem que foi totó e não lhe passou pela cabeça que tivesse o telefone sob escuta...
      Sim, tu és uma extremista, justiça pelas próprias mãos é que não...

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  6. Concordo, da primeira a última linha, adorei a lucidez da conclusão. Já pensei tantas vezes neste assunto, nestas situações...chego sempre a mesma conclusão: vai ser preciso muito tempo para resgatar do fundo lusitano o orgulho próprio e muita globalização vai ser precisa ( ou pancadas contra a parede) para q sigamos os bons exemplos, não só na justiça, em muitas outras áreas.

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    1. Obrigada, Harmony. Sim, acho que ainda vai ser necessário " partir muita pedra"...

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  7. O hábito faz o monge!
    Um belo texto sobre o nosso sistema de justiça, e das nossas incapacidades de lutar contra a injustiça.
    A importância da independência do sistema judicial na consolidação da democracia é urgente nos dias de hoje, já que a corrupção e o compadrio andam de mãos dadas desde sempre.
    Concordo com tudo o que foi dito no texto, que revela uma grande lucidez nas suas conclusões.
    Se calhar perdeu-se uma grande juíza?

    Luison

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  8. Sim, o sistema judicial está politicamente minado. O Ministério Público tem vindo, contudo, ultimamente, a fazer um esforço de autonomia....e ainda tenho um pouco de fé que a nova Procurador Geral da República ajude nesse propósito.
    Não, não acho que se tenha perdido uma juíza...:-)

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  9. Laura que belíssimo texto!

    O Sebastianismo e os seus fantasmas quero-os longe,pois sempre que alguém julga que o reencontrou, cobre-se o nosso país de uma neblina escura como breu.

    A justiça é feita para os ricos, sempre foi.
    Mas existe neste momento e vindo a arrastar-se à anos umas vergonhas tamanhas referidas no teu texto que me apetece abanar a Srª Ministra da Justiça que tanto apregoa - acabou-se a impunidade -

    Continua tudo igual ou ainda pior e a srª Ministra, sempre no alto da sua arrogância intolerável é também ela uma das que ganha com os seus gabinetes de advocacia paralelos com casos do estado.

    Isto para não falar de que, sua Exª o Presidente da República e, se não estou em erro, todos os membros do governo vigente são inimputáveis.

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    1. Obrigada Mz. É isso mesmo. Justiça feita à medida dos ricos, e vai continuar a ser assim. E de facto os grandes escritórios de advogados a fornecer governantes e parecem não haver incompatibilidades nenhumas..."Dorme tudo na mesma cama".
      Claro que os governantes são inimputáveis pelo menos enquanto exercerem os seus cargos.A Assembleia da República é a casa dos "intocáveis", cujas comissões parlamentares de inquérito são de morrer a rir. Depois passam à história, e nada lhes acontecerá...É o que temos.

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  10. Extraordinário texto sobre o absurdo da nossa justiça. Gostei da clareza e do sentido de humor.

    Orlando Costa

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    1. Obrigada, Orlando, realmente temos de rir um pouco para não enlouquecer...

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  11. O que escreveu fez-me pensar em assuntos que nunca tinha pensado antes. Às vezes não pensamos no que nos rodeia.
    Manuela Pires

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    1. Se serviu para pensar, não foi tempo perdido, então....:-)

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