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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A visita


Reconstituição de uma cozinha tradicional alentejana no museu de Santiago do Cacém


 Por altura da feira anual, a mãe costurava os mais belos vestidos para estrearmos no regresso ao Alentejo. Embora o insuportável cheiro a gasóleo da "camioneta da carreira" me provocasse náuseas, os milagrosos sais de frutos estariam à chegada, pousados sobre a mesa. Que bom era voltar à aldeia!
 A avó estaria no Largo da Igreja à nossa espera com abraços abertos e mãos calejadas a estalar de ternura. De longos cabelos entrançados num carrapito, cobertos com um lenço que imediatamente tirava ao entrar em casa, como se aquele lenço florido lhe pesasse na cabeça. Por ruas empedradas se chegava à casa desde manhã cedo tomada de assalto pelo desassossego da feira, o grande acontecimento do ano, que trazia ao local muitas vozes de gente e de animais.
 No centro do quintal, nas traseiras, o verde do enorme limoeiro contrastava  com a cal das paredes da casa, e dos muros que apenas deixavam pressentir as copas de algumas oliveiras, chaparros, azinheiras, e velhas eiras nos campos que se estendiam a partir deste canto da aldeia. Os canteiros transbordavam de flores, e a água do poço , do lado direito, projectava luzes trémulas na parede entre a folhagem. Do lado esquerdo, a porta sempre aberta da "cavalariça", que para além de duas éguas e um burro, albergava também algumas galinhas.
 A claridade e a quietude da casa, misturava-se em Setembro com o frenesim de carros e carroças, e a trepidação dos cascos do gado transacionado.  Depois do almoço, os nossos olhos infantis saltitavam sobre bancas com os mais variados produtos e artefactos, mas o ponto alto era o baile da matiné ao som de concertina, num grande salão onde as mulheres se sentavam nas cadeiras encostadas à parede, e os homens se mantinham de pé, à entrada, até que lhes levedasse a afoiteza para convidar as raparigas a um pé de dança.
 À noite todo o brilho do dia se condensava nos candeeiros a petróleo, uma luz difusa e morna que afagava o escaparate com tachos de cobre, os alguidares de barro, a enfusa com água fresca, e as  panelas de ferro sobre a trempe, na lareira onde a avó fazia as migas com carne de porco, e depois o café. Passaríamos o serão a jogar às cartas, enquanto o avô, que não gostava de perder "nem a feijões",  preferia afastar-se com a viola campaniça pela mão, algo que sempre fazia quando queria evitar fazer qualquer outra coisa.
 Adormecíamos sobre uma enorme arca atulhada de sacas de cereais, acolchoada por uma manta de lã bege e castanha, tecida em pequeno tear, relíquia que o avô teria levado para a tropa, e que hoje guardo. Na soleira da porta da cozinha continuaria a dedilhar com mestria as dez cordas do instrumento, até que a avó delicadamente lhe pedisse que não fizesse barulho por serem  horas de deitar. Porque as grandes sensações do mundo repousavam já, debaixo do limoeiro. No tempo em que tudo era perfeito.



Da série documental "O Povo que Canta" do etnomusicólogo Michel Giacometti, um excerto do programa " A Viola Campaniça e o Despique no Baixo Alentejo", de 1971.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Soeiro Pereira Gomes



SOEIRO PEREIRA GOMES

 S. Pereira Gomes ( Baião 1909-Lisboa 1949) foi um dos iniciadores da ficção neo-realista em Portugal. Casado com a compositora Manuela Câncio Reis, escreveu crónicas n' "O Diabo", e publicou "Esteiros" em 1941. "Engrenagem", Refúgio Perdido" e "Contos Vermelhos" foram publicados postumamente.
 Empregado na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra, dinamizou socialmente a vila, organizando conferências sobre temas culturais e desportivos, dirigindo cursos de ginástica, colaborando na montagem de bibliotecas particulares, tendo contribuído para a construção duma piscina popular onde trabalhou como operário.
 Um excerto de "Esteiros", romance sobre os "filhos dos homens que nunca foram meninos", narrativa sobre meninos miseráveis dos esteiros do Tejo. Um história comovente.


"Morava no fim da vila, à beira dos esteiros. Da casa que o pai fizera, toda madeira e lata, viam-se os touros pastar na outra margem e as rotas dos barcos. Havia tufos de junco nos esteiros e lixo abandonado. Mas Gineto sonhava conquistar todas as ruas. Quando pequeno, ainda convertera os esteiros em florestas e rebuscara no lixo brinquedos preciosos. Cedo, porém, se aborreceu daquele recanto monótono, só água e planície. A floresta dava-lhe pela cinta - era junco - e o lixo era lixo, apenas. Começaram então as fugas para a rua. A mãe bem lhe dizia ao fechar a porta:
- Toma-me conta do pequeno! - Mas ele deixava o irmão a gatinhar na lama, e ia alvoroçar os garotos seus iguais. Ainda não era o Gineto ladrão. O nome veio-lhe depois com os assaltos aos pomares, florestas mais belas do que os esteiros. Mas já era mau e temido. Amigos tinha-os às vezes nos companheiros que precisavam da sua mão certeira para matar galinhas à solta ou colher frutos em pomares recatados. Fora disso, era mesmo um Gineto escorraçado.
Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre, como um homem.
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro agora tilintasse no bolso das calças. Gineto sentia-se tão feliz que não se lembrou das lágrimas que a mãe havia de chorar por ele e pela féria da semana. Subiu o beco do Mirante a assobiar. As quintas estavam ali em frente a retalhar os vales e a seduzir olhares. O sol, ainda alto, tornava mais branco o branco dos muros e revivescia com reflexos doirados as folhas estioladas das videiras. Mas Gineto não receava a luz da tarde. Tinha a certeza que os caseiros não estariam de atalaia, entre os pomares, porque a melhor fruta já fora apanhada. O moço do telhal sabia de colheitas.
Todavia, chegado à estrada, hesitou. Pela primeira vez as suas quintas - suas, como ele dizia - não o atraíram. A Feira afagava-lhe o pensamento; o dinheiro tilintava no bolso... Era livre, sem a perseguição dos caseiros e cães de guarda... Não iria às uvas.
E seguiu estrada fora, antegozando a Feira. Festeiro de pés sem botas e calças com fundilhos, porque não tinha, como Malesso e outros, um fato de feira para estrear." (...)